Televisão

Nos anos 80, Ricky Gervais quis ser uma popstar na música — só teve sucesso num país

A comédia dramática do humorista, “After Life” regressa esta sexta-feira, 14 de janeiro, à Netflix. São seis novos episódios.
Ricky Gervais formava a banda com o melhor amigo.

“After Life”, a comédia dramática criada por Ricky Gervais, está de volta à Netflix a partir desta sexta-feira, 14 de janeiro. A terceira e última temporada conta com seis novos episódios. Fica assim concluída a história de Tony, repórter de um jornal local, que vive em constante miséria após a morte da mulher — mas que vai encontrando algum consolo nas conversas e interações que mantém no dia a dia.

Muito antes de Gervais ser um comediante famoso — e de se ter tornado uma estrela com “The Office”, em 2001 —, o britânico tentou uma carreira na música. Muitos fãs talvez não conheçam esta faceta do humorista.

Corria o 1982. Ricky Gervais tinha 21 anos, usava rímel, um penteado irreverente e era bastante mais magro. Foi no mês de junho que, no último ano do curso na University College London, Gervais se juntou ao melhor amigo da altura, Bill Macrae, para formarem uma banda de new wave. 

O nome? Seona Dancing. Macrae tocava os sintetizadores, Gervais cantava. Tinham uma estética altamente estilizada, livre e até com elementos queer, que contrastavam com o conservadorismo da sociedade liderada por Margaret Tatcher na época. E conseguiram um contrato com uma editora chamada London Records, que lançou os únicos dois singles da dupla — “More to Lose” e “Bitter Heart”. 

As canções não alcançaram o sucesso esperado, e os Seona Dancing foram considerados por muitos como imitadores de David Bowie, sem grande coisa a acrescentar. Ainda assim, o duo participou nalguns programas de televisão, fez concertos e teve alguma visibilidade. Decidiram terminar o projeto em 1984, percebendo que os Seona Dancing não tinham grande futuro. Contudo, Ricky Gervais continuou a trabalhar na área da música durante algum tempo, tendo sido manager de artistas, incluindo os Suede — antes de se tornarem conhecidos.

Os Seona Dancing formaram-se em 1982.

A 10 mil quilómetros de distância, nas Filipinas, um fenómeno improvável acontecia. O arquipélago estava prestes a passar por um período revolucionário, quando um golpe popular tirou do poder o presidente autoritário que há duas décadas dominava o país. Naquela altura, a cultura pop ocidental estava bastante presente, sobretudo junto dos mais jovens.

Os filipinos eram especialmente ouvintes de grupos de new wave — e bandas como os Pet Shop Boys ou os Orchestral Manoeuvres in the Dark alcançaram um estatuto de culto no país asiático. Pelo meio, a canção “More to Lose”, dos Seona Dancing, tornava-se um hit.

Tanto que o DJ de rádio que começou a passar a faixa, em 1985, não revelava o verdadeiro título da música nem o nome da banda. Dizia que se chamava “Fade” e era dos Medium. Mas também houve ocasiões em que trocou os nomes, alegando que se chamava “Medium” e que tinha sido composta pelos Fade. O objetivo era que as estações de rádio rivais não descobrissem qual era a música para não a poderem passar.

Com o tempo, este esforço provou ser vão. “More to Lose” tornou-se um hit nacional e toda a gente passou a conhecer o tema. Tanto que a canção se manteve durante anos e anos nas playlists das rádios do país.

“Tornou-se um tema favorito dos jovens das Filipinas focados neste tipo de música — uma faixa obrigatória nas chamadas festas new wave que aconteciam nas casas de classes sociais altas de Manila. De alguma forma, a canção dava aos miúdos uma razão para se sentirem felizes no meio da crise política e económica”, disse à revista “Time”, sobre o fenómeno, o crítico de música filipino Pocholo Concepcion.

Quando o jornal “Philippine Daily Inquirer” conseguiu uma entrevista com Ricky Gervais em 2014, o tema central não foi a comédia nem os seus projetos televisivos. A conversa baseou-se sobretudo no seu percurso na música.

“Lançámos um par de singles. Falharam, e foi o fim daquilo. Agora que sou famoso numa área diferente, as pessoas encontram sempre aquelas fotografias minhas quando parecia novo e magro. É terrível, não é? Tinha queixo e um cabelo adorável e denso”, disse Gervais à publicação. “Estou quase contente que não tenha resultado. Agora estaria morto”, ironizou o humorista, sobre a hipótese de que se poderia ter tornado uma popstar da música.

Ainda assim, Ricky Gervais nunca abandonou completamente a música. Ao longo dos anos compôs um tema para “Os Simpsons”, colaborou com David Bowie para uma música para a série “Extras” e até fez uma tour enquanto David Brent com os Foregone Conclusion — a banda fictícia da personagem em “The Office”.

Em “After Life”, série completamente idealizada por Gervais, a banda sonora foi escolhida de forma minuciosa. “Nunca tive um orçamento como este [para a banda sonora], por isso cometi loucuras”, revelou numa entrevista. “Normalmente, o orçamento faz-se com o que sobra, especialmente em televisão, e acabamos por usar músicas genéricas. Desta vez escolhi os maiores artistas e as minhas canções favoritas. Já tinha tentado fazer isto, mas nunca consegui ter dinheiro para tudo.”

A possibilidade de selecionar os temas um por um significaram que cada cena tem a balada e as letras certas. “Até coloquei tudo no guião, por isso, as montagens combinam com as músicas e são temas realmente comoventes. Dão vida às cenas. Há muito pouca coisa que bata a música. É como fazer um download de emoções.”

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