Televisão

Ménages, orgias e ciúmes: o que (não) aprendemos ao ver o novo e polémico reality show

O novo programa britânico tem dado que falar. A NiT viu o primeiro episódio e conta-lhe tudo.
É difícil imaginar o que virá depois disto

Em causa está, nada mais nem menos aquilo que é apresentado como “um dos grandes tabus da sociedade”. Qual? Dizer que não à regra da monogamia. O tema não foi alvo de debate aprofundado por parte de especialistas, sexólogos, psicólogos, sociólogos. Nada disso.

O que o britânico Channel 4 fez foi bastante mais arrojado — e simplório. Alugou uma enorme casa no campo, contratou um largo grupo de homens de camisa aberta e mulheres decotadas e usou-os como isco para casais à procura de “novas experiências”.

“Open House: The Great Sex Experiment” é o novo reality show britânico que está a causar polémica. Não se deixem enganar pelo nome, a experiência tem pouco de científica. Chegamos, assim, à última fronteira dos reality shows — ou assim esperemos —, o momento em que se assume o deboche total na televisão em sinal aberto.

Vamos por partes: há algo de libertador no programa britânico, no sentido em que é verdade que o sexo continua a ser um tabu complicado de ultrapassar. O conservadorismo bafiento que ainda permeia a maioria das cabeças, mesmo que não o admitam, é castrador da liberdade sexual que, quer se queira quer não, é essencial para que todos sejamos mais felizes.

Posto isto, parece pouco provável que um reality show povoado com manequins alimentados a esteróides seja o sítio certo para mudar mentalidades. Até porque, convenhamos, a maioria dos telespectadores de “Open House” chegarão pelo drama, mas ficarão apenas e só pelo sexo gráfico.

Note-se que há limites: não há genitais à mostra, mas pisa-se muito a linha a que estamos habituados. Definitivamente, não é uma série que se possa ver à socapa no local de trabalho.

Como contrapeso a todo o deboche está Lori Beth, a terapeuta de relações de cabelo garrido, que vai estabelecendo as regras para cada casal. Ao primeiro, um par de jovens à procura do seu primeiro ménage, recomenda apenas que se divirtam. Ao segundo casal, já casado há quase duas décadas e com um historial de traições, aconselha calma e proíbe-os de participarem juntos no evento dessa noite.

É isso mesmo: o programa aquece precisamente nos eventos sociais preparados pela produção, onde os membros dos casais são soltados às feras, os residentes secundários da casa que são carne para canhão, ou melhor, carne para ménages.

Jon e Danielle, o casal mais velho, aceitou participar, mesmo sabendo que os seus quatro filhos assistiriam, com esgares de horror, à sua mãe a ser sugada por um homem-aspirador de quase dois metros. Na festa do lado, o seu par beijava todas as mulheres que conseguia encontrar. Felizmente, Lori Beth estabeleceu a regra: nada de sexo. Sabe Deus onde teria terminado a noite de Jon e Danielle — e a sanidade mental das quatro crianças.

Por outro lado, o casal jovem, Mady e Nathan, entraram no espetáculo para experimentarem o seu primeiro trio. Só que ao contrário do que esperavam, não foi ela quem sofreu de ciúmes. Ele, já habituadíssimo ao cenário — gabava-se de ter feito pelo menos duas, antes de se comprometer —, fraquejou. Acabou por ser “o pneu sobresselente” no quarto, enquanto a namorada se divertia sem olhar para trás. Um coração foi despedaçado nessa noite. Nada que não se resolvesse com novo ménage, devidamente acompanhado a par e passo com a visão noturna mais voyeuristica de sempre.

Pelo meio, Beth vai-nos dando algumas explicações sobre os perigos deste tipo de abertura de relações. “As pessoas acham que a não-monogamia é uma ameaça para as relações, quando a grande ameaça são as relações extraconjugais, as traições”, diz. Os momentos didáticos nunca duram muito tempo. Ninguém quer esgotar os 30 segundos de atenção do público.

A espécie de capa de “experiência social” esbarra nas habituais vacuidades deste tipo de programas. O tema subjacente, por mais que seja importante, é sempre varrido para debaixo do tapete, para dar lugar ao que realmente prende olhares: corpos nus, gemidos, dramas desnecessários.

Se queríamos ver um filme pornográfico de argumento barato, teríamos muito por onde escolher por essa Internet fora e, certamente, evitaríamos que a narrativa acabasse com um dos protagonistas a lamentar-se porque “o zézinho não quis trabalhar”.

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