Televisão

Manuel Luís Goucha: “O perigo das afirmações do Quintino Aires é a generalização”

A NiT entrevistou o apresentador sobre a nova edição do reality show, o balanço que faz deste ano e os planos para os próximos tempos.
O apresentador tem 66 anos.

A 15 de julho, Manuel Luís Goucha foi chamado à direção de programas da TVI. Propuseram ao apresentador que fizesse uma dupla inédita com Cláudio Ramos para juntos apresentarem a nova edição de “Big Brother”, que já estava a ser preparada há algum tempo. E assim foi.

Mesmo que a confirmação só chegasse poucos dias antes do anúncio oficial, Manuel Luís Goucha vê-se como parte de um exército de apresentadores ao serviço de uma estação de televisão. Quando lhe atribuem uma missão, muito raramente recusa. E Goucha é um dos elementos mais experientes e consagrados desse exército.

“Big Brother 2021” estreou a 12 de setembro e vai prolongar-se até ao último dia de 2021. Além das galas, há emissões diárias, os “Extra” e é possível acompanhar a ação em direto da casa — que foi construída pela TVI de propósito — através do TVI Reality.

Aos 66 anos, o apresentador admite que gostaria de, daqui a um ou dois anos, abrandar o ritmo de trabalho na televisão. Aquilo que mais tem gostado em “Goucha” e em “Conta-me” é ter conversas longas com convidados que têm histórias de vida para contar. Leia a entrevista da NiT sobre “Big Brother” e o ano de Manuel Luís Goucha até agora.

Quando lhe apresentaram inicialmente a hipótese de apresentar esta edição de “Big Brother” com Cláudio Ramos, gostou logo da ideia?
Para responder a isso tenho que ir atrás, porque de vez em quando a Lurdes Guerreiro aparecia-me nos estúdios do “Goucha” e perguntava-me assim: o que é que te apetece fazer mais? E a minha resposta foi sempre: nada. Porque quem faz um programa diário de duas horas mas com conversas de 40 ou 50 minutos, e isto é a minha forma de trabalhar, implica muito trabalho. Sou eu que preparo as conversas, sou eu que tenho que ler livros se tiver que ler livros, portanto, o programa da tarde dá muito mais trabalho, apesar de ter apenas duas conversas e duas horas, do que o programa da manhã dava, com três horas e muitos convidados. Porque as conversas podiam ser de 10 minutos e até sobre coisas que eu dominava. Portanto, quando de vez em quando me aparecia a Lurdes Guerreiro no estúdio, ficava cá qualquer coisa dentro da minha cabeça que me dizia: humm, estão-te a preparar alguma. Depois passou o tempo e em julho fui chamado à Cristina, à direção, e propuseram: queremos que sejas tu a fazer o “Big Brother” com o Cláudio. Tudo bem, eu achei que era uma ideia disruptiva. Apesar da diferença de 20 anos entre mim e o Cláudio, temos percursos necessariamente diferentes mas com uma afinidade de grande vontade de fazer, de perseguir um objetivo. Somos capazes de entender a televisão da mesma maneira, depois temos vidas e experiências diferentes, e porque não? De qualquer das maneiras foi uma primeira abordagem, não ficou nada decidido ali. Aliás, a confirmação oficial de que a dupla ia mesmo para a frente tivemo-la para aí cinco ou três dias antes de se conhecer. Portanto, achei interessante, que era capaz de ter piada. Mas já não me lembrava do trabalho que um programa destes dá, porque há três ou quatro anos tinha feito a “Casa dos Segredos”.

É um programa semelhante em termos de método e ritmo de trabalho, ou é uma abordagem diferente?
Em termos de método de trabalho e dedicação, é semelhante. Isto obriga-me a ler relatórios, a ver os diários, a ver os extras, e, se possível, a passar algum tempo a olhar para dentro da casa em direto. Tenho menos tempo para o fazer porque agora o meu ritmo de vida alterou-se. Antigamente tinha a tarde livre para o fazer porque trabalhava de manhã. Mas a manhã rende muito menos. Esgota-se quase na preparação do programa da tarde. E por isso vejo menos em direto. Agora, o ritmo de dedicação é idêntico. Mas isso também é a minha maneira de trabalhar. O que me dá segurança em televisão é eu ir bem preparado, eu saber o que quero perguntar, para onde quero ir, independentemente de depois, seja em que conversa ou programa for, serem as respostas a conduzir a conversa. Quem corre por gosto não cansa mas o que é certo é que até 31 de dezembro deixei de ter o pouco tempo que tinha para mim.

Havia alguma coisa específica que o fizesse querer apresentar “Big Brother”?
Eu acho que é mais um desafio. Não é uma novidade apresentar um reality show porque já o tinha feito, e ao fim ao cabo eu faço parte de um exército, não é? Quer queiramos, quer não. Não sei qual é o meu posto, não interessa, mas faço parte de um exército de apresentadores ao serviço de uma estação. Portanto, se acham que é importante o meu trabalho num programa, vamos lá. E aqui também há outra perspetiva que é o facto de eu fazer dupla. Na tarde o programa até tem o meu nome, sou apenas o apresentador e domino, aqui é voltar a trabalhar em dupla, ainda por cima com alguém com quem nunca tinha trabalhado, a não ser esporadicamente numa ou outra emissão especial. E isso é que é um exercício muito interessante. É respeitar o espaço do outro, é ceder espaço, é dividir jogo e nem sempre é fácil. Com o Cláudio tem sido muito fácil.

A dinâmica da dupla era aquilo que já esperava?
Eu não esperava nada… uma coisa é trabalhar com o Cláudio num projeto especial, sei lá, um “Em Família” num sábado à tarde, e com, penso eu, na altura foi também a Maria Botelho Moniz. Outra coisa é um programa com esta dimensão. O “Big Brother” é aquele tipo de programa que muitas pessoas amam odiar, mas o que é certo é que espreitam. É uma grande produção de televisão, é um programa que envolve uma equipa gigantesca. Um programa da tarde, que é o que mais gosto de fazer sem dúvida porque estou à conversa e a descobrir histórias de vida, é um programa tranquilo, com uma equipa grande mas não é grande em estúdio. É grande na produção, na pesquisa. Agora, isto é um programa com uma dimensão… eu não quero dizer horário nobre porque para mim todos os horários são nobres, mas tem uma dimensão diferente. Mas em termos de trabalhar em dupla eu não esperava nada porque é um começo de um trabalho entre duas pessoas que está a revelar-se muito agradável. Não há o mínimo atrito, a mínima confusão até agora, estamos em perfeita sintonia um com o outro. O desafio maior para mim, além de trabalhar em dupla com um homem, o Cláudio, é estar integrado numa vasta equipa, a Endemol, que está a dar o melhor para que seja um programa de televisão digno de ser visto, apetecido. 

Manuel Luís Goucha e Cláudio Ramos apresentam “Big Brother”.

E para isso muito contribuem os concorrentes.
Independentemente da apresentação, o mais importante de um reality show são os concorrentes. No lote destes concorrentes, ainda estamos no começo e a conhecê-los, apesar de eu e o Cláudio termos acesso a todos os questionários e tudo ao que eles responderam, sobre a personalidade deles, mas o que me parece é que há ali pessoas com cabeça, há muita gente com ideias, objetivos e inteligência emocional. Acho que pode ser um reality show muito interessante nessa perspetiva.

Portanto, tem gostado deste tipo de concorrentes, que foram escolhidos de acordo com o seu perfil para fazerem parte desta edição?
Não tenho de gostar nem de deixar de gostar, vou tentar ser imparcial e não ter preferidos, o que é difícil, mas acho que na maior parte dos casos eles são estimulantes. E espero que estes continuem lá por muito tempo. São desafiantes e à medida que o reality show se vai desenvolvendo, eles também vão libertando camadas da sua própria personalidade. Vão-se esquecendo muitas vezes da personagem que quiseram interpretar e portanto vão-nos dando mais e nós vamos tentando aproveitar isso. Eu acho que este programa é muito desafiante para quem apresenta e sobretudo para quem o produz, para quem concebe a própria estrutura e que muitas vezes também leva os concorrentes a fazer ou dizer coisas porque se põem a jeito.

Ao longo dos anos, o tipo de concorrentes e o próprio programa foram-se adaptando. Esta edição tem vários concorrentes LGBTQI+. Foi a propósito de um desses concorrentes que Quintino Aires, que era comentador do “BB Extra”, foi afastado da TVI depois das declarações que proferiu e que foram consideradas homofóbicas. O que achou desse caso?
Eu conheço o Quintino Aires há muitos anos, não é? E o Quintino Aires sempre se pautou pela frontalidade das suas ideias. Eu acho que ele muitas vezes cai no exagero. O perigo das nossas opiniões torna-se maior quando procuramos generalizar. Não podemos generalizar. E penso que muitas vezes o Quintino é mal interpretado quando as suas afirmações nos levam à generalização. Eu penso que as afirmações dele terão sido a gota de água para uma série de casos anteriores. Eu sinceramente não sei se o teria cancelado do programa, mas não é a mim que me cabe esse tipo de decisões. Portanto, o perigo das afirmações do Quintino Aires é a generalização. Esse é sobretudo o maior perigo. Agora, numa democracia nós temos direito à liberdade de expressão, mas há um limite, ele exercitou a liberdade de expressão dele, a opinião dele e cabe também à estação que o recebe cancelar ou não a sua participação. Não me meto nisso.

Havendo várias pessoas LGBTQI+ nesta edição do “Big Brother”, considera que é importante haver esta representatividade num programa com esta dimensão?
Quer a minha opinião sincera? Eu acho que é um trabalho importante mas temos cada vez mais de trabalhar para que não seja um assunto. E aí tenho de concordar com o doutor Quintino Aires. O facto de eu ser homossexual não me faz nem mais nem menos do que qualquer outra pessoa. Estou integrado numa sociedade que é a sociedade portuguesa. Não sou, não quero ser nem nunca serei bandeira de coisíssima nenhuma. Eu não me guetizo. Sou contra os guetos. Nunca na minha vida me guetizei pelo facto de ter uma orientação sexual. A orientação sexual não me define e portanto eu não sou bandeira de uma comunidade, seja ela qual for. E aí concordo com o Quintino Aires: eu sou homossexual, integrado numa sociedade. E é para isso que temos de caminhar. Com certeza que a comunidade LGBTQI+ — mais não sei quantas letras a seguir, porque vão sempre acrescentando letras consoante a comunidade vai sendo enriquecida —, com certeza que tem feito um grande trabalho. Eu sei que não sou bem visto pela comunidade e estou-me absolutamente nas tintas. Não sei se o Cláudio é bem visto, mas eu não sou bem visto por alguns elementos da comunidade. Mas tenho a certeza de que com a minha postura, terei sido o primeiro apresentador a assumir uma relação homossexual em público, e de certeza que a minha postura diária, mesmo quando estou ao lado do Rui num programa de televisão, faz mais pela comunidade LGBT do que muitas pessoas da comunidade LGBT que têm posições de radicalismo. E eu não suporto radicalismo, seja em que comunidade for. Eu sou Manuel Luís Goucha, cidadão deste país, integrado numa sociedade geral onde existem homossexuais, lésbicas, transexuais, heterossexuais, bissexuais, mas não é isto que define as pessoas. Compreendo a luta, agora eu não tenho que pertencer a uma comunidade. Eu tenho que pertencer a uma sociedade em geral inclusiva. E temo que muitas vezes o discurso radical das pessoas da comunidade LGBTQI+ não venha incluir, mas sim excluir as pessoas. Agora, tenho a certeza absoluta de que a minha prática diária que é de absoluta normalidade faz mais por essa comunidade do que muitos elementos com discursos radicais. Aliás, devo dizer, com discursos preconceituosos. 

Apresentador diz que preparar “Goucha” é mais difícil do que “Você na TV”.

Voltando à pergunta, portanto acredita que é importante haver essa representatividade no “Big Brother”, mas que se deve caminhar para que não seja um assunto?
Claro que é um assunto e até é um assunto que vai ser explorado pelos próprios apresentadores. O ideal será que a médio espaço de tempo, no futuro, isto não seja nem tenha que ser assunto. E vivamos todos em permanente harmonia, respeitando a diferença de cada um, porque todos nós somos diferentes. 

Mudando de assunto, vai fazer um ano que deixou “Você na TV” e passou para as tardes. Que balanço é que faz nesta altura? Suponho que a sua vida se possa ter alterado.
Não, não alterou. Deixei de acordar às 6h30, passei a acordar às 7h30 para preparar o programa de manhã em vez de ser à tarde. E em termos de trabalho não altera. Estou a fazer um programa que gosto. Sabe, quando é para mudar é para mudar. Eu não sou saudosista em relação a nada, saudade nunca fez parte da minha vida nem do meu vocabulário, mesmo em criança. Acabou, acabou. No dia seguinte começa-se outra coisa, ou não, mas neste caso acabei o “Você na TV” numa sexta-feira, comecei o programa da tarde na segunda-feira seguinte. Acho que este é o programa certo para a fase da vida em que estou. Tenho possibilidade de fazer aquilo que acho que é um luxo em televisão, e que por acaso tenho aos sábados no programa “Conta-me”, de 15 em 15 dias, que é poder conversar com tempo. Tenho 40 minutos, quando não 50, para escutar uma história de vida. Que me pode acrescentar, que me pode abrir a cabeça em relação a alguns assuntos. Eu tenho tido histórias incríveis de superação, histórias que procuro sempre que sejam fonte de inspiração. Ainda há dias estava a pensar nisso, que ano fabuloso que acabou por ser este 2021. Que ano que me permite estar à conversa com pessoas, que me acrescentam, que bom que é estar à conversa num programa quinzenal que é o “Conta-me” e ainda, como se tudo isto não bastasse e não chegasse, ainda tenho um desafio nos últimos três meses do ano que é um “Big Brother”, que é uma linguagem completamente diferente. É o grande espetáculo de televisão. O balanço de 2021 acaba por ser muito surpreendente. Eu não me posso queixar da vida, tenho tido a vida que quero. Eu sempre tive a vida que quis, foi esta a vida que quis. E sou muito grato — mas a vida ainda me continua a surpreender passados tantos anos de televisão.

O Manuel também disse em novembro do ano passado, quando foi anunciado o programa das tardes, que imaginava que o contrato que tinha com a TVI, que se iria prolongar até aos seus 68 anos, no final de 2022, que nessa altura não se veria provavelmente a fazer um programa diário. Mantém essa ideia?
Eu mantenho [risos], então agora que estou com tanta coisa para fazer ao mesmo tempo, cada vez mais mantenho essa minha ideia de começar a abrandar. Mas eu achava que tinha abrandado em 2021 e pelos vistos a vida trocou-me as voltas. É dos anos em que estou a acumular mais projetos. Eu agora vou parar com o “Conta-me”, pedi para parar até janeiro, porque o “Big Brother” exige muito. Aquilo que eu penso é que em 2023 eu gostaria, talvez, de abrandar o ritmo. E mantenho isso. Mas também já não vale a pena estar a fazer projetos a médio prazo quando depois me sai tudo furado, não é? Vamos ver.

Nunca se sabe.
A frase não é minha, é do Agostinho da Silva e eu adoro: não vale a pena ter projetos para a vida porque a vida tem projetos para nós. Ora, se eu tenho projetos e depois a vida atrapalha-mos, não vale a pena. 

Contrariando essa frase, mesmo que ela faça sentido, vê-se a continuar a fazer televisão a longo prazo?
Vejo-me a continuar a fazer televisão a um outro ritmo. Programas de conversa com certeza. Vejo-me a fazer programas de autoria meus, com uma equipa minha a produzir o próprio programa. Vejo-me aos 68 a fazer televisão com certeza, mas também se não me vir aos 68 a fazer televisão, não se preocupe que eu tenho muito que fazer, até nomeadamente na herdade. Portanto, tenho projetos até ao último dia da minha vida. Não me vejo é sentado com uma manta nos joelhos a ver televisão. Isso não me vejo. 

Quer dizer que vai estar sempre ativo, é isso?
Com certeza, até ao último dia. Nem que seja a ler, nem que seja a pensar ou a fazer outra coisa qualquer. Num futuro próximo, daqui a um ou dois anos, eu quero ter tempo para ter tempo — nem que seja para perder tempo. Pode-me apetecer sentar-me a fazer nada, que é uma coisa boa e que não faço há muitos anos. Não é não fazer nada, que isso é uma redundância, é a fazer nada. Daqui a um tempo, quero ter tempo para ter tempo para o perder se me apetecer. 

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT