Televisão

“Mesaluisa”: cozinhar pelos dois é a grande especialidade de Luísa Villar

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa o programa de culinária da mãe de Salvador e Luísa Sobral.
O programa estreou em dezembro.

Há duas atividades que estão no meu top de coisas que me relaxam e uma delas é cortar o cabelo. Além do corte em si, hoje em dia, à exceção dos clássicos baetas de bairro, não há um espaço que não faça uma daquelas massagens capilares maravilhosas. Depois de experimentar esta suruba de dedos e espuma no meu couro cabeludo, consigo finalmente perceber aquele anúncio da Herbal Essences em que uma senhora no duche entra em êxtase e grita “sim, sim, sim” enquanto lava o cabelo.

É exatamente essa a minha reação sempre que me fazem uma massagem dessas, de maneira que fiquei proibido de entrar no cabeleireiro a que costumava ir. Até encontrar um sítio de igual qualidade, outra das coisas que me relaxa imenso é assistir a programas de culinária. Tirando o “MasterChef”, que é altamente stressante, os programas em que chefs cozinham sozinhos relaxam-me imenso, principalmente neste período de confinamento. Parece-me que o facto de todos os ingredientes estarem impecavelmente arrumados em tacinhas ajuda muito a este sentimento de tranquilidade que sinto quando assisto a um programa deste género. É que, quando eu cozinho, geralmente a bancada fica a parecer uma enfermaria de campanha da Primeira Guerra Mundial.

Já na televisão, parece sempre que a Marie Kondo passou por lá e deixou aquilo num brinco de feng shui. Curiosamente, há um programa de culinária, que descobri recentemente, que não é assim tão polido nem tem tudo branquinho e impecavelmente arrumado. Chama-se Mesaluisa, pode ser visto na SIC Mulher, e, segundo a sinopse, “pretende funcionar como uma viagem ao passado da cozinha portuguesa.”

Quem nos leva nessa viagem é Luísa Villar, uma senhora cheia de pinta e com uma descontração que nos faz sentir que estamos na cozinha de uma amiga de uma tia nossa, ou por ventura de uma tia nossa — caso tenham tias que vivam em Campo de Ourique — ou até mesmo da nossa própria mãe, no caso raro de serem músicos portugueses que ganharam o Festival Eurovisão da Canção. Isto porque a apresentadora do programa é mãe de Luísa e Salvador Sobral, e por isso passou muitos anos da sua vida a cozinhar pelos dois. Peço desculpa por este trocadilho, mas estou fechado em casa com os meus filhos há duas semanas. 

No episódio a que assisti, Luisa confeciona pratos retirados de um livro de receitas intitulado “Doces e Cozinhados Isalita”, um daqueles livros antigos que já existia no tempo das nossas avós e que apresenta pratos aprimorados mas com uma linguagem simples de decifrar. Não é como hoje em dia, em que as receitas deveriam vir com um tradutor para se perceber o que é que querem dizer com frases do género: “Deposite a redução de cebola roxa e vinho do Porto no bife que levou a selar e termine adicionando os cogumelos que picou grosseiramente.” O que é isto de picar grosseiramente? É chamar nomes aos cogumelos enquanto os cortamos? “Toma lá, seu cogumelo, tens a mania que és champignon mas não passas de um fungo pá!” Por acaso, vendo bem, até imagino o Ljubomir a fazer isto. 

Além de preparar uma refeição — que desta feita foram ovos mignon de entrada, bacalhau verde e ananás, para sobremesa — Luísa convida sempre figuras públicas para se sentarem consigo à mesa, num momento de partilha de histórias e sabores. No último episódio quem tocou à porta foi o realizador António Pedro Vasconcelos e a diretora de casting Patrícia Vasconcelos. Não sei o que é que se passa com os realizadores portugueses, mas há aqui uma tendência para a longevidade que devia ser estudada. É que António Pedro tem 81 anos mas aparenta ter menos 20 e por este andar é muito capaz de superar a marca do seu colega de profissão, Manoel de Oliveira. 

O realizador tem uma presença de espírito invejável e quando Luísa serviu ananás com pesto, António Pedro pergunta “Isto é o que sobrou do bacalhau?” E ainda acrescentou: “sabem porque é que os povos mediterrânicos acabam sempre as refeições com anedotas?” E eu pensei para mim, “porque geralmente já estão bastante bêbados?” Mas António Pedro explicou: “é porque rir funciona como um digestivo”. E então foi aí percebi o segredo da vivacidade deste talentoso realizador: sempre que possível, beber um copinho das melhores coisas da vida, como o riso. Ou isso ou uma massagem capilar. 

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