Televisão

Nova série da Netflix é uma assustadora história real de stalking com muito humor

Richard Gadd, cuja história inspirou a obra, recebeu 40 mil emails, 350 horas de voicemails e 100 páginas de cartas da sua stalker.
Tem algumas cenas arrepiantes.

Stephen King é o rei do terror e, sem surpresas, figura inspiradora de muitos cineastas. Foi também esse o caso de Richard Gadd, autor do argumento e protagonista de “Baby Reindeer”, que chegou à Netflix esta quinta-feira, 11 de abril.

As inspirações são notórias. Há, contudo, uma grande diferença: os momentos mais tensos são pautados por cenas de comédia — algo que raramente acontece na obra de King. O filme é protagonizado por Jessica Gunning no papel da stalker e Richard Gadd interpreta a presa.

“Ela é uma perseguidora em série com um passado criminoso. Ele é um aspirante a humorista que trabalha num bar em Londres. Bastou um ato de bondade para gerar uma obsessão doentia”, lê-se na sinopse disponibilizada pela plataforma de streaming.

Antes de ser uma longa-metragem, “Baby Reindeer” era uma peça de teatro também encabeçada por Gadd, que se inspirou na sua própria história. O objetivo era o de representar este crime de uma forma diferente, sobretudo pelo impacto que nele têm sobretudo as doenças mentais.

“O stalking na televisão tende a ser muito sexual e é sempre muito místico. É alguém num beco escuro, alguém muito sexy, mas que depois fica estranho aos poucos”, diz o ator de 34 anos à “Hello”. “Mas perseguir alguém é fruto de uma doença mental. Eu queria mostrar todas estas camadas que nunca tinha visto na televisão.”

Não queria que a sua personagem fosse apenas uma vítima e que Martha, a perseguidora, fosse só uma vilã. “A arte torna-se muito interessante quando não sabemos de que lado ficar. Queria que capturasse a realidade humana. As pessoas são boas, mas também cometem erros e têm maldade.”

A série nasceu do trauma do ator, vítima ele próprio de uma perseguição de uma fã obcecada. Adormecia com as mensagens de voz da stalker na cabeça e com as mensagens a passarem-lhe à frente dos olhos. “Com o passar do tempo, percebi que ela era uma pessoa muito vulnerável que precisava de ajuda. Era essa a verdade que eu queria trazer para o ecrã”, explica.

Richard começou a ser perseguido por Martha (um nome falso) após lhe ter oferecido uma chávena de chá num bar em que trabalhava. Este rápido encontro deu início a uma obsessão doentia. Ao longo de cinco anos, o ator recebeu 40 mil emails, 350 horas de voicemails e 100 páginas de cartas.

Soube imediatamente que isso daria uma boa história. Em 2019 criou a peça “Baby Reindeer” (“Rena Bebé”, em português), a alcunha que Martha lhe tinha dado. Naquele mesmo ano ganhou um Scotsman Fringe First Award e um Stage Award para Melhor Interpretação.

Tal como as suas apresentações no palco, a série da Netflix é muito pessoal. Quando questionado se havia algo que ele gostaria de ter deixado de fora da obra para se proteger, foi honesto: “Houve esses momentos, mas acho que assim que me começasse a diluir, o público ia perceber logo que algo estava errado. Quando não somos sinceros no que escrevemos, isso percebe-se. Às vezes sentia-me desconfortável, mas contei tudo o que tinha de contar.”

Escrever o argumento também foi uma forma de terapia para Richard Gadd, que, no passado, foi violado por um guionista de televisão britânico. O homem convidou-o para o seu apartamento e drogou-o. Só no dia seguinte é que Gadd percebeu o que tinha acontecido.

“Não quero falar por todas as pessoas que já foram abusadas sexualmente, mas uma das ramificações mais comuns é o facto de nos culparmos a nós próprios. Porque é que eu fui lá? Porque é que eu fiz isto? Vivi numa prisão de ódio e autopunição durante muito tempo. Mas escrever de forma cronológica e processar o meu trauma fez com que aprendesse a ter um pouco mais de empatia comigo mesmo”, conclui.

Carregue na galeria e conheça outras estreias de abril.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT