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Morreu o milionário homicida que escapou à prisão — e a sua história está na “HBO”

Robert Durst terá cometido três homicídios, mas só foi detido em 2015. Morreu esta segunda-feira, vítima de doença prolongada.
Durst morreu aos 78 anos

Robert Durst era um milionário, filho do magnata do imobiliário Seymour Durst. Descendentes de emigrantes polacos chegados aos Estados Unidos no início do século XX, o seu avô Joseph Durst criou a Durst Organization em 1915, que ainda hoje é detentora de vários milhões de metros quadrados de área em zonas valiosas como Nova Iorque e Filadélfia.

Durst foi sempre uma figura à parte na família. Sem interesse no negócio familiar, dedicou-se à sua própria marca de comida saudável, até ser convencido pelo pai a regressar ao negócio dos arranha-céus em Nova Iorque. Nunca agradou ao pai, que acabaria por quebrar a tradição e entregar o comando da empresa ao irmão mais novo, Douglas.

A decisão abalou a família e provocou um conflito de irmãos. Robert acabaria por vender a sua parte por uns simpáticos 57 milhões. O estatuto seria talvez suficiente para se recordar o legado de Durst, mas a verdade é que o norte-americano haveria de se tornar célebre por motivos bem mais macabros.

Durst morreu esta segunda-feira, 10 de janeiro, aos 78 anos, na prisão, na consequência de inúmeros problemas de saúde que o atormentaram nos últimos anos, de Covid-19 a um cancro na bexiga. Estava detido desde 2015, acusado de vários homicídios.

A história de vida do milionário era de tal forma mirabolante que deu origem, em 2015, a uma minissérie da “HBO” sobre os estranhos crimes que aconteciam à sua volta. Durst haveria de ser condenado a pena perpétua em outubro de 2021, cerca de três meses antes da morte.

A condenação pela morte de Susan Berman há cerca de duas décadas foi apenas um de vários casos de homicídio que mancharam a sua reputação e imagem. Assassinada pelas costas com um tiro na cabeça, suspeitava-se de que Berman pretendia revelar à polícia os pormenores de outra história sórdida: que Durst seria o responsável pelo desaparecimento da sua primeira mulher, Kathie McCormack Durst, vista pela última vez em 1982.

Foi há precisamente quarenta anos que Robert Durst comunicou o desaparecimento de Kathie à polícia, cinco dias após a última aparição. Três semanas depois, os seus pertences foram encontrados no caixote do lixo de um edifício residencial. Durst foi investigado, sobretudo porque McCormack havia sido tratada no hospital a lesões na face, semanas antes do desaparecimento. Terá alegadamente apontado o dedo ao marido, mas recusou apresentar queixa. Soube-se também que Durst teria um caso extraconjugal. Apesar das contradições, a investigação terminou sem qualquer conclusão.

A morte de McCormack viria a ser declarada pelo tribunal em 2016, já que o corpo nunca foi encontrado. Ao longo dos anos, a família tentou por várias vezes reabrir a investigação — e mesmo a polícia voltou a procurar pistas de forma discreta. A polémica reacendeu-se com o caso da acusação de Susan Berman, mas Durst morreu antes de qualquer tipo de decisão.

Durst foi sempre uma figura controversa. Tinha no cadastro algumas detenções: uma em 2001 por ter sido apanhado a roubar produtos num supermercado e depois detido na posse de duas armas e mais de 30 mil euros em dinheiro vivo; foi novamente detido em 2005 por violar a liberdade condicional, ao cruzar-se com o juiz que deu a sentença; e novamente em 2013 depois de invadir a casa do seu irmão, que tinham pedido uma ordem de afastamento contra si.

Já em 2001, Durst tinha estado na mira das autoridades, depois de terem sido encontradas partes mutiladas do corpo de um seu vizinho na baía de Galveston, no Texas. Apesar de ter sido detido, foi libertado com uma caução de 200 mil euros. Foi perseguido pela polícia depois de faltar a uma audiência em tribunal. Dois anos depois, haveria mesmo de ser julgado.

Durst teve a oportunidade de explicar a sua versão: segundo o próprio, Morris teria agarrado a sua pistola e tê-lo-ia ameaçado. Seguiu-se uma luta, na qual a arma foi disparada de forma acidental. O pior aconteceu depois: Durst confessou ter desmembrado o vizinho com a ajuda de uma faca, duas serras e um machado, antes de despejar o corpo na baía.

De forma surpreendente, Durst foi ilibado pelo júri. A cabeça da vítima nunca foi encontrada e, portanto, nunca foi possível confirmar ou desmentir a história de se ter tratado de um confronto físico que terminou com uma morte em auto-defesa. Durst admitiu apenas as acusações de perturbação e adulteração de provas. Condenado a cinco anos de prisão, depois de um acordo com o Ministério Público, cumpriu apenas três e saiu em liberdade condicional em 2005.

As autoridades conseguiriam finalmente apanhar Durst em 2015, na sequência da estreia do documentário da “HBO”, que revelou mais detalhes sobre outra morte suspeita no círculo do milionário. O corpo de Berman foi encontrado em dezembro de 2000, em casa, com um tiro na parte de trás da cabeça. Apesar de ter uma relação com Berman, na qual teria pago cerca de 50 mil euros em transferências recentes, Durst não foi implicado no caso.

Quinze anos depois, o realizador Andrew Jarecki conseguira convencer Durst a dar uma entrevista para a produção, na qual foi confrontado com várias evidências analisadas pelos criadores. Num dos intervalos, Durst vai à casa de banho e esquece-se completamente que o microfone que lhe tinha sido colocado continuava ligado.

“Aí está. Foste apanhado”, começou por dizer Durst para si próprio, quase num sussurro. “O que raio é que eu fiz? Matei-os todos, pois claro.” A polícia ficou em alerta e à medida que novas provas foram chegando, Durst fugiu. Foi apanhado em Nova Orleães, onde se apresentava com um nome falso. Seria novamente julgado pela morte de Berman, testemunha crucial no julgamento da morte da ex-mulher, já que foi ela quem forneceu o álibi. O homicídio teria servido para eliminar quaisquer provas que o pudessem incriminar.

Haveria de ser novamente acusado pela morte de McCormack, num caso reaberto em outubro, mas que chega assim a uma abrupta conclusão. Apesar dos apelos da família, Durst recusou sempre revelar quaisquer detalhes sobre o caso ou sobre o eventual paradeiro do corpo da ex-mulher. O segredo morreu com ele.

Durst sofria de vários problemas de saúde

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