Televisão

Netflix estreia série sobre um dos maiores manipuladores de todos os tempos

Um homem fingiu ser agente secreto durante anos. Enganou, burlou e coagiu diversas vítimas — e provavelmente continua a fazê-lo.
Ele é Robert Hendy-Freegard.

O seu nome é Robert Hendy-Freegard e ficou conhecido como “puppet master”, algo que podemos traduzir como “mestre da manipulação”. Este homem britânico que se fez passar por agente secreto do MI5 entrou na vida de várias pessoas, burlou-as e destruiu famílias. A sua história é agora contada na Netflix, através de testemunhos das vítimas e de pessoas envolvidas na investigação.

“A Arte do Engano: Caça aos Grandes Impostores” é uma série documental que estreou na plataforma de streaming a 18 de janeiro. Tem três episódios e foca-se neste vigarista que fingiu ser um espião e conseguiu convencer várias pessoas a juntarem-se a si, deixando para trás tudo aquilo que tinham.

Ninguém pode imaginar o que move Robert Hendy-Freegard. Mas este homem de 50 anos, natural de Derbyshire, trabalhava como vendedor de carros e barman. Em 1993, trabalhava num pub chamado The Swan, em Newport. Foi lá que conheceu John Atkinson, um estudante do Harper Adams Agricultural College.

Freegard conseguiu convencê-lo de que era um agente do MI5 a monitorizar a prestigiada escola por causa das suas ligações ao IRA. Algum tempo antes, um outro aluno tinha sido detido pelas autoridades por colaborar com a organização armada. E na escola havia um acesso fácil a ingredientes que poderiam ser usados para construir bombas.

John Atkinson acreditou plenamente neste homem e gostou até da ideia de fazer o que podia para ajudar um agente secreto. O plano consistia em ser os seus olhos e ouvidos na escola. Mas para isso teve de passar por uma série de testes exigentes inventados por Freegard — que incluiu até espancar Atkinson para ele se tornar mais resistente.

Esta história tomou proporções maiores quando Freegard sugeriu a Atkinson que o seu colega de quarto era um membro do IRA. Quando o “disfarce” de ambos foi alegadamente descoberto, Freegard explicou a Atkinson que tinham de fugir para se manter a salvo do IRA. E Freegard disse ainda que ele tinha de convencer as suas duas colegas de quarto, Sarah Smith e Maria Hendy, a fugirem com eles.

Atkinson mentiu às colegas, alegando que tinha cancro terminal, para que elas aceitassem fazer uma roadtrip. Era o seu último desejo. O resultado? Estas duas jovens mulheres foram atraídas para a mesma teia de mentiras que envolvia Freegard como um agente do MI5. Foram sujeitas a provas igualmente difíceis e passaram a viver em fuga — sendo que ninguém os estava a perseguir.

Sarah ficaria sob a guarda de Freegard durante dez anos, completamente embrenhada na complexa mentira que ele tinha criado. Mudava-se de “safehouse” em “safehouse”, pintando e cortando o cabelo para não ser reconhecida. Já Maria acabou por se tornar namorada do “mestre da manipulação”. Sofreria abusos físicos e psicológicos durante nove anos. E juntos tiveram dois filhos.

Freegard explicava que tinham de abandonar as famílias, porque estariam em perigo caso mantivessem o contacto. Além disso, tanto John Atkinson como Sarah Smith e Maria Hendy entregaram a Freegard o equivalente a centenas de milhares de euros, praticamente todo o dinheiro que possuíam. 

Em 2002, John Atkinson acabou por regressar a casa. E ficou algo surpreendido quando nem o MI5 nem o IRA estabeleceram qualquer tipo de contacto com ele e a sua família. Sentindo-se culpado por ter arrastado as duas antigas colegas de faculdade para aquela vida que agora percebia que era uma mentira, contactou a polícia e o pai de Sarah — que tinha começado a sua própria investigação para descobrir o paradeiro da filha.

A polícia não se envolvia neste caso porque ambas eram adultas e aparentemente a levar uma vida consensual com Freegard. Mas Peter Smith, o pai de Sarah, não desistia porque acreditava que os seus comportamentos bizarros só poderiam estar a ser manipulados por alguém.

Quando as autoridades descobriram que Freegard se fazia passar por um agente secreto, graças ao contacto de Atkinson, começaram a investigar o caso. Aquilo que desvendaram foi uma rede ainda maior de burlas e pessoas manipuladas. Freegard usava o dinheiro das vítimas para levar um estilo de vida extravagante pela Europa fora. E havia outras vítimas envolvidas, cujos percursos se cruzaram com o trio inicial de estudantes. 

Uma das outras vítimas era uma americana chamada Kim Adams. Ao abrigo da lei americana, o caso desta jovem mulher poderia ser considerado rapto. Assim, o FBI envolveu-se na investigação, e em conjunto com as autoridades britânicas conseguiram deter Freegard. 

Em junho de 2005, este homem foi oficialmente acusado de crimes de rapto, agressão e roubo. Alguns meses depois foi condenado a prisão perpétua. Passou alguns anos na prisão, mas em 2009 foi absolvido pelos crimes de rapto, os mais graves. Os seus advogados conseguiram convencer o juiz de que as vítimas podiam escapar a qualquer momento — portanto, não podia ser rapto. No máximo, seria coação. 

A história não acaba aqui. Quando Freegard saiu da prisão, rapidamente se envolveu noutra possível burla — ainda não provada — que o levou a fugir com uma mulher, que deixou repentinamente a sua família. Freegard mudou de identidade. Desde 2014 que não se conhece o seu paradeiro, ainda que no ano seguinte tenha havido contactos entre a polícia e aquela mulher, que alegadamente disse estar a fazer tudo por vontade própria. Assim, não houve — por enquanto — mais acusações.

Quando a história se tornou conhecida, foi feito um filme inspirado no caso. “Freegard”, assim se chama a produção, tem James Norton e Gemma Arterton como protagonistas. Encontra-se neste momento em fase de pós-produção, ainda sem data de estreia.

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