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Emelia Jackson: “Estava cheia de medo de fazer figuras tristes na final”

A perita em sobremesas voltou ao Masterchef Australia para ganhar — e ganhou. À NiT, conta como tudo aconteceu.
Foi uma vencedora inesperada

Antes de chegar à final, havia uma montanha para escalar. Uma receita aperfeiçoada durante anos pelo chef Martin Benn e que teria que ser replicada em pouco menos de quatro horas. Emelia não só brilhou como ainda teve tempo para parar o que estava a fazer e ajudar Laura, a amiga e concorrente que acabaria por enfrentar na final.

Aos 32 anos, a australiana de origem sérvia e macedónia decidiu aceitar o convite para regressar à nova e renovada competição do Masterchef Austrália, isto depois de um frustrante terceiro lugar em 2014. No regresso, acabou por brilhar e vencer na grande final que foi transmitida esta quarta-feira, 13 de janeiro, na SIC Mulher.

Já todos sabemos que este é um dos programas mais viciantes da televisão, mas hesitamos em manter o título quando os eternos jurados Gary Mehigan, George Calombaris e Matt Preston — que dirigiram as operações desde o primeiro episódio em 2009 — anunciaram a sua saída. Eram eles que ajudavam a fazer da versão australiana do programa a melhor que vimos por todo o mundo. 

Para a edição de 2020, o programa reinventou-se. Além de um trio de jurados em estreia — o antigo concorrente Andy Allen, a autora e gastrónoma Melissa Leong e o chef Jock Zonfrillo —, o formato mudava. Desta vez, não havia espaço para caras novas.

O elenco de concorrentes seria uma combinação de alguns dos maiores talentos que passaram pela cozinha do programa na última década. Chamaram-lhe “Back to Win”, de volta para vencer. Mas só um o poderia fazer.

Por momentos, Emelia sonhou com o regresso e frustrou-se com a possibilidade de não voltar. À última hora, foi convocada, fez as malas, aviou as receitas e arriscou tudo. Valeu a pena.

A especialista em sobremesas manteve-se discreta durante a primeira metade da temporada. Confessou mais tarde que se sentia “intimidada” pela experiência em cozinhas profissionais dos colegas de cozinha — e que duvidou da sua capacidade para se bater com eles em pratos salgados.

A 12.ª temporada foi também marcada por reencontros, nomeadamente o de Emelia e Laura, terceira e segundas classificadas na edição de 2014. A amizade manteve-se, viajaram juntas e quis o destino que tivessem que se bater entre si pelo título.

A eleição tem hoje muito mais importância do que Emelia previa quando disse que sim ao telefonema da produção. Pelo caminho, a pandemia abalou-lhe o negócio e a jaleca de campeã será agora mais valiosa do que nunca.

À NiT, a vencedora da última edição do Masterchef Austrália fala sobre os novos (e por vezes ríspidos) jurados, o impacto da pandemia nas gravações, os monstros que enfrentou e o futuro profissional.

Ter uma segunda hipótese de lutar pelo título de Masterchef não é algo que aconteça todos os dias. Como é que isso aconteceu?
Recebi a primeira chamada em junho de 2019 para saber se estaria interessada em regressar. Fiquei surpreendida, mas ao mesmo tempo não sabia se queria voltar. Acabei por dizer que sim. Uns meses mais tarde ligaram-me a dizer que não tinha sido escolhida. Foi desapontante.

Mas voltou…
Sim, ligaram-me uma terceira vez no final de 2019 para me convidarem a voltar — e eu disse que sim. Três semanas depois já estávamos a gravar.

Em 2014 ficou em terceiro, atrás de Laura, a amiga que bateu na final de 2020

O que a levou a hesitar?
Estava apreensiva porque as filmagens iam ser entre janeiro e maio, que é a altura do ano mais movimentada do meu negócio de bolos. Felizmente disse que sim, porque depois veio a Covid-19 e eu perdi todo o meu trabalho.

No regresso à cozinha do Masterchef, nem tudo foi igual. As três caras familiares de Matt, Gary e George desapareceram. Foi estranho?
Surpreendentemente, não. Foi tudo muito natural desde o início. Os novos jurados são espetaculares.

Não é fácil fazer esquecer um júri que fez crescer o programa durante uma década.
Acho que o Jock [Zonfrillo], a Melissa [Leong] e o Andy [Allen] fizeram um trabalho incrível. Adoro-os e dei-me lindamente com eles.

Eram muito duros?
Por vezes, sim, especialmente o Jock. Tinha muitas expectativas relativamente a mim e quando eu não era capaz de fazer aquilo que me tinha proposto, ele era muito ríspido. Mas isso era também muito motivante. Não me recordo de algo em específico que me tenha dito, mas acho que era mais o tom com que falava comigo que me ficou na memória.

Voltar à cozinha do programa seis anos depois, já com mais experiência, tornou a competição mais fácil?
Não creio. Desde a sexta temporada em que participei que não faço outra coisa senão bolos. Até por isso senti que estava em desvantagem, comparativamente aos outros concorrentes que trabalharam em restaurantes durante muitos anos.

“Eu só fazia bolos, sentia que estava em desvantagem”

Isso obrigou-a a ter uma estratégia bem definida?
A estratégia passava por manter-me no meio do pelotão até conseguir ganhar a confiança necessária. E, claro, estudar e praticar muito.

É verdade que os concorrentes trabalham obsessivamente nas receitas que depois vão fazer no programa?
Sim, claro. Todos nós trabalhamos as receitas nos bastidores. É preciso praticar muito e ler obsessivamente livros de receitas.

Desta vez, a competição era dura e cheia de concorrentes experientes, alguns finalistas e outros cozinheiros profissionais. Quem é que lhe deu mais dores de cabeça?
Acho que todos tinham um conjunto de aptidões muito fortes, é difícil escolher um. O Reynold é uma força temível na cozinha, o Brendan é fantástico naquilo que ele faz bem e a Tessa tinha acabado de ser finalista na temporada anterior. Havia tantos concorrentes talentosos desta vez…

Esta temporada também foi atípica, não só pelos melhores motivos. A meio, surgiu uma pandemia que ninguém podia prever. Como é que lidaram com as notícias?
Foram tempos muito incertos e assustadores. Tivemos que manter uma distância social dentro e fora do estúdio. Estávamos todos muito nervosos por termos que trabalhar no meio de tanta gente. Mas acabamos por entrar no ritmo e habituamo-nos.

Houve muita coisa que mudou. Acabaram-se os serviços de jantar.
Sim, foi tudo cancelado, não podíamos ter gente de fora no estúdio. Todos os desafios fora do local foram cancelados. Tornou-se muito monótono cozinhar apenas na cozinha do Masterchef.

Chegou a ponderar-se a suspensão das gravações?
Não. Tínhamos enfermeiros no estúdio que todos os dias nos mediam a temperatura. Felizmente nunca tivemos nenhum susto.

O momento em que Emelia parou para ajudar a amiga na semifinal

Tinha esperanças de que poderia ganhar desta vez?
Não, nem pensar.

Então todas as semanas tinha uma surpresa…
Estava apenas focada em dar o meu melhor todos os dias. Acho que o facto de não antecipar cenários me permitiu focar mais em cada desafio.

Houve algum momento em que disse para si própria: “Já fui, é desta que vou embora”?
Quase fui embora no desafio de peixe do Josh Niland, ainda éramos 12 ou 13. Foi a Tracy quem acabou por sair e o susto ajudou-me a perceber que tinha de levar a competição ainda mais a sério.

“A pandemia obrigou a cancelar os desafios. Tornou-se monótono cozinhas apenas na cozinha do Masterchef”

E assim foi, semana a semana, até à final. No último dia, qual era o seu grande medo?
Tinha medo de fazer figuras tristes na final. Estava toda a gente a ver-me e não tinha por onde me esconder. Mas fui para a final com pratos que conhecia muito bem, estava muito confiante.

Ficar em terceiro e a um passo do título em 2014 foi frustrante. Como é que se sentiu quando disseram que era a vencedora desta edição?
Não sei explicar. Estava mentalmente preparada para perder. Quando me chamaram, não podia acreditar. Ainda não acredito que aconteceu.

Aos 32 anos, venceu finalmente a competição

De que forma é que participar (e agora vencer) o Masterchef a ajudou cá fora?
Ajudou-me a direcionar a minha carreira e a lançar o meu negócio. E agora depois da vitória será ainda mais importante: criei a minha própria marca de misturas de bolos pré-prontos, estou a escrever um livro de receitas e vou começar as gravações do meu programa de cozinha.

E experimentar uma cozinha profissional? Não tem vontade?
Nem por isso. Adoro trabalhar para mim. Adoro a parte do negócio, tenho formação em gestão, e essa é uma das minhas outras paixões a par da comida. Quero lançar a minha marca nos supermercados para que todos possam fazer bolos como eu.

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