Televisão

Massacre que chocou a América Latina é retratado na segunda parte de “Cem Anos de Solidão”

A continuação da série, que adapta a obra clássica de Gabriel García Márquez, chegou à Netflix esta quarta-feira.

“Cem Anos de Solidão” é considerado um dos grande clássicos da literatura do século XX. Escrito por Gabriel García Márquez em 1967, acompanha a história da família Buendía na cidade de Macondo durante várias gerações. A Netflix decidiu adaptar a obra para série, e a primeira parte foi lançada em dezembro de 2024. Esta quarta-feira, 5 de agosto, chegou à plataforma a segunda parte, com oito episódios. 

Paralelamente à história da família, o livro aborda alguns dos acontecimentos mais marcantes da América Latina no século XX. Um deles é o Massacre das Bananeiras, um dos assassinatos em massa mais brutais dos anos 20 na Colômbia, que agora é retratado na segunda parte do projeto.

Nesta nova temporada, as novas gerações da família Buendía vivem no meio das grandes mudanças na sua cidade. Após o armistício, a paz continua distante e os conflitos políticos e interesses externos vão transformando a cidade aos poucos.

Depois da chegada de Fernanda del Carpio, que muda o rumo da família e da criação dos caminhos de ferro, feita por José Arcadio Segundo, que conecta Macondo ao exterior, muita coisa mudou. No entanto, este processo acaba por acelerar a decadência que a cidade vivia, aproximando a família da antiga maldição anunciada décadas antes por Úrsula Iguarán.

Paralelamente, o acontecimento que liga uma empresa de bananeira à cidade da família interliga a obra de ficção à vida real.

No final de novembro de 1928, os trabalhadores de uma fábrica da empresa americana United Fruit Company (proprietária de uma das maiores propriedades agrícolas) em Ciénaga, na Colômbia, já estavam cansados de tentar negociar com a empresa por melhores condições de trabalho.

Os homens, que viviam em regime de quase escravidão, pediam à companhia para, além de serem reconhecidos como trabalhadores da UFC, receberem também uma compensação por acidentes, terem um dia de folga remunerado e receberem um aumento de salário.

Todas as medidas que pediam faziam parte da lei colombiana da época, no entanto, mesmo que 25 mil pessoas tenham parado de trabalhar a 12 de novembro, ninguém da companhia tinha mostrado interesse nas negociações.

A 5 de dezembro de 1928, 700 soldados do exército colombiano chegaram à cidade para controlar a situação, enviados pelo governo. No entanto, eles não estavam ali para defender os trabalhadores do seu País. Funcionários do governo dos EUA e da UFC — que continua a existir até hoje, mas com o nome Chiquita Brands — enviaram mensagens ao governo colombiano “avisando” que os trabalhadores eram comunistas subversivos. O governo colombiano, por medo de criar uma inimizade com o País com quem tinha acordos comerciais, acabou então por enviar os soldados para “tratarem do assunto”.

Naquele dia, enquanto os homens e as suas famílias saiam da missa, ouviram o comunicado do líder da cidade, no caso da série, de Macondo, a dizer que os “homens da força pública” podiam castigar os funcionários com armas. Todos foram avisados para sair da praça em cinco minutos antes que os soldados começassem a atirar contra a população. 

O general responsável assumiu que no fim houveram 47 mortos, mas, contando com os corpos desaparecidos, algumas estimativas apontam para 2 mil vítimas. No entanto, esse massacre acabou por ser esquecido, tanto na série (e no livro em que foi inspirada), quanto na vida real.

Na ficção, o Massacre das Bananeiras foi esquecido de forma “mágica”. O único que parece não se ter esquecido do acontecimento foi José Arcádio Segundo, no entanto, quando este pergunta à população sobre este, todos respondem da mesma forma: “Não houve mortos”.

Na vida real, este assassinato em massa foi encobrido pelo governo colombiano desde o momento em que aconteceu, mas, anos depois, livros como de Gabriel García Márquez ajudaram a preservar esse momento histórico que chocou o continente. Na série “Cem Anos de Solidão”, este massacre está representado na segunda parte que estreou esta quarta-feira, 5 de agosto, na Netflix.

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