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Luísa, a concorrente improvável que cantou Marco Paulo no “The Voice Portugal”

Nasceu inspirada pela paixão da mãe pela música, toca há 18 anos com a banda da família e agora quer lançar-se numa carreira a solo.

As memórias de Luísa Vidal da chegada do Papa João Paulo II ao aeroporto de Figo Maduro são pouco nítidas. Afinal, tinha apenas sete anos, quando viu a sua mãe colocar uma centena de crianças com doenças oncológicas a cantar na receção ao líder espiritual da Igreja Católica.

“Foi um dia muito importante para a minha mãe e para a história da nossa família”, recorda a jovem lisboeta de 28 anos. “Um ano e meio depois, o meu pai morreu.” O momento de união de família ficava também registado como o primeiro grande evento do grupo musical familiar que haveria de receber o nome de Figo Maduro.

Mais de duas décadas depois, a jovem concorrente do “The Voice Portugal” pôde juntar-se ao irmão, às duas irmãs e à mãe, a cantar na televisão nacional. Mas antes, Luísa brilhou e conquistou os jurados com uma improvável versão de um tema de Marco Paulo.

Foi um dos destaques da noite de 25 de setembro, durante a primeira prova cega da nova edição do concurso musical. No final, pretendida por Diogo Piçarra e Carolina Deslandes, escolheu manter-se na equipa desta última.

A participação faz parte de um plano desenhado em cima de “um ano de loucuras”. É, contudo, o culminar de uma vida de educação musical proporcionada pela mãe, Madalena Jalles, que Luísa diz ser a responsável por todo o talento musical dos filhos.

“Ela sempre teve uma vertente artística, apesar de nunca ter estudado música. Sempre disse que a educação dos filhos passaria pela música”, recorda Luísa. “Na nossa infância, a música era uma disciplina tão importante como o português ou a matemática.”

Em casa, tudo servia de pretexto para um tema improvisado, uma brincadeira, um pedido de desculpas. Nas mãos, traziam os brinquedos que recebiam no Natal, quase sempre instrumentos. A paixão enraizou-se.

Luísa acabaria por entrar no conservatório, mas desistiu ao fim de alguns anos. Sentiu que era música a mais e, quando as exigências se tornaram mais duras, optou por uma formação tradicional. Estudou marketing e publicidade e lançou-se no mercado de trabalho, embora já trabalhasse há muitos mais anos: na música.

Antes de os Figo Maduro serem um grupo, eram “um projeto de educação musical” idealizado pela mãe. Após a morte súbita do pai de Luísa, continuou a ser um projeto de paixão, mas também de subsistência.

“O meu pai morreu e a minha mãe ficou sozinha a sustentar quatro filhos. Eu era a mais velha, tinha sete anos. O meu irmão mais novo só tinha nove meses. Ficou sozinha com quatro bebés”, recorda. O “período de reorganização” de vida que se seguiu obrigou a uma ponderação.

“A minha mãe não queria desistir da nossa educação artística, queria ter tempo para estar connosco, mas precisava de sustentar a casa. Trabalhar por contra de outrem iria obrigá-la a prescindir de uma dessas coisas”, conta. Felizmente, o empenho que sempre colocaram na música começou a dar frutos.

Animavam eventos religiosos e festas de amigos. A palavra e a fama foi correndo de boca em boca, até que começaram a surgir convites de pessoas fora do círculo de conhecidos. “A minha mãe percebeu que havia procura e, se ela existia, teria que ser remunerada.”

Os quatro irmãos tocam há 18 anos ao lado da mãe nos Figo Maduro

Nasceram os Figo Maduro, já com 18 anos de história. “Vivemos exclusivamente da música durante esses anos. Era o trabalho a tempo inteiro da minha mãe, até nós começarmos a trabalhar.” Ao longo de todos esses anos, editaram vários temas, apenas versões de outros temas, uns religiosos, outros “mais ligeiros” para as festas particulares.

Naturalmente, Luísa começou a moldar a paixão pela música à sua maneira, tal como os outros irmãos. Maria, 26, licenciou-se em canto lírico em Berlim. Madalena, 23, especializou-se no violino. E agora era a sua vez de fazer algo novo.

“Agora estou num ano de loucuras, de me atirar de cabeça”, conta. Casada de fresco em 2021, o marido, engenheiro agrónomo, teve uma oportunidade de trabalho no Alentejo. “Despedi-me, deixei a cidade onde sempre vivi e mudei de vida.”

Era gestora de projetos na área social, mas sentia que o trabalho estava a tornar-se cada vez “mais exigente e desgastante”. Decidiu aproveitar a mudança para tirar um ano sabático.

Hoje, vive num monte alentejano em Avis, onde começou a montar o seu pequeno estúdio. No caderno tem muitos temas e composições originais que poucos ouviram. O objetivo, agora, passa por mostrá-las a cada vez mais pessoas.

“Começou a surgir a vontade de não os deixar por casa, de tirar os temas cá para fora. Este ano já cometi tantas loucuras, que pensei, por que não inscrever-me num programa de televisão e mostrar-me um bocadinho? Senti que ou era agora que fazia isso, para aproveitar os momentos certos, ou então poderia arrepender-me.”

Luísa é a mais velha de quatro irmãos

Assim fez e, no domingo, apostou as fichas todas no The Voice Portugal. Mas no bolso não trazia um original. Marisa Liz percebeu, a meio do tema, que se tratava de uma versão singular de “Ninguém, Ninguém”, de Marco Paulo.

“Eu adoro esta música, tem imensa força. Quando era miúda dançava isto com as minhas irmãs”, conta. “Quando pensei no que ia levar, decidi que ou levava um tema original meu, ou algo muito fora, algo icónico, sempre português, mas algo que fosse diferente. E gosto desta versão porque é muito diferente da original.”

A escolha foi quase perfeita e convenceu metade do painel a segurá-la para as fases seguintes. E se a experiência dos Figo Maduro poderia significar menos nervosismo no momento de subir ao palco, havia também um lado menos reconfortante: a falta da família.

“Quando cantávamos juntos, o peso da responsabilidade era dividido. Havia ali um conforto, um colo. Quando estou sozinha, é diferente”, conta. “Há muitos nervos, mesmo, mas fazia sentido agora eu agarrar nas minhas músicas e ver se podem dar uma carreira a solo. Fazia sentido lançar-me agora, sozinha.”

A solo ou acompanhada, a filosofia não muda. “Acho que a minha música tem um grande poder de partilhar mensagens, porque para mim não é só entretenimento. Tem que fazer as pessoas refletir”, explica. “À medida que cresci com a música, percebi sempre que é uma forma rápida e direta de criar ligações. Não distingue etnias, línguas. É uma forma de chegar ao coração das outras pessoas.”

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