Televisão

Negros, gays e mulheres brancas: o espetáculo de stand-up que deixou os EUA furiosos

Bill Burr apresentou o último episódio do famoso programa SNL — e já contava com a polémica que se seguiu.
O monólogo foi controverso

“O mês de junho é o Mês do Orgulho Gay. É um bocadinho longo, não acham? Para um grupo de pessoas que nunca foram escravizadas, como é que conseguiram ficar com o mês inteiro? Pá, os negros foram escravizados e levaram com fevereiro, 28 dias de tempo encoberto”, atirou o comediante nos primeiros minutos do programa “Saturday Night Live” deste sábado, 10 de outubro.

O monólogo de Bill Burr — cuja aparição fugaz em “Breaking Bad” pode ter passado despercebida; era Patrick Kuby, um dos ajudantes de Saul Goodman — durou pouco mais de sete minutos. Três dias depois, ainda ninguém conseguiu falar de outra coisa. A controvérsia não se ficou pela piada feita à custa da comunidade gay. Burr seguiu a todo o vapor e não poupou ninguém.

“O sol põe-se às quatro da tarde. Toda a gente treme de frio. Ninguém quer ir a uma parada. Que tal dar-lhes a eles o mês de julho? São gente do Equador. Deem-lhes sol durante 31 dias. E depois há os gays negros, que poderiam celebrar de 1 de junho a 31 de junho. 61 dias de festa”, prosseguiu.

Num pequeno set que começou com um pequeno segmento dedicado aos que veem na Covid-19 uma boa forma de “despachar” os parentes de quem menos gostam, Burr optou por aproveitar a sempre enorme audiência do programa para tocar nos temas politicamente incorretos — como é, de resto, habitual nos seus stand-ups e especiais de comédia. O alvo seguinte? As mulheres brancas e a forma como terão “sequestrado” o movimento woke, composto por homens e mulheres conscientes dos problemas de justiça social e racial.

Depois de uma pequena piada sobre o facto de Rick Moranis ter sido agredido sem provocação numa rua de Nova Iorque, Burr preparou o terreno: “Provavelmente vou ser cancelado graças a essa piada. Sabem quão estúpida é essa coisa do cancelamento? Estão literalmente a ficar sem pessoas para cancelar, tanto que agora vão atrás dos mortos”, explicou a referir-se à polémica suscitada por uma entrevista de John Wayne onde dizia acreditar na supremacia branca. Uma entrevista dada há 50 anos.

Quase a adivinhar a reação que se seguiria, Burr aplaudiu as mulheres brancas. “O movimento woke deveria ser sobre pessoas de cor que não têm as mesmas oportunidades, finalmente agarrarem-nas. E foi assim durante para aí oito segundos. De repente, não se sabe bem como, as mulheres brancas ergueram os seus pés com botas Gucci sobre a vedação da opressão enfiaram-se na linha da frente. Não sei como é que o conseguiram”.

“Nunca ouvi tanto queixume vindo de mulheres brancas. ‘Estou magoada, aqui no meu SUV com os assentos aquecidos. Ninguém faz ideia de como é estar no meu lugar’. A criticarem homens brancos. A lata delas”, avançou, antes de dar o golpe final.

“Ouçam, eu não quero falar mal das minhas cabras, ok? Mas vamos a um pouco de história. Vocês estiveram ao nosso lado, ao lado dos homens brancos tóxicos, durante séculos em que cometemos crimes contra a humanidade. Rebolaram no dinheiro ensanguentado e, ocasionalmente, esgueiravam-se às escondidas para se enrolarem com um negro. Se fossem apanhadas, diziam que não tinha sido consensual. Por isso calem-se”.

Burr ao lado de Huey, numa das cenas de “Breaking Bad”bill burr

Assim que o programa prosseguiu, já mais ninguém conseguiu parar a discussão nas redes sociais. Misógino, homofóbico, irritante, sem graça. Burr teve que carregar todos os adjetivos da agenda, embora muitos tenham também saltado em sua defesa.

Aos 52 anos, Burr é um veterano e esta não é, de todo, a sua primeira controvérsia. Quem o critica deveria pelo menos estar preparado para o que aí vinha quando o norte-americano do Massachusetts foi anunciado como o apresentador desta edição do “Saturday Night Live”.

Não é preciso sequer recuar muito no tempo para encontrar novas provocações dirigidas às mulheres brancas. Fê-lo em 2019 em “Paper Tiger”, o seu mais recente especial de comédia, disponível na Netflix.

“Não fazia ideia do quão difícil era ser uma mulher branca nos Estados Unidos. Aparentemente, é mesmo difícil. Estão sempre a queixar-se (…) O que é que te aconteceu querida? Não refrescaram bem o teu rosé? As escadas rolantes no centro comercial estavam avariadas? Irrita-me que tenham a coragem para me atirarem à cara o meu privilégio branco. A tentarem afastar-se de nós. Pá, estás sentada no jacuzzi connosco, estás a queixar-te do quê?”

Ainda sobre feminismo e igualdade entre homens e mulheres, Burr abordou a questão da diferença salarial à sua habitual maneira provocadora. “Dizem sempre que querem ser tratadas da mesma forma que os homens. Mas se ouvirem bem, não é isso que elas querem. Só querem as coisas boas. Olham para a vida de um gajo como se fosse um buffet. ‘O mesmo salário por hora? Quero um bocadinho disto. Pagar a ida ao cinema? Que se lixe, fica tu com isso.’”, explica, antes de justificar o porquê de homens receberem mais do que as mulheres para exercer a mesma função.

“Porque no caso improvável de estarmos os dois num Titanic e aquilo começar a afundar-se, por alguma inexplicável razão, tu podes pegar nos miúdos e bazar, enquanto eu tenho que ficar à espera.”

Burr está habituado a ser o centro de inúmeras polémicas. Em 2018, abordava esse mesmo assunto, ao revelar que já tinha sido acusado de tudo, de ser “um apoiante liberal de Trump”, a “um centrista”. Sobre os perigos de fazer comédia e os limites que muitos parecem querer estabelecer, Burr mantém-se irredutível. “Faço exatamente o que sempre fiz durante as minhas viagens pelo país, que faço há já 20 anos”, revelou.

As críticas recentes esbarraram também no tema da raça, apenas para muitos perceberem que Bill Burr é casado com Nia Renee Hill, uma atriz afro-americana. Um tema que, como é óbvio, não se livrou de passar pelos segmentos do comediante.

“A minha mulher é negra, certo? Odeio dizer isso porque parece que vou começar a fazer piadas com comparações estúpidas. Sabem? Aquelas parvas sobre homem branco, homem negro. Odeio-as porque são fáceis e, da minha experiência, também sei que são falsas. Estou há 15 anos com ela e não há grande diferença. Ao final do dia, é uma mulher. Tens as mesmas discussões, independentemente de com quem estás. E não vou mentir, talvez haja mais abanões de cabeça e gestos dependendo da raça da mulher, possivelmente um dedo indicador espetado na tua testa.”

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