Televisão

Maria João Costa: “Acho que há algum preconceito com as novelas em Portugal”

A NiT entrevistou a autora de “Amar Demais” e “Valor da Vida”, que também escreveu “Pecado”, a nova minissérie da TVI.
A série estreia este sábado, 25 de setembro.

É este sábado, 25 de setembro, pelas 22h30, que estreia a nova minissérie da TVI. “Pecado” tem seis episódios, foi gravada há um ano e foi encomendada à guionista Maria João Costa, a autora principal das novelas “Ouro Verde”, “Valor da Vida” e “Amar Demais”, da mesma estação de televisão.

Santiago (Pedro Lamares) é um padre com um percurso promissor, até que se apaixona completamente por Maria Manuela (Daniela Melchior), o que põe em causa não só a sua carreira, mas toda a sua vocação e fé em Deus. É esta a premissa para aquilo que a autora descreve como um “drama thrillesco”.

O elenco desta produção dirigida por ​António Borges Correia inclui ainda Lourenço Ortigão, Diogo Infante, Dalila Carmo e Guilherme Filipe. Todas as personagens escondem um segredo, que dolorosamente será revelado durante a narrativa. As gravações aconteceram entre Lisboa e Estremoz — onde se passa parte do enredo.

Leia a entrevista da NiT com a autora Maria João Costa sobre “Pecado” e a diferença entre escrever novelas — formato televisivo que a guionista diz ser alvo de preconceito em Portugal dentro do setor audiovisual.

Sobre “Pecado”, foi a Maria João que sugeriu esta ideia? Ou foi a TVI que encomendou uma série com estas características?
Foi a TVI que encomendou a série com estas características. Esta série foi pedida há dois anos e na altura estavam a sair imensas notícias nos jornais sobre escândalos relacionados com padres — continuam a sair, na verdade, todas as semanas. Ou um padre que tem duas famílias, um padre que vai ser pai, foi uma altura em que estavam a acontecer muitos escândalos desses. E a TVI quis fazer uma série onde se abordasse essa temática, do celibato dos padres. Depois a parte mais thrillesca já foi uma questão mais autoral, que acrescentei à ideia original.

A partir do momento em que recebeu a proposta, de que é que gostou mais e que abordagem é que procurou fazer?
O que me agradou mais, primeiro, foi a possibilidade de ser uma minissérie. Eram só seis episódios, nós estamos habituados a trabalhar em formatos mais longos. É refrescante, mas com o contraponto de: eram seis episódios mas tínhamos pouco tempo para os fazer. Na verdade queríamos ter mais tempo para os seis. Mas, pronto, o ser curto era muito bom, no sentido de poder explorar um novo formato. E depois achei que era interessante, apesar de a história central ser bastante clássica, porque quando trabalhamos com um canal aberto temos de pensar no tipo de público que temos do outro lado. E sabemos que se fôssemos por temas demasiado polémicos no seio da igreja, o público de canal aberto tenderia a afastar-se disso, não é? Se tivéssemos ido por questões dessas: o padre que é pedófilo. Quantos casos há desses? Ou um padre que engravida duas mulheres ao mesmo tempo. Seria interessante de trabalhar para mim, enquanto guionista, mas em termos práticos em relação àquilo que é um público de canal aberto, poderia criar alguma rejeição. Tivemos que ser um bocadinho mais conservadores em relação a isso. E por isso é que tentámos integrar aquele lado mais thrillesco da história com cada uma das personagens tendo um segredo, já que eram poucas. E todas convergem no mesmo sentido. A série é um drama thrillesco, como eu lhe chamo, que tem uns toques de tragédia porque tudo isto se encaminha tudo para uma grande tragédia. No sentido em que estas personagens que parecem todas muito leves no primeiro episódio depois começam-se todas a encaminhar para… parece que entram numa panela de pressão que estoira no último episódio. Começa muito leve e solta, e depois não é nada do que parece que é. Aquilo vai encorpando e as personagens vão todas entrar em choque e os segredos de uma colidem com as outras, tendo impacto em todos eles. O que parece ser um segredo isolado que não faz mal a ninguém de repente torna-se fatal para todos.

Um clímax no final que resolve tudo e aumenta a escala?
Exatamente. O próprio Diogo Infante tem uma personagem em que ela própria é uma panela de pressão. Está ali em segredo a sofrer a história toda, mas a obrigar as pessoas a fazer coisas e não lhes explica porquê, no fundo é para a segurança delas mas ele não lhes pode dizer. E aquilo só o leva a fazer coisas disparatadas, porque está sob pressão, e por acaso gosto disso nas personagens. Mas olhando para o primeiro episódio, ninguém diria que acabariam naquele crescendo.

A primeira novela de Maria João Costa foi “Ouro Verde”.

Como a Maria João estava a dizer, tem escrito várias novelas nos últimos anos, que são produções de ficção muito mais longas e com uma abordagem diferente. Foi um desafio contar uma história com esta duração?
Acho que são projetos de naturezas completamente diferentes. Acho que é mais difícil fazer uma história muito longa do que uma muito curta, na verdade. Difícil é alimentar tantos episódios. Aqui partimos de um ponto de partida que tem uma história com menos personagens, acho que é um desafio intelectual no sentido de se contar uma história num formato diferente, mas não assusta nada nem diria que é mais fácil ou difícil. Tem características diferentes. Mas acho muito bom nós podermos explorar outros formatos. Acho ótimo não estarmos sempre… Eu que realmente faço muito novelas é refrescante poder fazer formatos mais curtos, como é evidente. Porque a novela consome-nos muito tempo de vida durante o processo de escrita e podermos fazer um projeto curto não só nos permite em teoria podermos pensar melhor em cada um dos episódios como acaba por nos consumir menos tempo no geral. Nós perdemos muito tempo de vida quando estamos a escrever uma novela. É um ano inteiro seguido a escrever. São coisas incomparáveis. Aqui o ideal teria sido termos tido mais um ou dois meses para escrever esta série, mas, pronto, foi ótimo podermos tê-lo feito de qualquer forma.

Como estava a dizer, foi uma série feita a pensar num público generalista. Este público, que está muito habituado a novelas na televisão portuguesa, acredita que também pode ser igualmente recetivo a séries ou a projetos mais curtos? É uma aposta que deve ser feita por parte dos canais?
Eu acho que hoje em dia as pessoas têm um ritmo de vida tão acelerado que tudo o que forem projetos de menor duração são bons para o público no geral, independentemente de serem público de canal aberto ou fechado. Porque as pessoas têm pouco tempo. Por isso, quando têm a possibilidade de ver uma série ou uma novela mais curta, têm menos resistência para começar a ver, porque percebem que vão despender menos tempo para acompanharem até ao fim se quiserem acompanhar. Eu acho que os canais continuam a fazer novelas porque em termos de rentabilidade é o que faz sentido para as estações. Porque infelizmente os orçamentos não esticam, a publicidade hoje em dia também é dividida com o digital e então os negócios têm que ser reinventados. Acho que todos os canais abertos, por eles estariam a fazer muito mais séries, só que depois não há orçamentos possíveis, porque as séries são muito mais caras do que a novela. A novela continua a ser o formato de eleição preferido apenas por uma questão prática, que tem a ver com o orçamento, não tem nada a ver com a vontade do canal. E eu acho que o público está habituado a ver novelas, mas não vê só novelas. Gostam sobretudo de tramas que sejam próximas da sua realidade. A história do padre é próxima de muitos portugueses, mesmo a história de amor proibido… Mas tal como a série começa com o episódio da queda da pedreira em Estremoz — que é inspirada na [derrocada da vida real] que houve em Borba —, acho que eles se reconhecem nesses temas. Mais do que tentar fazer uma coisa que é no mesmo tom da novela, não é isso, importante é trazer temas que as pessoas reconheçam. Apesar de termos toda a parte da pedreira com tráfico de cocaína, o que não é muito familiar, ao terem elementos que já conhecem já compram o resto da história. Até porque nas novelas inventa-se muito. 

Em que sentido?
Ao contrário do que se possa pensar, as novelas são muito mais do que só histórias de amor impossível e vinganças. A minha segunda novela [“Valor da Vida”] tinha um tema super futurístico: um homem que volta a casa 20 anos depois de ter sido dado como morto quando chega percebe que todos envelheceram 20 anos menos ele, que continua igual ao dia em que partiu e ninguém sabe porquê. E essa novela entrava pelo tema da criogenia, portanto às vezes as pessoas também não acompanham bem o que se passa no universo das novelas. As novelas também já não são tão clássicas. Isto poderia ser uma sinopse de uma série, não é? Mas fizemos em novela. Lá está, são temas completamente à frente que se diria que o público de um canal aberto não está preparado… Porque depende de como é cozinhado, temos de temperar aquilo com outros ingredientes que nos são familiares e o público já quer ver. Acho que o público está mais preparado do que se possa pensar e acho que também gostariam de formatos mais curtos. Se os canais tivessem fontes de rendimento que lhes permitissem apostar mais nisso, acho que estrategicamente faz todo o sentido e acho que lhes passa completamente pela cabeça. É preciso é encontrar uma forma de conseguir financiar esses formatos.

Sente que as novelas são menorizadas por algumas fatias da população?
Sim, acho que há algum preconceito, talvez até mais do próprio setor audiovisual. O setor está meio dividido nalguns grupos. Mas acho que é uma coisa muito portuguesa. Eu por exemplo tenho um produtor brasileiro, que até é de uma produtora de cinema, e eles têm uma atitude completamente diferente em relação às novelas. Eles acham que os autores de novela são muito ecléticos e que entregam. Eles dizem, por exemplo, que o Brasil está cheio de autores com boas ideias mas que não as conseguem concretizar. E eles acham que os autores de novelas têm essa flexibilidade. Não só estão habituados a uma grande carga de trabalho, como a prazos. Lidam bem com a pressão, entregam e portanto acham incrível nós fazermos novelas. Acham que os autores que fazem telenovelas fazem qualquer coisa. É engraçado como o ponto de vista pode ser diferente. Por isso até acho que isso é uma coisa muito portuguesa. Talvez porque aqui o mercado é muito pequeno, de haver diversas capelinhas de se fizeres isto não fazes aquilo, mas acho que as coisas começam a mudar. Nós com a “Ouro Verde” ganhámos o prémio de ficção da SPA, a concorrer com séries, e foi uma coisa extraordinária. Mostra que já começa a haver uma abertura e a perceber-se que, para as condições que temos de trabalho para fazer uma novela… Normalmente escrevemos um episódio por dia. Portanto o episódio que temos é sempre um rascunho do que poderia ser. Nunca vai ser perfeito, não há hipótese. Eles gravam um episódio e meio por dia, portanto nós temos que entregar um por dia e começamos à frente e acabamos um mês antes da produção. É de loucos. Agora, se se olhar para as limitações que nós temos, em termos do tempo que temos para sermos criativos, para realmente trabalharmos aquilo, o que nós fazemos todos — os guionistas, os atores que gravam loucamente por dia, toda a equipa técnica — tudo o que se faz com o orçamento que temos é incrível. Fazemos mesmo omeletes sem ovos [risos]. Em termos de qualidade, o que nós conseguimos com o trabalho que nós temos… Acho que às vezes há uma falta de informação de quem comenta ou observa as novelas. Não percebe a limitação que existe para se fazer, as dificuldades em que elas são feitas. Ninguém tem muito tempo para pensar naquilo. É o melhor episódio que pode sair naquele dia. E depois todos nós temos dias bons e maus: às vezes estamos doentes, ou mal-dispostos, ou com problemas. Na última novela aconteceu-me de tudo: estive internada no hospital, o meu cão foi atacado por outro e esteve a morrer um mês num veterinário, tivemos a Covid, tivemos atores que morreram durante as gravações, aconteceu de tudo. Naturalmente, isso afeta o nosso estado de espírito, a nossa capacidade de escrita e nós não podemos parar e temos que continuar a escrever apesar disto tudo. E acho que as pessoas às vezes se esquecem de que a vida de um autor de novelas é isto. Portanto, acho que na verdade somos quase uns super-heróis ao fazer o que fazemos da maneira que fazemos. É um luxo ter três anos para escrever um filme, não é?

Daniela Melchior interpreta Maria Manuel.

A Maria João gostaria de um dia escrever um filme?
Eu escrevi uma longa-metragem agora para o Brasil, ainda está em fase de pré-produção. É um drama mas tem a ver com a falência do sistema de segurança social, é uma sátira a isso. E é para ser feito entre Portugal e Brasil, mas os produtores são brasileiros. E acho que uma coisa não impede a outra. Quem faz uma coisa faz as outras todas, não é? Mas noto mais interesse, por exemplo, do mercado brasileiro, porque acho que não tem preconceito. Mas também é um mercado maior.

Também pode ser mais fácil de concretizar lá um projeto.
Sim, se bem que eles estão agora com uma grave crise cultural. Estão com problemas graves por causa do governo Bolsonaro. A cultura lá está a passar um momento difícil e a Covid lá também foi muito pesada, por isso o último ano foi muito difícil no Brasil nesta área, porque parou tudo, praticamente. Mas eu acho que é um país com um público imenso e que é uma ponte natural para nós que somos portugueses e falamos a mesma língua. Eu vivi lá vários anos, tenho muita afinidade cultural com o país e sou um bocadinho carioca também. Por isso é muito natural esta ponte e acho que até tem de ser mais explorada. Até porque é vantajoso trabalharmos com produtores que entendem a nossa experiência como uma mais-valia e não como um handicap de “ah, não, fazem novelas”, porque é considerada pelo setor um produto menor. Não é um produto menor, é um produto longo, desgastante, que exige uma grande capacidade física e intelectual e que faz de nós autores todo o terreno. Se eu em cinco anos fiz 600 e tal horas de televisão… No meio de muita coisa errada que se faz, dá-nos um traquejo e uma rapidez para criar sinapses e construir histórias de forma completamente diferente. 

Já tem mais projetos pensados para escrever para a TVI?
Tenho um projeto que está a ser desenvolvido, mas não posso dizer o que é, porque a TVI ainda não anunciou e portanto não posso falar.

Vai ser uma novela?
É uma novela, sim. Mas é bastante original, é uma novela que não tem nada a ver com aquelas que estão no ar e que estão a ser feitas. É uma novela bastante diferente e até bastante polémica, diria eu. Para a TVI estou agora com esse projeto, mas é só para o ano que vem. Mas ao mesmo tempo estou a preparar outros. Tenho também com a Plural outros projetos mais curtos em desenvolvimento — porque acho que há um interesse natural em fazer outros formatos. E também estamos a tentar fazer co-produções. Mas tem a ver com este mercado da televisão em que tudo se mistura e acho que daqui a pouco tempo vamos ver todos os players metidos com todos os players [risos], acho que o mercado vai ficar mais pequeno. No sentido de interagirem e trabalharem uns com os outros, de serem parceiros.

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