Televisão

Mortes, fantasmas e enforcamentos: o horror da história original de Pinóquio

O conto original é muito diferente daquele que a Disney nos vendeu. Esta sexta chega uma nova versão contada por Guillermo del Toro.
É uma espécie de filme de terror para miúdos

O querido “Pinóquio” da Disney, lançado em 1940, foi aquele com o qual a maioria cresceu a ver na televisão. As aventuras do menino de madeira que se transformou num menino de carne e osso percorreram gerações e deram origem a muitas novas versões. Algumas mais fiéis ao original do que outras.

A 9 de dezembro, foi a vez de uma nova adaptação chegar à Netflix. Trata-se de mais uma obra do prodigioso Guillermo del Toro, que concretiza finalmente o sonho de recontar a história escrita por Carlo Collodi em 1883. “Nenhuma expressão artística influenciou mais a minha vida e o meu trabalho do que a animação e nunca me senti tão ligado a nenhuma personagem como à do Pinóquio”, explicou o cineasta em 2018.

“Pinóquio de Guillermo del Toro” salta para a televisão poucas semanas depois de chegar aos cinemas, onde estreou a 24 de novembro. A animação em stop-motion é co-realizada por Mark Gustafson e co-escrita com Patrick McHale.

A verdade é que esta história, escrita há mais de cem anos, nasceu num contexto bem diferente. Pinóquio não era uma personagem assim tão fofinha e a crueldade era recorrente nas páginas de “As Aventuras de Pinóquio”, de tal forma que a Disney, à imagem do que faz com muitas das suas adaptações, se sentiu obrigada a limar algumas arestas e a reimaginar o conto infantil.

Collodi pintou um menino de madeira que aterrorizava Gepeto, que por diversas vezes enfrentou a morte. Um conto infantil sem contemplações e cuidados sobre o que deveria ser o seu público principal, as crianças.

Antes de ser um boneco animado, Pinóquio era não mais do que um tronco que falava e chorava. Quando um carpinteiro o tenta serrar, ele chora e lamenta-se. Farto de todos estes problemas, o pedaço de madeira é entregue a Gepeto, que sonhava criar uma marioneta.

Gepeto vai moldando o tronco até que ganha forma de um rapaz. Um rapaz, note-se, extremamente mal comportado. Assim que recebe as pernas, a primeira coisa que faz é pontapear o seu criador. Pinóquio era um idiota. Insultava recorrentemente Gepeto, fazia caretas, desobedecia. Era tudo menos o sonho do homem que apenas pretendia ter uma marioneta. Assim que Pinóquio está terminado, volta a pontapear o criador e escapa-se pelas ruas.

A fuga leva Gepeto a persegui-lo, o que provoca uma comoção entre a vizinhança. Preocupados com o possível bem-estar da criança de madeira e de um potencial castigo, a polícia acaba por deter Gepeto. “Talvez devesse ter pensado duas vezes [antes de o criar]”, murmura enquanto é detido.

Na história original, Pinóquio regressa a casa e encontra outra cara conhecida, o Grilo Falante, que o critica por desobedecer ao pai e fugir de casa. E é também aqui que se revela o espírito original do rapaz de madeira.

O Grilo não se torna seu amigo. Pelo contrário. Pinóquio, irritado com o sermão, agarra num martelo e atira o na sua direção. Falha, mas a ferramenta acaba por cair à mesma em cima do Grilo, que morre esmagado. “Com um último e fraco ‘cri cri cri’, o pobre Grilo caiu da parede, morto”, escreveu Collodi. Mas calma: mais à frente na história, o fantasma do Grilo regressa para ensombrar Pinóquio.

Ainda assim, a pouco inocente marioneta falante não se mostrou arrependida da morte acidental. “A culpa foi dele”, atira sobre a morte, numa conversa com Gepeto.

Depois do famoso episódio em que Pinóquio queima as pernas à lareira, que depois são reconstruídas por um incrivelmente altruísta Gepeto, o rapaz volta a fugir de casa e envolve-se com uma série de personagens pouco recomendáveis. Volta a ignorar os conselhos do Grilo, agora fantasma, e junta-se a um grupo de vigaristas que diz plantar moedas de ouro para fazer nascer árvores que multiplicam dinheiro.

No meio de todo esse esquema, Pinóquio acaba enforcado. “Eles correram atrás de mim, e correram e correram, até que me apanharam e ataram uma corda ao meu pescoço. Enforcaram-me numa árvore. ‘Amanhã voltaremos para te vir buscar, estarás morto e com a boca aberta, e então tiraremos as moedas de ouro que tens escondidas debaixo da língua’, disseram.”

Esse poderia ter sido o fim e a moral da história, mas Collodi acabou por prolongar as aventuras, que o levaram a um grande teatro de marionetas, onde esteve prestes a ser atirado para uma fogueira. As aventuras de Pinóquio são, quase sempre, peripécias que resultam em experiências de quase morte do rapaz de madeira.

Escapa por pouco à morte ao ser devorado por um tubarão — dentro do qual reencontra Gepetto, que apesar de maltratado, insiste em ir à sua procura —, é apanhado numa rede de um pescador que o pretende cozinhar e a certa altura acaba transformado num burro.

Numa tentativa de salvar a vida de Gepeto, após escaparem ao tubarão e quase morrerem afogados, assume um papel de servidão numa quinta, em troca de um copo de leite morno para o seu criador. Durante cinco longos meses, comprometeu-se a tirar cem baldes de água por dia do poço, apenas para receber em troca um copo de leite.

O final da história continua, no entanto, a ser feliz. Pinóquio transforma-se finalmente num rapaz de carne e osso — e acaba por fazer as pazes com o Grilo que assassinou nas primeiras páginas. “Oh, meu querido Grilo”, diz. “Ai agora chamas-me querido? Lembras-te de quando me atiraste um martelo que me matou?”, responde o animal. “Tens razão, atira-me também um martelo. Eu mereço-o.”

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