Televisão

Norman Reedus: “Quando entrei em ‘The Walking Dead’, pensei que ia fazer 1 ou 2 episódios”

A NiT entrevistou o ator que interpreta Daryl. Falou sobre o final da série, o futuro spinoff e os dez anos da história.
A série vai terminar com a 11.ª temporada.

“Estou despedido?”, perguntou Norman Reedus à responsável do AMC, depois de revelar uma série de spoilers sobre “The Walking Dead” numa videoconferência por Zoom com jornalistas de vários países. “Desculpem, eu tenho uma grande boca.”

O ator americano de 51 anos interpreta Daryl Dixon na série que celebra o 10.º aniversário este mês de outubro. Era uma das poucas personagens que não existiam na banda desenhada que deu origem à história e ao longo dos anos Daryl tornou-se num dos grandes protagonistas. A série foi perdendo audiências e alguma relevância, mas continua a manter um público fiel que não perde um episódio.

Tal como Daryl, Norman Reedus é descontraído e simples, um homem apaixonado por motas e que até fez um programa de televisão à volta disso. Em comparação com Daryl, Norman Reedus é simplesmente mais extrovertido e alegre. Afinal, não vive num apocalipse zombie.

Neste mês de setembro, o canal americano AMC anunciou o fim de “The Walking Dead”. No entanto, a série só vai terminar no final de 2022, depois de uma 11.ª temporada bastante alargada.

Aliás, ainda faltam ser transmitidos os últimos episódios da atípica 10.ª temporada, que teve de ser interrompida por causa da pandemia e que depois foi aumentada. Ou seja, ainda faltam 31 episódios para o final da história. O capítulo da décima temporada que era para ser o final, o 16.º, vai estrear de forma isolada na segunda-feira, 5 de outubro, no canal Fox, a partir das 22h30. 

Contudo, este universo pós-apocalítico não acaba por aqui. No mesmo 5 de outubro estreia a terceira série, “The Walking Dead: World Beyond” (sendo que “Fear the Walking Dead” também vai ter uma sexta temporada) mas o canal anunciou que vêm aí mais duas produções.

Vem aí “Tales of the Walking Dead”, uma série de antologia em que cada episódio poderá ter uma história com personagens diferentes (algumas das quais poderão ser familiares), mas todas passadas neste mundo.

Além disso, o AMC aprovou um projeto que se vai centrar na história de Daryl e Carol depois de “The Walking Dead”. Este spinoff irá estrear em 2023. Leia a entrevista da NiT e de alguns jornalistas estrangeiros com Norman Reedus — prometemos que não incluímos os spoilers.

Como é que se sente em relação ao facto de “The Walking Dead” terminar com a 11.ª temporada?
Sinto que é algo um bocado agridoce. Parte de mim está preparada para o spinoff e para o entusiasmo que isso vai ter, e a outra parte é como se estivesse em negação. Tenho feito isto há algum tempo, tem sido uma grande parte da minha vida e quase não me parece real… E vamos agora gravar 30 episódios de seguida, por isso se calhar vamos querer matar-uns aos outros no final [risos].

Tem estado em todos os finais de temporada de “The Walking Dead”. O que é que faz com que o final da décima — o episódio 16.º — seja tão diferente?
É um episódio super complicado, épico, mas nós apostamos sempre em grande nos finais de temporada — ou nos finais antes das pausas a meio da temporada. Seguimos sempre uma sequência. No primeiro episódio de uma temporada, reintroduzimos as personagens, o que estão a fazer, e depois eles envolvem-se nalgum drama e no final é sempre algo épico. Neste estamos a despedir-nos de algumas grandes personagens, que tiveram um grande impacto na série. Houve algumas personagens que realmente mudaram a dinâmica da série e tínhamos que sair de forma épica para prestar homenagem ao trabalho que elas fizeram nesta temporada. Foi um grande episódio, estava um frio terrível e tudo estava sangrento, pegajoso e muito triste ao mesmo tempo. 

Estamos há mais de uma temporada e meia sem o Andrew Lincoln (ou a personagem Rick Grimes) na série. Como é que sente que o Daryl evoluiu desde esse momento? Está num papel de maior liderança?
Acho que ele ficou muito magoado quando o Rick saiu. Acho que foi um grande golpe para ele. Mas ele é um bocado o oposto do Rick. Lembro-me que o Andrew não queria sair da série. Ele tem uma família no Reino Unido e estavam do género: “tu tens de vir para casa agora”. Nós compreendemos porque é que o Andy saiu. Mas lembro-me de nesse momento ligar à [showrunner] Angela [Kang] e ao [argumentista e produtor] Scott [Gimple] e dizer: não me deem aqueles discursos à Rick Grimes. Eu não sou esse tipo de personagem, “alguém me dê uma caixa para eu me pôr em cima, para poder fazer um discurso”. Esse não é o Daryl. Não o façam fazer isso. Deem os discursos a outra pessoa. Mas ele é uma espécie de líder relutante. Ele faz as coisas acontecerem, mas não quer ser o tipo para o qual todos olham e perguntam: o que fazemos agora? Ele não é esse tipo e não podem torná-lo esse tipo. Quando a Alpha chegou aos portões de Hilltop, eu estava apenas de visita, eu nem vivia lá, e ela pergunta: “quem é que está a mandar nisto?” Olho em volta, nenhuma personagem diz nada, pronto, eu vou falar com ela. É assim que o Daryl é. Eu, enquanto pessoa, estou sempre a falar com o Andy. Tal como o Daryl, é como se eu carregasse os fantasmas destas pessoas que estiveram comigo na série. Estou na série e a pensar: pergunto-me como é que o Scott Wilson, o Hershel, resolveria este problema. O Daryl aprendeu de todas estas pessoas que ele admira e traz isso para a sua vida. É como eu faço na vida real. Há um grande paralelismo aí.

Já foi há dez anos que estreou “The Walking Dead”. Qual foi o maior momento para si?
Acho que foi a série de acontecimentos que sucedeu com a despedida do Andy. Havia uma altura em que o Rick estava tão cego de raiva que estava a tomar decisões malucas. Parecido com aquilo que a Melissa fez na última temporada. Quando estamos presos no buraco e o Daryl diz: “Tu não me estás a ouvir”. Somos forçados a ter aquela conversa e a partir desse momento até à cena na ponte, acho que essa série de acontecimentos foi uma das experiências mais colaborativas na série, comigo e o Andy a fazermos ensaios no nosso tempo livre, a termos milhares de conversas de manhã antes do trabalho, depois do trabalho, aos fins de semana… A colaborar e a tentar ter essa relação mesmo certa. Gosto mesmo quando colaboramos na série. Este foi um dos momentos mais fortes.

O que é que a série tem para ter conseguido perdurar durante tanto tempo?
Acho que, além do apocalipse e das circunstâncias, a série é sobre estas personagens. Estavam em diferentes posições na vida, que são completamente opostas, e nunca passariam tempo juntas se isto não tivesse acontecido. A única forma de sobreviver a este apocalipse era se trabalhassem juntos. E eles criaram laços, formaram famílias, passaram de estar completamente aterrorizados e a passar-se para se começarem a defender uns aos outros. E alguns não. Alguns correram para as florestas e esconderam-se. E outros são cobardes. É insano estarmos numa pandemia da Covid-19 no meio disto tudo. Porque sinto que, se toda a gente se tivesse juntado como as personagens de “The Walking Dead”, provavelmente já tínhamos ultrapassado isto. Por isso, tenho esperança que seja isso que mantenha a série junta. Espero que sejam essas as lições com que as pessoas fiquem.

Vai ser muito aborrecido para si, depois de gravar o último episódio, acordar e não haver walkers, whisperers ou outras criaturas apocalíticas na sua vida?
Definitivamente vou ter saudades dos monstros, não minto. Esta série e o Daryl tornaram-se uma parte tão grande da minha vida. Por isso vou ter saudades do universo de “The Walking Dead”. Mas a Carol e o Daryl vão ter um spinoff e estou curioso sobre quais serão as semelhanças e diferenças. Sei que haverão muitas diferenças e que os temas das duas séries são totalmente diferentes, embora tenham alguns dos mesmos elementos. Sei que vou ver um zombie ou dois no futuro.

O que é que gostaria de fazer no spinoff que não teve oportunidade de fazer na série principal?
Acho que é um tipo diferente de série. Nós os dois vamos ver quem é que resta no mundo. Quando era miúdo eu era um grande fã de sagas como “Kung Fu” ou “Billy Jack”, em que tens uma personagem que está a vaguear pelo mundo e a dar por si em diferentes situações. É uma oportunidade para nós trabalharmos com muito bons atores, muito bons argumentistas, que não têm de assinar um contrato de sete anos. Eles aparecem para um episódio ou dois e acho que para muitos atores essa é uma possibilidade entusiasmante. E há uma canção que tenho estado constantemente a vender como a canção oficial da série, espero que a usem mesmo.

O Daryl não existe na banda desenhada na qual a série se baseia. A personagem foi apresentada na primeira temporada e atualmente é vital para a série. Esperava que isto acontecesse quando fez o casting para entrar em “The Walking Dead”?
De todo. Eu achei que ia estar na série para um ou dois episódios. E estava entusiasmado com isso. Eu já era um enorme fã de “Mad Men”, de “Breaking Bad”, era uma produção do AMC e eu só queria fazer parte disto. Achei que seria divertido. Com a minha personagem acabou por se abrir uma porta para outras coisas que não estavam na banda desenhada. Houve certas partes dos livros que tivemos de seguir, de forma a respeitar os fãs, tínhamos de fazer certas coisas de determinada forma. O Glenn tinha de ser o que levava com o bastão, por exemplo. Mudávamos pequenas coisas mas não podíamos mudar tudo. Mas como a minha personagem não estava nos livros, pude vaguear entre várias storylines, para as apoiar e para fazer as minhas próprias coisas. Deu-me alguma liberdade. Não sei se me deu uma oportunidade para não ser morto, quem sabe? Eles estão sempre a pregar-nos truques. As mortes vêm do nada. Tive sorte, foi uma oportunidade para mostrar coisas que eram únicas e de que as pessoas não estavam à espera. Mas não, não esperava fazer isto durante tanto tempo [risos]. Eu costumava ser o jovem na série, lembram-se? E agora todos viram a minha barba a ficar grisalha. 

Muitas personagens na série têm uma arma de eleição que as distingue. O Daryl usa uma besta e sente-se que tem uma grande ligação com ela. Isso é mesmo assim?
Sim, é uma arma muito intimidante, muito pesada. É difícil correr com ela, se a puseres às costas e correres vai chocar contra a tua espinha, por isso tenho muito cuidado com isso. Faço muitos exercícios para a poder movimentar de um braço para o outro para não parecer que pesa 20 quilos. Às vezes estou na série e pergunto: será que não posso usar uma faca? É que isto é super pesado. Por vezes escrevem no guião “ele pega na sua besta, e atinge não sei quem” e já tive muitos olhos negros por causa disso. Bato com a ponta da besta na ombreira de uma porta e, pronto, olho negro. Muitos dos olhos negros que vocês veem na minha cara em “The Walking Dead” são reais. Será que posso ter a katana, agora? Posso brincar com isso? Mas tornei-me muito próximo da besta.

Ao longo das temporadas, o Daryl tem-se transformado e evoluído. Qual é a grande falha ou fraqueza dele, de que ainda tem muito por aprender?
Acho que há muitas coisas que ele podia aprender. Acho que ele ainda é reservado. Acho que saiu da sua caixa por as pessoas confiarem nele e ele tornar-se o tal líder relutante. Mas acho que ele ainda tem problemas de intimidade. Quando alguém morre, sentes que devias ter tido mais tempo com aquela pessoa. Acho que o Daryl sente muito isso. Está sempre a perder pessoas. Acho que está a chegar lá, mas ainda não é a sua prioridade.

Como foi trabalhar com o seu cão nestas últimas temporadas?
Eu amo o cão. Desde a segunda temporada que estava a pedir por um cão. E finalmente ter um cão é ótimo. Mas aquele cão em particular adora-me. Quando o vejo, ele vem para mim, levanta as patas e dá-me um abraço. Isso é o quão ele me adora — ele não faz isso com mais ninguém. Até o treinador do cão diz à equipa que é preciso terem cuidado com o Norman porque o cão criou uma ligação comigo. Vem o profissional da maquilhagem dar-me um retoque por trás e o cão começa a rosnar. Isso só me faz gostar mais do cão. E quero trabalhar com ele o máximo possível. Acho que o cão devia ter o próprio spinoff. E todos os dias quero levá-lo para casa. 

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