Televisão

A morte que traumatizou Andrew Garfield, antes de fazer uma pausa na carreira

A nova minissérie, "Under the Banner of Heaven", será o último trabalho do ator nos próximos tempos. "Quero ser um tipo normal".
Lynn morreu em 2019

Ainda adolescente, Andrew Garfield começou a perder interesse na escola, a descurar os estudos e nem o desporto o entusiasmava como antigamente, apesar de ter sempre sido um bom atleta. Os tempos eram difíceis e foi Lynn, a mãe, quem teve que intervir.

“Ela teve a coragem de perceber que eu estava em dificuldades. Eu fazia muito desporto mas a certa altura parei de crescer. Sofri três concussões a jogar râguebi, comecei a nadar cada vez menos. Estava encalhado. Não queria ser médico, advogado, empresário, nada do que era valorizado na escola. Era sempre o palhacinho idiota”, recorda. “Mas a minha mãe foi sempre muito sábia, sensível e dava sempre prioridade à minha felicidade.”

Foi Lynn quem incentivou o jovem a perseguir a paixão que descobriu junto das aulas de teatro. “Que coisa tão perigosa, ambiciosa, cheia de amor e de alma, que ela fez”, recordou Garfield numa entrevista ao “The Guardian”.

“Ela sabia que provavelmente eu nunca faria dinheiro com isto, mas percebeu que eu estava em apuros, que me faltava uma alegria de viver. Acabaria por se tornar na melhor má decisão que ela tomou na vida, porque agora estou aqui a falar convosco sobre ela e ela estará em casa, envergonhada.”

Lynn viria a morrer em 2019, vítima de um cancro pancreático fulminante. Nunca chegou a viver para ver o seu filho receber a nomeação para os Óscares pelo seu papel em “tick, tick…BOOM!”, mas teve a alegria de o ver entre os melhores da Academia em 2016, graças a “Hacksaw Ridge”.

Três anos depois, Garfield partilha o seu novo trabalho, antes de se recolher para uma pausa na carreira. “Under the Banner of Heaven” é uma minissérie baseada no livro de Jon Krakauer, que coloca o ator no papel de um detetive mórmon, cuja fé é desafiada por um novo caso.

A sua personagem, Jeb Pyer, terá que investigar um duplo homicídio que vitima Brenda Lafferty, interpretada por Daisy Edgar-Jones. O detetive acaba por perceber que o caso está intimamente ligado com um culto católico fundamentalista. A minissérie estreou esta a 27 de julho na Disney+ e é composta por sete episódios.

A produção será, segundo o próprio Garfield, o seu último papel durante “algum tempo”. “Vou descansar durante um bocado”, explicou. “Preciso de recalibrar e reconsiderar tudo o que quero fazer aqui em diante e que tipo de pessoa quero ser.”

O ator, que vem de uma série furiosa de projetos — brilhou em “The Eyes of Tammy Faye”, “Homem-Aranha: Longe de Casa” e “tick, tick… BOOM!”, todos lançados em 2021 —, confessa que quer ser “um tipo normal durante um bocado”.

A decisão terá origem nos ensinamentos da mãe, que confessa ter sido sempre a sua voz da razão, o elemento que equilibrava tudo. “Ela tinha orgulho nas minhas conquistas [profissionais], mas tinha muito mais orgulho em mim pela forma como eu eventualmente tratava os funcionários dos supermercados que estavam a tratar das nossas compras. Ela era uma pessoa que vivia para as pequenas delicadezas e simpatias da vida”, recorda.

“Se eu era mais ríspido com alguém, se eu estava a ter um mau dia e um fã falava comigo e eu resmungava, sentia sempre uma pequena mão no ombro. Era a sua mão. E ouvia-a a dizer ‘Andrew…’. E eu voltava atrás e desculpava-me. ‘Olá, desculpem, isso foi um bocado rude da minha parte.”

“Espero que ela nunca tire a mão do meu ombro”, explicou enquanto conversava sobre o impacto da morte inesperada da mãe, em 2019. Soube do diagnóstico pouco tempo antes de partir para as gravações de “The Eyes of Tammy Faye”. Garfield hesitou, mas mais uma vez, foi impelido pela mãe.

“Ela disse-me: ‘Ia custar-me muito saber que não farias o filme por minha causa’. E eu pedi-lhe para me prometer que quando fosse a hora de regressar a casa, me avisaria”, contou à “Variety”.

O estado de saúde de Lynn complicou-se durante as gravações e Garfield foi mesmo obrigado a regressar a Inglaterra, onde a acompanhou até à sua morte, em dezembro de 2019.

“As boas notícias é que entre mim e ela, não ficou nada por dizer. Aproveitámos esse pouco tempo da melhor forma possível. E essas duas semanas em que pude estar com ela foram provavelmente as mais profundas semanas da minha vida.”

Três anos depois, o ator de 38 anos ainda reflete no impacto que a morte teve na sua vida. “É estranho porque é um sentimento muito único quando estás a passar por aquilo tudo. Pensas, Meu Deus, sou a única pessoa que alguma vez perdeu a mãe. Isto porque é realmente um sentimento tão solitário, tão incisivo”, revelou numa entrevista ao “Channel 4”.

“Durante um período de tempo, não quis fazer nada. Não era sequer capaz de fazer nada. Sentia-me imprestável, o mundo não fazia sentido. Ainda não faz”, notou. “Não faz porque ainda tenho saudades dela — e espero que nunca volte a fazer sentido, porque eu quero continuar sempre a ter saudades.”

De toda a tragédia, Garfield revela que guarda um detalhe. “Foi a melhor versão possível [da tragédia”, explica. “O facto de ser eu a perdê-la, ao invés de ser ela a perder-me a mim.”

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