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A nova série da HBO conclui: Woody Allen é culpado de abuso sexual

A produção documental “Allen v. Farrow” tem quatro episódios e estreia esta segunda-feira em Portugal.
O caso é complexo mas o documentário explica-o bem.
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O caso das alegações de abuso sexual contra Woody Allen, por parte da filha adotiva Dylan Farrow, é complexo. Mas o mais curioso é perceber que, sem nada de relevante ter mudado, a forma como a opinião pública olha para esta história é completamente diferente.

O alegado abuso terá acontecido em 1992, quando Dylan tinha sete anos. Depois disso, durante anos e anos Woody Allen continuou a fazer filmes, a receber prémios e a ser elogiado e adorado pelos colegas e pelo público. Existe a sensação de que se ignorou ou se tentou esquecer este incidente.

Nos últimos anos, numa América pós-movimento #MeToo que relembrou a acusação, o realizador foi ostracizado — ao ponto de já ninguém financiar os seus filmes. Woody Allen trabalha na Europa agora. “Um Dia de Chuva em Nova Iorque” já nem estreou nos EUA. O recente livro de memórias que escreveu também não teve direito a uma grande distribuição no seu país.

Há uma nova série documental que relata em pormenor toda esta história. “Allen v. Farrow” tem quatro episódios, cada um com cerca de uma hora, e estreia esta segunda-feira, 22 de fevereiro, na HBO Portugal. A NiT já teve oportunidade de assistir à produção realizada por Kirby Dick e Amy Ziering.

É impossível averiguar se a intenção dos produtores era ficarem do lado de Mia Farrow, atriz, ex-namorada de Woody Allen e mãe adotiva de Dylan. Toda a série documental tem entrevistas com pessoas que estão do seu lado ou que corroboram informações coerentes com as suas alegações.

Mas Woody Allen, Soon-Yi Previn (a atual mulher do realizador, que é filha adotiva de Mia Farrow) e Moses Farrow (filho adotivo de Mia e Woody), as únicas vozes relevantes do outro lado da trincheira, recusaram-se a dar entrevistas, pelo que os realizadores ficaram sem grande alternativa. A série acaba por declarar aquilo que, pelas provas e circunstâncias que apresenta, parece óbvio: que Woody Allen é culpado.

O primeiro episódio serve de introdução. Mostra como Woody Allen e Mia Farrow se conheceram e depois começaram uma relação que durou uma década. Ela tinha sete filhos quando começaram a namorar — e Allen não queria ter nada a ver com eles, como o próprio admite sem rodeios. Mais tarde, Mia Farrow adotou Dylan e as coisas mudaram. Como Allen explica no seu livro de memórias (que serve de contraponto na série documental, apesar de não ser muito contraditório), foi aí que sentiu uma urgência para ser pai.

Tudo parecia ótimo. De repente, Woody Allen estava mais envolvido na vida familiar de Mia Farrow, brincava com os miúdos, oferecia-lhes presentes e contava piadas. Até que as coisas começaram a ficar estranhas. Enquanto figura paternal, tornou-se demasiado próximo, fisicamente, de Dylan.

Colocava-a constantemente ao colo, agarrava-a e estava sempre atrás dela. E a família, os amigos e a própria Dylan começaram a estranhar os comportamentos de Allen. Dylan conta no documentário, até, que se começou a fechar na casa de banho porque não queria que o pai, Woody Allen, estivesse sempre atrás de si. Alguns dos seus irmãos, Ronan Farrow e Fletcher Previn, entre outros amigos e funcionários da família, corroboram esta versão.

Antes de chegar ao dia em que o abuso terá acontecido, o documentário recua para contar a história do caso amoroso entre Woody Allen e Soon-Yi Previn — sua atual mulher, que na altura era filha adotiva de Mia Farrow. Allen sempre alegou que Soon-Yi já era maior de idade, que tinham começado o caso quando ela estava na faculdade. Mas várias testemunhas, e provas circunstanciais, apontam para que o caso tivesse começado antes, quando Soon-Yi ainda era menor.

Este é o segundo escândalo sexual associado a Woody Allen. O realizador sempre alegou que Mia Farrow se sentiu tão mal por ter sido traída com a filha, e que sentiu tamanhos sentimentos de vingança, que decidiu inventar o abuso sexual, levando Dylan a mentir sobre o que tinha acontecido, treinando-a para contar aquela história.

“Allen v. Farrow” não apresenta provas novas. Mas reconta toda esta história com o distanciamento temporal suficiente, apontando as falhas que houve na investigação e no sistema judicial que beneficiaram Allen, e explicando que o realizador só não foi acusado de abuso sexual porque o procurador (que também é entrevistado) considerou que a única forma de o fazer seria colocar Dylan a testemunhar, o que poderia traumatizar ainda mais a criança.

Dylan conta que o pai tinha comportamentos inapropriados com ela.

Aqueles alegados 20 minutos na companhia do pai, naquele dia de 1992 — e os comportamentos inapropriados que já existiam antes — mudaram completamente a vida desta rapariga. A série documental mostra como Dylan Farrow teve de enfrentar uma série de dificuldades durante a vida por causa disto, como se tornou socialmente inapta — e há mesmo um momento nas gravações em que a vemos a sofrer fisicamente de ansiedade apenas por estar a reviver aquilo que terá acontecido. 

Além disso, durante muito tempo não lhe foi dada voz — não teve oportunidade para, enquanto adulta, contar a própria história e explicar a sua perspetiva. O irmão, Ronan, que é jornalista, foi essencial para que isso finalmente tenha acontecido a partir de 2014 — e esse foi o pontapé de partida para que, quase de repente, Woody Allen se tornasse uma persona non grata em Hollywood, na sua Nova Iorque e nos EUA em geral.

Por o documentário não conseguir provar nada, tenta contextualizar tudo — a história de um homem poderoso que terá influenciado a justiça, manipulado a opinião pública, e difamado a antiga companheira, alegando que Mia era abusiva com os filhos. E até se fala de um possível problema sistémico na justiça americana que beneficia os pais que são abusadores. Mesmo que a série não consiga provar o abuso, consegue mostrar algumas facetas bizarras da figura de Woody Allen, que servem de contexto para compreendermos esta pessoa. 

O seu fascínio por mulheres adolescentes é evidente — e “Allen v. Farrow” mergulha nos filmes de Allen para também o explicar, com a ajuda de críticos de cinema e de especialistas sobre o assunto, o que é uma abordagem totalmente circunstancial, mas bastante curiosa e diferente daquilo a que estamos habituados neste tipo de formatos. As chamadas gravadas entre Woody Allen e Mia Farrow, onde ouvimos Allen a mentir descaradamente, também são um dos elementos fortes da série.

Acima de tudo, “Allen v. Farrow” dá voz a Mia e a Dylan Farrow, que oferecem testemunhos emocionantes sobre as suas vidas. Durante muito tempo, talvez não tenham tido as mesmas oportunidades de Woody Allen para expressarem o que sentiam em relação a toda esta situação. Talvez sejam vítimas que, quando precisavam da ajuda da sociedade e do sistema, foram ainda mais empurradas para baixo. O documentário é convincente e reúne dezenas de entrevistados das mais variadas áreas que parecem corroborar que as alegações são verdadeiras. É um bom retrato desta história complexa, ótimo para quem não conhece os pormenores ou para aqueles que querem recordar este caso que começou há quase 30 anos. Talvez a principal falha seja que não precisava de ser tão longo — tem pelo menos meia hora a mais —, mas merece, sem dúvida, ser visto.

Woody Allen e Soon-Yi Previn, filha adotiva da sua ex-namorada, estão juntos há mais de 20 anos.

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