Televisão

Manuel Luís Goucha é um ex-taxista chorão — mas tem um enorme coração

O cronista da NiT Miguel Lambertini analisa os novos programas da manhã e da tarde da TVI.
Goucha, o choramingas.

Esta segunda-feira, 4 de janeiro, estreou o novo programa das manhãs na TVI, o “Dois às Dez”. Começando pelo nome, não acho que seja espetacularmente criativo. Funciona, sim, mas vendo bem também poderia servir como nome de lavandaria de limpeza a seco ou daquelas lojas que vendem comida congelada que as tias adoram ir porque não têm a menor pachorra para entrar na cozinha. “Eu, cozinhar na Consoada? Nem morta! Sabe o que é que eu faço, vou ali ao Dois às Dez em Campo de Ourique, e compro um bacalhau com broa congelado, que é de sonho. Depois digo que foi a criada que fez e faço um brilharete”.

Os dois são Maria Botelho Moniz e Cláudio Ramos, apresentadores que fazem a dupla perfeita. Têm quase tanta química como o Jorge Palma e uma garrafa de Jameson, são divertidos e vê-se que estão felizes naquele papel, o que é meio caminho andado para atrair os espectadores.

O programa começou com imagens de ambos a sair de casa, para ser pouco depois interrompido com uma notícia de última hora. A jornalista do diário da manhã justifica a interrupção para dar conta que “um transporte pesado de mercadorias circula no IC19 com matérias desconhecidas”. O condutor informou as autoridades que as matérias estavam descontroladas e que não garante que conseguirá chegar ao local de destino.” Depois disto, mostram imagens aéreas do camião enquanto um jornalista num helicóptero relata o que se está a passar em tempo real. Uma opção espetacular, sobretudo numa altura em que a luta contra as fake news é um problema real e em que a linha que separa o jornalismo do entretenimento está cada vez mais esbatida. Afinal, vai-se a ver e as “matérias desconhecidas” eram a Maria e o Cláudio, mas aposto que depois desta divertida simulação de notícia de última hora houve muita velhota que ficou o dia todo a perguntar o que se terá passado com aquele camião e a sua carga descontrolada. Descontrolada é dizer pouco, as matérias estavam histéricas mesmo e, por isso, os primeiros 30 segundos em que os apresentadores surgem em direto foram passados literalmente aos berros um com o outro. “Sai do camião! Não saio! Sai! Não consigo! Salta daí! Não vou! Aaaaaaaaaaaaah.” Tudo bem que a maioria dos espectadores dos programas matinais usam aparelhos da Mini Som, mas também não era preciso exagerar.  Chegados ao estúdio, os apresentadores maravilham-se com o cenário e comentam os detalhes como se fosse a primeira vez que veem aquilo. É exatamente o tipo de encenação que eu fazia quando era puto e abria os presentes de Natal, sendo que já os tinha espreitado todos na véspera, às escondidas.

A partir daqui o programa decorreu normalmente e contou, como já é hábito neste formato, com todos os suspeitos do costume: a sexóloga, as caras da estação, a publicidade a produtos apresentada por um senhor igual ao presidente Mahmoud Ahmadinejad, os momentos musicais, os criminologistas e para acabar em grande o 760 com prémios em cartão. A fórmula é esta, mais coisa menos coisa. Tal como a madeixa verde da Maria José Valério, se tem funcionado, não há por que mudar. Mas há também um ingrediente extra no guião dos formatos de daytime que é a partilha de uma história real, normalmente trágica, para fazer chorar. 

Isto porque todos os programas da manhã em Portugal têm três propósitos claros: entreter, emocionar e vender Calcitrin. Há quem nunca tenha conseguido fazê-lo bem, há quem o consiga fazer relativamente bem durante algum tempo, e depois há o Goucha. Há 40 anos que Manuel Luís Goucha faz televisão e há 25 anos que é a cara do daytime e isso, por si só, já é um feito do caraças. Desde logo porque há 40 anos o mundo era bastante diferente, havia apenas um canal de televisão, para conhecer o Big Brother tínhamos de saber ler e o mais excêntrico que o Goucha usava era um bigode à Zé Manel taxista. Por isso, conseguir superar os desafios do tempo, estando sujeito a níveis absurdos de exposição e escrutínio constantes, é algo reservado apenas a alguns poucos.

E talvez não tenha sido por acaso que no dia em que, passados tantos anos, abandona o horário matutino para arrancar com um programa com o seu nome, nas tardes da TVI, Manuel Luís Goucha tenha protagonizado o grande momento da estreia das manhãs. Depois de receberem em estúdio um casal com três filhos que contou como perderam tudo depois da sua casa se ter incendiado na noite de Natal, Maria e Cláudio pedem às pessoas que apoiem esta família através de donativos monetários que lhes permitam reconstruir a sua vida.

“O que é que precisam para tornar aquele sonho realidade?”, pergunta Cláudio Ramos. 35 mil euros é a quantia que ajudaria estas pessoas — cuja roupa que estão a usar naquele momento foi doada porque todos os seus bens desapareceram no fogo — a ter um vislumbre de esperança no futuro da sua família. Neste momento, estava eu a agarrar no telemóvel com vontade de doar uma ínfima mas sentida parcela deste valor — porque era impossível ficar indiferente a esta história, que é como quem diz fingir que não estamos a chorar e que foi só uma coisa que nos entrou para a vista — quando os apresentadores anunciam que Manuel Luís Goucha está em direto ao telefone com uma mensagem para o casal. Goucha diz as poucas palavras que a emoção lhe permite e anuncia que vai doar a totalidade dos 35 mil euros. Foi aí que eu pensei: “Porra, assim não dá, que uma pessoa ligue para o 760 24 25 26 e não consiga ganhar dinheiro é uma coisa, agora que também não dê para oferecer dinheiro, isso já é demais!”

Graças a Deus, ao Buda, à Nossa Senhora do Calcitrim ou no que quer que acreditemos,  Manuel Luís Goucha chegou-se à frente e mudou a vida destas pessoas. Talvez este gesto explique porque é que está há tantos anos à frente da televisão. Só num coração muito grande é que cabem 25 anos de histórias como esta.

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