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“Não é, não é, não é.” Falámos com o portista fanático do vídeo mais viral do mês

Luís Mesquita, fundador da Rádio Portuense, diz que a parcialidade é a chave do êxito do projeto, que respeita todos os clubes e adeptos.
David Quimarães e Luís Mesquita são a dupla de comentadores

Quando a bola rematada por Rafa bateu no fundo das redes da baliza do FC Porto, as bancadas do Estádio do Dragão gelaram. Na bancada de imprensa, um relatador mostrava-se incrédulo. “Não é, não é. Não é, não é, não é”, repetiu freneticamente naqueles instantes antes de perceber que o jogador do Benfica não estava em fora de jogo.

Assim que o árbitro apitou para o final e decretou a vitória do Benfica no Porto, o vídeo tornou-se viral e arma de arremesso na habitual batalha de adeptos nas redes sociais. Essa voz era de Luís Mesquita, o relatador de serviço da Rádio Portuense, rádio que ajudou a fundar em 2014.

O radialista de 40 anos frisou, desde logo, o facto de não querer ser isento. Por ali, a imparcialidade é deixada para os outros. Para Luís, é precisamente essa parcialidade que tem ajudado a rádio a crescer, mas não se pense que, pelo estúdio, anda tudo de cachecol azul e branco. Quando a Rádio Portuense foi fundada, estavam longe de pensar em fazer relatos de futebol.

A aventura pelo futebol começou, aliás, com os relatos do Boavista, o clube de coração de outro dos fundadores. Luís Mesquita tinha uma experiência curta na rádio e, em 2016, o habitual relatados das partidas do FC Porto decidiu não aparecer.

“Tínhamos tudo agendado para o relato, já tínhamos anunciado e tivemos que tomar uma decisão. Eu, que nunca tinha pensado em relatar jogos, decidi pegar no microfone e assumir a tarefa, mas como adepto assumido do FC Porto”, recorda. “Até nem correu mal, quer em termos de audiência e de relato. Comecei a ganhar o bichinho e passei eu a ser o relatador oficial das partidas do clube”.

A experiência foi impactante. Passaram de uma audiência de meia dúzia de pessoas para as muitas dezenas, eventualmente centenas. O segredo: colocar a imparcialidade de lado e emprestar ao relato a emoção de um adepto.

“Quando fazíamos os dérbis da cidade, juntávamos os dois comentadores. Eu comentava na posse do FC Porto, o outro na posse do Boavista. Tentávamos passar a emoção de um adepto a fazer o relato”, conta à NiT. O próximo passo foi também definitivo para a popularidade das transmissões: decidiram, além do som, transmitir a imagem dos comentadores.

As audiências dispararam e, neste último clássico, conseguiram chegar às 120 mil visualizações acumuladas em todas as plataformas. Além de transmitirem sempre em direto para a Rádio Portuense, fazem-no para outros parceiros como o Portal dos Dragões.

“A interação é outra das coisas que nos diferencia. Falamos com as pessoas, respondemos a perguntas, venham elas de adeptos portistas, benfiquistas ou sportinguistas.”

Ao fim de seis anos de relatos, Luís viu-se finalmente na mira dos adeptos benfiquistas. Algo que, confessa, já esperava há algum tempo.

“Sabia que podia acontecer, sobretudo pelo resultado que pendeu para o lado do Benfica. Curiosamente, os jogos que tenho feito, têm sempre corrido bem ao FC Porto. Agora, correu mal, e lá pensaram: ‘Vamos lá pegar no vídeo deste portista e torná-lo viral’ [risos]”.

O radialista estava mais habituado à viralidade entre adeptos portistas, mas também foi protagonista de algumas alfinetadas ao rival. “Já tínhamos feito alguns vídeos com parodias musicais, sobretudo no final do campeonato passado. Sei que também esses chegaram alguns adeptos do Benfica, porque recebi muitas mensagens de ódio”, conta. Não leva nada a peito e assume até uma relação bem cordial com os ouvintes, que estão longe de ser apenas adeptos portistas.

“Durante as emissões, falamos com benfiquistas e temos o máximo de respeito por eles”, nota. “Aliás, nunca tratamos o Benfica por visitante, nunca insultamos ninguém. Quem está do outro lado são nossos ouvintes, sejam do FC Porto, Sporting ou Benfica. Nos fóruns antes dos jogos, recebemos até muitos telefonemas de benfiquistas que falam sobre o momento das equipas. Alguns até dizem que têm pena que eu não seja do Benfica.”

Nem por isso o público-alvo deixa de ser os adeptos do FC Porto, isto no que toca aos relatos. Preferem continuar a manter-se fervorosos no relato, a tentar “passar as emoções do estádio”, mesmo que isso possa resultar em mais caricaturas virais, sobretudo quando os jogos não correm tão bem à equipa.

“Somos uma emissão muito completa, que tenta levar o estádio às pessoas que estão em casa. Viramos os microfones para a bancada, para sentirem a vibração, o ambiente”, explica. Pelo meio, a emoção leva quase sempre a melhor de si.

“Pensei que o golo ia ser anulado e reagi assim. Quando acabou o jogo, percebi que alguém ia pegar naquilo. Mas é bom, é sinal de que temos muita gente a ver as transmissões”, conta. “Sabia que ia acontecer mais cedo ou mais tarde, até pelo impacto que temos tido.”

Apesar de se terem tornado conhecidos pelos relatos, o desporto não estava nos planos originais da Rádio Portuense, que criou em 2014. Os primeiros ouvintes eram, sobretudo, os emigrantes, que se encantaram com a inusitada rádio pautada pela pronúncia portuense.

“Sentiram-se em casa ao ouvirem as nossas emissões, até porque lhes levávamos a pronúncia do Porto. Foi algo que cativou as pessoas”, recorda. Começaram por falar sobretudo sobre a cidade, sobre os monumentos, a sua história, os seus espaços.

O futebol, que “provocou um boom nas audiências”, começou por baixo, pelos relatos do Sport Clube Rio Tinto, depois para o Boavista e até Salgueiros. Durante quatro anos, foram parceiros do Porto Canal, até que a ligação se desfez em 2021. Hoje, assumem que são muito mais do que uma rádio de desporto.

Além da programação habitual, os responsáveis apostam em projetos sociais, como a rádio comunitária que acabam de lançar na freguesia de Aldoar. E esse cuidado liga-se também ao futebol.

“Temos algo que mais ninguém faz em Portugal, aplicamos a audiodescrição aos relatos, sobretudo nos jogos da seleção nacional, para que as pessoas com deficiência visual possam imaginar o que se passa no relvado”, conta. “Sou, aliás, uma de duas pessoas em Portugal com certificação atribuída pelo Centre for Access to Football in Europe, uma entidade que promove a acessibilidade nos estádios e do futebol.”

Entre projetos e iniciativas, Luís Mesquita irá manter-se de cachecol ao pescoço, sempre na companhia do colega e comentador David Guimarães, a relatar os jogos do clube do coração. Quando não estão na bancada do Dragão, criam mini estádios nas casas do clube da região, onde são acompanhados pelos adeptos nos vídeos transmitidos online.

E com o campeonato ao rubro, esperam-se mais vibrantes e emocionantes relatos. Só não lhe peçam é que seja imparcial. “Nós queremos defender os clubes da cidade do Porto”, atira. “Se fôssemos isentos, seríamos apenas mais um relato como os outros.”

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