Televisão

Margarida Vila-Nova: “Quando olho para mim, acho que ainda sou uma miúda”

A atriz portuguesa falou com a NiT sobre a sua próxima série, “Causa Própria”, e sobre o filme “Revolta”.
A atriz tem 37 anos e é natural de Lisboa.

Aos 37 anos, é uma das atrizes mais experientes da sua geração. Afinal, Margarida Vila-Nova, filha de dois produtores, estreou-se no cinema com apenas quatro anos, em “O Bobo”, filme de José Álvaro Morais que chegou aos cinemas em 1987.

Desde então tem feito uma prolífica carreira entre o palco dos teatros e os sets de gravações de filmes, séries e novelas. A última vez que a vimos foi como Vera, a gerente de “O Clube”, série da Opto que estreou no ano passado e que já teve direito a uma segunda temporada.

Em conversa com a NiT, Margarida Vila-Nova fala dos seus dois próximos projetos. Um deles é “Causa Própria”, série dirigida por João Nuno Pinto que vai estrear na RTP, cujas gravações começaram recentemente. O outro é um filme rodado no ano passado, “Revolta”, realizado por Tiago R. Santos, na sua estreia nesta posição (depois de tantos projetos como argumentista). Leia a entrevista.

Em que está neste momento a trabalhar?
Neste momento acabei de iniciar as gravações da série “Causa Própria”, sobre a história da juíza Ana Martins, que é interpretada por mim. Ao longo de sete episódios vamos assistindo a um homicídio nesta cidade, onde esta juíza se vai deparar com questões, com uma grande escolha que tem de fazer na vida, entre as suas crenças políticas, as suas causas judiciais, a justiça, e o drama pessoal de ver implicado neste crime o seu próprio filho. É uma ação que decorre numa terra de província e onde vamos assistindo a vários casos, acompanhamos a justiça diária — entre assaltos, violência doméstica, burlas — e estas personagens.

Será uma série para a RTP, certo?
Sim, foi escrita pelo Rui Cardoso Martins, baseada nas suas crónicas que se chamam “Levante-se o Réu”, publicadas atualmente no “JN”, e no qual já resultaram dois livros. E estas crónicas baseadas em factos reais foram transformadas e adaptadas para esta história de ficção — o fio condutor é esta personagem juíza que vai conduzindo estes casos e esta gestão entre a vida profissional e pessoal, que a obriga a fazer uma escolha determinante. E também foi escrita pelo Edgar Medina, por isso foi escrita a duas mãos — a quatro, vá. Não, a duas, porque eles só escrevem com a direita [risos]. E vai ser exibida na RTP, não sei ainda a data de estreia. E fico muito contente de trabalhar com o João Nuno Pinto, um realizador com quem ainda não tinha tido o prazer de trabalhar, mas está a ser uma experiência muito prazerosa. É uma equipa de excelência, com o Gonçalo Waddington, Nuno Lopes, Maria Rueff, Adriano Carvalho, Catarina Wallenstein… Estou muito bem acompanhada.

Quando lhe apresentaram este projeto, o que é que a atraiu mais na história ou na sua personagem?
Este projeto começou a ser namorado já há dois anos. Primeiro, é sempre um privilégio ter dois autores a escreverem para nós — quando sabemos que uma personagem foi escrita para nós a interpretarmos. Isso também acresce uma responsabilidade e há um lado de entrega e de cumplicidade com o próprio projeto, porque o tenho acompanhado há dois anos. Já foram várias as versões, a forma como abordaram a personagem e a justiça. E interessa-me porque estamos num momento em que a justiça está na ordem do dia e somos alertados ou acordados para tantos casos transversais… Interessa-me pensar e trabalhar sobre a justiça. É sempre interessante o trabalho de pesquisa, tenho estado a acompanhar algumas sessões no campus de justiça para acompanhar este universo que me era tão distante.

Para se preparar para o papel.
Sim! É sempre uma grande responsabilidade quando nos convocam para uma protagonista, porque sabemos que há um fio condutor que esta personagem tem a responsabilidade de levar. Há um arco que vai atravessar a história toda, e sobretudo porque é uma personagem muito complexa. Acho que os maiores dilemas na vida são quando nos deparamos com estas escolhas que temos de fazer, que vão contra tudo aquilo em que acreditamos, aquilo que defendemos, o que nós pensamos, em prol… neste caso é de um amor por um filho, mas pode ser por um drama familiar. Acho que estas escolhas morais e conflitos são sempre muito delicados de tratar. Neste caso, quando temos uma juíza que tem um filho que pode estar implicado num crime, é sempre curiosa esta forma de pensar. Salvar um filho é deixá-lo ser condenado em praça pública e ele ser responsabilizado? É protegê-lo, defendê-lo e tirá-lo do local do crime? O que é salvar um filho? O que é fazer justiça? É uma questão muito curiosa e delicada, se há ou não provas em cima da mesa, se há ou não forma de condenar os arguidos, se essa condenação é moral ou judicial… São temas do foro interior, mais do que uma questão prática, factual, óbvia. Vai muito além disso e isso é sempre inquietante.

Portanto, também são estes dilemas morais que são explorados na série.
Sim, é uma série de ação, de crime, de investigação, suspense. Estas personagens são constantemente desafiadas por estes conflitos morais.

E é uma personagem muito diferente da que fez anteriormente em “O Clube”, a sua mais recente série, suponho.
Sim, são personagens muito distantes. Felizmente, nos últimos tempos tenho tido a sorte de me cruzar com personagens tão diferentes e complexas. Acho que aquilo que me diverte em ser atriz é precisamente poder viver outras vidas, vidas que não são minhas. É uma forma de eu também sair da minha própria vida e de me afastar de algumas contrariedades que a vida nos apresenta [risos]. É poder ir viver outras histórias, outro universo. É sempre tão curioso para mim estudar o outro. Perceber o outro, colocar-me no lugar do outro, perceber quais são as suas motivações. Acho que o ser humano é tão complexo e tão surpreendente, tanto nos momentos mais românticos como nos momentos mais dramáticos. E eu gosto dessa possibilidade de poder viajar por outras vidas, outros tempos, outros lugares. Acho que é o que me faz feliz no meu trabalho.

Há algum tipo de papel ou de personagem que nunca fez, mas que gostaria muito de interpretar?
Já tive, mas acho que hoje em dia nenhum. Porque acho que ainda tenho muita coisa diferente por fazer, ou seja, eleger um tipo é muito redutor. Porque quanto mais trabalho e mais faço projetos, mais complexas vejo as personagens, e mais distantes e diferentes. Acho que sou sempre surpreendida pelas personagens e deixar que os nossos medos, os nossos preconceitos, os nossos juízos morais, os nossos valores, sejam colocados atrás das personagens. Estarmos ao serviço de uma personagem é um exercício enorme, e a minha tentativa é sempre essa. Às vezes, com esta personagem, dou por mim a pensar “mas ela não podia fazer isto”. Ela não podia porquê? Se calhar sou eu, Margarida, a pensar. Engraçado é justificar, encontrar estas motivações e estas razões para as personagens serem assim ou assado. Agora, nós somos tão diferentes uns dos outros, que, de facto, cada personagem é um desafio. Podem ser maiores ou menores, mais ou menos complexos, mas acho que ainda tenho todas as personagens do mundo para fazer pela frente. Na ficção em televisão, nos últimos anos, temos assistido a uma transformação no panorama. Entre as novas plataformas e coproduções que surgiram, entre a aposta nas séries por parte de várias produtoras e estações de televisão, permitiram que o mercado tenha mais oferta, mais diversidade — tanto de tipos e géneros de séries como profissionais — e isso traz mais riqueza ao nosso panorama. Não quer isto dizer que não estejamos sempre a falar de orçamentos baixos e de um público com um mercado pequeno, tendo em conta o País em que vivemos. Mas isso não tem sido razão para que as coisas não se façam. E acho que estamos num momento importante e novas portas, projetos e alternativas podem surgir. E interessa-me estar próxima destes novos formatos e destas novas produções que estão a surgir.

Estava a falar dos vários papéis que gosta de fazer, e suponho que o equilíbrio entre o trabalho no teatro, nas novelas, nas séries, no cinema, também é aí que está a virtude para um ator.
Sim. Nem sempre temos o poder ou o privilégio de poder escolher os nossos projetos. Pelas mais variadas razões — porque as datas coincidem umas com as outras, ou porque não há ofertas em cima da mesa, por alguma razão. Poucos atores podem escolher aquilo que vão fazer. Mas mesmo dentro das opções e do que vai surgindo, é mais entusiasmante ou desafiante quando podemos circular em todos os géneros. Agora estou a fazer esta série, voltei a ficar super entusiasmada com a maneira como vamos filmar, e como são os dias de ensaios, de preparação, de rodagem. Há uma certa adrenalina de que já tinha saudades. Mas também sei que, quando chego ao teatro e começam os ensaios, fico rendida a todo o trabalho de mesa, todo o estudo de texto, todo o processo criativo, a descoberta, as improvisações que nos transportam para um outro tempo e lugar. Estou sempre a reapaixonar-me de cada vez que inicio um projeto. Eu não tenho preferência, gosto de fazer tudo. Que horror, isto dito assim parece mal [risos], mas eu não consigo eleger onde é que sou mais feliz. Eu percebo que volto sempre a um lugar onde fui feliz quando volto a fazer teatro, ou quando volto a fazer cinema, ou televisão. Tirando a questão das novelas, que é sempre um bocadinho mais delicado, porque são sempre formatos mais frágeis, onde já sabemos que em termos de formato, de argumento, de realização, é necessariamente mais frágil pelas condicionantes em que é feito. Não quer isso dizer que depois eu não tenha brio a fazer o projeto, isso é outra coisa. Mas um artista tem um lado criativo e, se não estiver a sê-lo, é muito infeliz. Eu fico muito frustrada e infeliz quando não consigo criar, quando não me consigo entregar a uma personagem. Mas, independentemente de tudo, não me posso esquecer que é um trabalho. Pode haver projetos mais interessantes do que outros, mas não quer dizer que não os faça com a mesma dignidade e respeito se fosse outro projeto. E, sim, já sabemos que a novela é um formato mais frágil, e que preferencialmente podia fazer só filmes, séries e teatro o resto da vista, mas nem sempre o mercado nos permite essas escolhas.

Apesar de a Margarida ter começado a carreira muito cedo, e de ser já um percurso muito longo, sente que tem imenso para fazer.
Sim! Falta-me fazer tanta coisa. Já não vivo é tão ansiosa. Antigamente — parece que já sou velhinha — era muito ansiosa pelos desafios, pelas novas personagens, de me provar a mim própria, de me provar aos outros. Tinha uma urgência em fazer as coisas. Acho que a idade e a experiência também nos levam para um lugar de alguma calma, de aguardar pelas oportunidades quando elas chegarem, aceitar que há coisas que são para nós e outras que são para os outros. Mas ainda que não tenha uma urgência de fazer tudo, se pensar que tenho o resto da vida para fazer aquilo de que mais gosto, são muitos longos anos pela frente para fazer imensa coisa. E, pondo as coisas assim em perspetiva, acho que tenho tudo por fazer. Acho que ainda não fiz metade do que posso vir a fazer. Há infinitos autores para trabalhar em teatro e muitíssimos e bons realizadores dentro do panorama português com quem eu ainda gostava de trabalhar. Se calhar já não vou a tempo de fazer uma “lolita” mas pronto [risos].

Claro que os papéis que os atores fazem estão relacionados com a idade que têm – embora alguns sejam mais maleáveis do que outros. Mas também vê isso com bons olhos? Ou seja, há muitos papéis que ainda não pôde fazer porque não chegou a essa idade, mas também tem vontade?
Eu antes ficava muito angustiada porque achava que estava a começar a perder a idade de poder fazer algumas personagens mais joviais [risos]. Mas, de repente, a questão de ganharmos anos, de o tempo ir passando, é de facto bagagem de vida que trazemos depois para as próximas personagens. Ou seja, eu acho que hoje ou amanhã posso ser uma melhor atriz porque a minha bagagem de vida, tudo aquilo que já vivi, que já perdi, tudo o que já fiz ou não fiz, o que me impediram de fazer — estou a falar da vida, de amores, desamores, dissabores, perdas de parentes próximos, questões financeiras, quarentenas, filhos, escolhas, viagens. Toda a nossa bagagem vai acrescentar e trazer peso e dimensão às nossas personagens. Acho que é preciso viver um pouco e quanto mais vivemos mais aprendemos e mais ricas se podem tornar as nossas personagens. Então eu não vejo aquilo que eu não fiz para trás como prejudicial. Vejo antes todos os anos para trás como ferramentas em que posso investir. Isso tem a ver com alguma maturidade de pôr as coisas em perspetiva. Eu também sei que sou uma otimista e que vejo sempre o lado bom da coisa, e acho que aquilo que não foi feito com determinada idade pode ser substituído por outra personagem mais à frente, com outra carga, com outro peso. Por exemplo, o facto de eu hoje estar a fazer uma mãe, esta juíza Ana, só a podia fazer agora, não só por uma questão de idade, mas…

Por também ser mãe?
Não é só por ter sido mãe. Acho que o facto de ser mãe ajuda-me a construir esta personagem, mas não temos necessariamente de ser toxicodependentes para fazer uma toxicodependente, ou não temos que ter sido uma prostituta para fazermos uma dona de bordel, como eu fiz. Não quer isso dizer que temos de viver determinadas experiências que se assemelhem à natureza da personagem, mas há uma bagagem de vida. Acho que só na dor é que crescemos, e só na dor é que relativizamos as coisas ou ganhamos outro universo interior, e isso eu não acho só em relação aos atores. Acho que é em relação aos artistas de uma maneira geral. Quanto mais os anos passam mais completo e complexo pode tornar-se um artista. E eu espero isso um dia. E quando olho para mim acho que ainda sou uma miúda. Às vezes fico surpreendida que já tenham passado 37 anos. Mas, pronto, isso tem a ver com uma forma de estar na vida e não com aquilo que a vida me trouxe enquanto desafio.

E como começou a trabalhar tão cedo, calculo que se possa sentir mais madura do que outras pessoas ou colegas com a mesma idade.
Eu tento sempre não me comparar, porque cada um tem o seu caminho. E na atualidade acho que temos atrizes muito talentosas. As minhas pares são muito talentosas. Mas não o vejo como uma ameaça. Para mim é motivo de orgulho e de exemplo segui-las ou encontrar referências. Aprender com elas. Eu aprendo muito quando vejo os atores a representar. Quando estou em processo de criação, gosto de ir ao teatro, gosto de ir ver cinema, de ver séries… Às vezes é um olhar, um gesto, uma entrevista com um ponto de vista que nos faz debater a vida ou o nosso método de trabalho. E cada ator é único. Esta mesma personagem podia ser feita de forma completamente diferente, e não estaria nem melhor nem pior, nem errada ou certa… era diferente. E essa individualidade, quer nas personagens, quer nos atores, é isso que nos torna insubstituíveis. Claro que podemos sempre ser substituídos uns pelos outros [risos], mas torna únicos aquele processo e aquele projeto. 

Houve assim algum filme ou série que tenha usado como referência para se preparar para “Causa Própria”?
Sim, ultimamente tenho visto muitas séries de advogados e de juízes [risos], com uma investigação pelo meio. Ou séries ou filmes com mulheres, porque me interessa ver atrizes a trabalhar. Foram muitas as referências e as discussões em torno do que poderia servir este projeto.

A Margarida também participou no filme “Revolta”, de Tiago R. Santos, sobre o qual pouco se sabe. Pode revelar que personagem vai fazer?
Sim, este filme não podia ser mais atual. Passa-se durante um período de… não lhe quero chamar Covid, não o tratamos assim no filme, mas um período de quarentena. Há um número de casos e de contágios muito elevado, em que temos um país virado ao contrário, economicamente, financeiramente, politicamente destruído. Bem, nós não estamos nesta fase [risos]. A única comparação com o tempo real é que estamos neste período de quarentena. Mas no filme há um vírus extremamente agressivo, há um descontentamento geral muito grande, uma crise que atravessa o País todo, e quatro amigos reúnem-se para jantar. Esta privação, do tempo em que todos estiveram fechados e isolados, sozinhos, gerou vários conflitos amorosos, dentro destes dois casais. E os segredos, angústias e medos acabam por ser revelados ao longo deste jantar. A ação decorre num único jantar, num único décor, na casa do casal interpretado pela Teresa Tavares e pelo Ricardo Pereira…

É quase teatro, nesse sentido.
Exatamente. A proposta do filme é um pouco essa. Aliás, o processo de ensaio desse filme foi todo ensaiado como se fosse uma peça de teatro. Nós costumávamos fazer aquilo a que chamamos os corridos — um ensaio do princípio ao fim — e fazíamos o filme inteiro durante os ensaios para encontrar a velocidade, os conflitos, o arco dramático, as revelações, as lágrimas, os risos, em que os copos são bebidos a mais e os ânimos aquecem. Lá fora, há uma crise, a cidade está debaixo de fogo com motins e exaltações, alguma violência. E o ser humano quando é testado em situações limite, quando está em perigo, esta questão da sobrevivência é muito assustadora, porque podemos tornar-nos nuns pequenos bichos [risos]. E este filme foi muito interessante no processo de ensaios, a rodagem foi muito intensa e durante longas noites, fomos todos fechados num décor em julho do ano passado. Não sei qual é a data de estreia ainda, mas concerteza que será para breve.

Quais são as características da personagem da Margarida?
É uma personagem que vive no limite, muito livre. É uma personagem amoral, que não tem juízos de valor, não é moralista, paternalista. Desafia o próximo. É inconformada. Não quer dizer que esteja amargurada, mas vive inquieta, revoltada e que se questiona a si e aos outros permanentemente. Vive ali na corda bamba. Mas acho que por trás desta capa é muito insegura, muito instável, à procura de ser amada, de ser compreendida e aceite. E esta busca pela aceitação leva-a para este conflito interior muito grande.

Houve algum tipo de preparação específica para este papel? Ou nem por isso, como não é tão temática e tem mais a ver com dinâmicas de relações humanas?
Sim, aqui houve uma preparação mais de trabalho de mesa, de questionar as cenas, de ter de haver um conflito que acompanhasse estas quatro personagens permanentemente. E em janeiro deste ano também estive a fazer teatro, que também foi um processo…

No Teatro Aberto?
Sim, começámos a ensaiar em janeiro. Era uma proposta chamada “Palavras em Palco” sobre diversos autores que vão ser tratados ou abordados. Neste caso foi a Caryl Churchill, uma dramaturga que atualmente tem mais de 80 anos. É muito ativista, as peças são muito politizadas, a discussão no feminino, política, religiosa. São questões que a inquietam e que ela aborda. E era um espetáculo para ser ensaiado em janeiro e estrear em fevereiro. Entretanto, acontece o confinamento e os ensaios são transportados para o Zoom. Foi uma aprendizagem muito grande. Se me dissessem que iria ser assim que ia trabalhar, talvez o meu primeiro instinto fosse que não fazia sentido. Para mim o teatro é um trabalho de partilha, é uma criação coletiva, uma participação ativa de todos juntos. E de repente dei por mim nesta situação e também me interessa fazer parte da mudança. E também perceber o que é que, nestes tempos, como é que nós nos desafiamos a nós próprios e como é que ultrapassamos as condicionantes que a vida nos apresenta. Não é um problema meu, nem teu, é mundial. E todos estão a encontrar ferramentas e estratégias para se adaptar. E esta questão da sobrevivência é engraçada nesse ponto e como é que nós nos adaptamos e nos ultrapassamos nestas contingências. Foi um trabalho mais solitário, mas, ao mesmo tempo, muito solidário entre todos. Cada um atrás daquele ecrã também tinha todo um conflito pessoal e familiar a acontecer paralelamente. Foi um processo intenso, mas bonito. E quando regressámos ao teatro, pelas circunstâncias todas, já não fazia sentido apresentarmos ao público, até porque não sabíamos à época…

Quando é que as salas de espetáculo iam reabrir?
Ainda não estavam definidas as datas. Então, a opção foi filmar o espetáculo, como tantas outras companhias fizeram, e o Teatro Aberto sugeriu encontrar um casamento entre o teatro e o cinema. Porque o teatro é o teatro e o cinema é o cinema. Há uma experiência coletiva de ir ao teatro, e há uma relação entre o público e o ator que não é substituível ao ser filmado. Mas podemos aceitar como uma nova abordagem, até um novo formato que pode nascer desta “desgraça”. E assim foi convocado um realizador, que, juntamente com a encenadora, filmaram o espetáculo por cenas. Na certeza, porém, que cada vez que gravávamos uma cena, estávamos a fechar um ciclo e um processo e nunca o iríamos estrear. Depois, esteve disponível online gratuitamente para quem quisesse acompanhar em casa, e foi uma experiência. Acho que destes momentos resultam sempre novas formas de nos entendermos, de entender o outro, o processo em si, os novos desafios.

E foi um processo único, por causa destas circunstâncias.
Mesmo atualmente, a filmar, é diferente. A questão do uso da máscara, de sermos testados, das limitações que temos ao longo do processo. Há uma tensão que não tínhamos antes. Mas acho que todos nós precisamos de trabalhar, gostamos de trabalhar, e a cultura foi um setor extremamente afetado, que está a atravessar um período muito delicado. E é urgente e importante que haja uma política cultural que responda a todas as necessidades neste momento, de todos os artistas do setor. Ainda há um longo caminho por fazer.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT