Televisão

Nuno Markl: “Dos melhores empregos que tive. Mas foi intenso, parece que fui à tropa”

A NiT falou com o apresentador sobre o novo “Taskmaster”, que conduz com Vasco Palmeirim. Estreia este sábado na televisão.

Em 2015, o comediante britânico Alex Horne, em conjunto com o parceiro Greg Davies, adaptou “Taskmaster” — o formato cómico que tinha criado para o prestigiado festival Fringe de Edimburgo — para a televisão. Múltiplos prémios e adaptações depois, chega agora a Portugal.

O “Taskmaster” nacional estreia na RTP1 este sábado, 19 de janeiro, a partir das 22 horas. Vasco Palmeirim é o taskmaster, Nuno Markl é o seu fiel assistente. Juntos vão apresentar provas insólitas que cinco participantes têm de ultrapassar em cada episódio.

O programa tem um núcleo fixo de quatro personalidades: as atrizes Inês Aires Pereira e Jessica Athayde, o comediante Gilmário Vemba e o músico Toy. O quinto convidado é rotativo — na estreia vamos poder ver Fernando Mendes, no programa seguinte é a vez de António Zambujo.

A NiT entrevistou Nuno Markl para anteciparmos a estreia deste programa original que promete ser divertido em várias vertentes.

O que o entusiasmou a querer fazer este programa, quando Vasco Palmeirim lhe falou nele, há uns anos?
Disse-me que existia este concurso, do qual ele era completamente fã e pensava que poderia funcionaria cá em Portugal. E, se viesse a ser feito em Portugal, não poderia ser apresentado por mais ninguém que não por nós os dois. Sou um tipo bastante atento a tudo quanto é comédia britânica, mas não conhecia o “Taskmaster”, tinha-me falhado. Não conhecia o Alex Horne, mas conhecia o Greg Davies. Já o tinha visto em séries. É um tipo com muita piada e uma figura extraordinária, uma espécie de titã. Quando comecei a ver aquilo fiquei instantaneamente fã porque há ali uma mistura de coisas, entre a inteligência e a parvoíce. Essa fusão de criatividade e de barraca [risos] é muito interessante, cativou-me completamente. Fiquei encantado, comecei a ficar viciado, vi muitos episódios. E disse ao Vasco: OK, percebo exatamente porque é que isto faz sentido. E depois disso, o Vasco foi chagando a RTP. Finalmente acharam que estava na altura de fazermos isto.

É um programa realmente diferente daquilo a que temos sido habituados na televisão portuguesa?
Penso que sim. Pega nalguns conceitos de base que, se calhar, serão familiares de outros concursos — como um apresentado pelo próprio Vasco há uns tempos, o “I Love Portugal”. O que distingue o “Taskmaster” de qualquer outro desses concursos é que, para já, tem um lado daquilo a que chamam “panel show”. Aí, as pessoas estão de facto a conversar no estúdio sobre aquilo que fizeram e estão a reagir ao que elas e os outros fizeram em cada prova. Ao mesmo tempo, há um lado engraçado de pompa que vem desse lado britânico da coisa. Estamos num cenário com um ar muito respeitável, num teatro, e há um tom de grande — e estranha — importância nas tarefas e no busto que o Taskmaster tem para atribuir ao vencedor no fim das oito sessões. Acho que é essa combinação de pompa e loucura que faz com que isto seja um formato muito british. Quisemos preservar, de certa maneira, o espírito do programa. Sendo nós fãs, era impensável tentar fazer aquilo de outra maneira. Por isso, fomos muito cuidadosos. Eu e o Vasco fizemos questão de escrevermos os guiões. E depois tivemos a sorte de ter o Alex Horne a acompanhar o processo e a dar-nos dicas, tivemos uma reunião maravilhosa com ele por Zoom.

Que dicas é que ele vos deu?
Foram conselhos muito práticos, tínhamos dúvidas de pormenor e existiam coisas que tinham de ser alteradas. O programa original tem 50 minutos. Cá, por questões de programação, tinha de ter mais tempo. O que é seria muito arriscado, porque uma das coisas perfeitas no “Taskmaster” original é o quão concentrado aquilo é — e o quão veloz é naqueles 50 minutos. Cá tivemos de fazer uma hora e meia, mas ele não se mostrou chocado com isso. E lá se chegou a um acerto: vamos ter mais uma prova de estúdio, por exemplo. E houve questões de tom, de interações em estúdio, sobre como podemos provocar os concorrentes quando lá estamos, como explorar os possíveis diferendos entre uns e outros. Foi ótimo falar com ele. No final também foi ótimo tirar a selfie possível via Zoom, consegui fazer pose com ele, que foi muito simpático [risos]. Ainda o convidámos para vir cá, mas com a Covid-19 era muito complicado. Ficou apalavrado que, eventualmente, virá cá um dia para nos conhecer e ver alguma gravação.

Quais são as vantagens do programa ter um núcleo fechado de participantes?
É uma coisa muito interessante. Porque o que tens ali é uma espécie de um concurso, mas é também uma espécie estranha de sitcom improvisada. A partir do momento em que te afeiçoas àquela espécie de família disfuncional que se cria, se é que já não tens afeto por eles — quem é que não gosta do Toy? —, vais ganhando pelas suas características, pela maneira como percebes em cada prova o que é que cada um vai fazer, e a forma como te surpreendem. Isso faz com que olhes para aquele grupo de pessoas como se fosse um núcleo de “Seinfeld” ou “Friends”. Começas a ter um afeto por aquelas quatro personagens e pela odisseia que vão atravessar ao longo das semanas. Ter um grupo fixo em cada temporada cria uma relação de familiaridade, sendo que no original têm cinco fixos, mas achámos que seria interessante , que no nosso caso, o quinto concorrente fosse rotativo, como acontece noutras versões internacionais do “Taskmaster”. Também se cria uma dinâmica engraçada quando tens um grupo já formado e, de repente, um estranho cai ali de páraquedas e que tem de atravessar a sua própria epopeia. Foi muito giro, temos pessoas muito diferentes.

Como é que foi escolher estes quatro participantes fixos? A Inês Aires Pereira, o Gilmário Vemba, a Jessica Athayde e o Toy.
Pensámos em dezenas e dezenas de pessoas, tivemos um longuíssimo brainstorm com a RTP e a [produtora] Fremantle para cada apresentar a sua lista de escolhas. Imaginámos o que cada pessoa faria. Do misto de sugestões, resultou neste grupo. Portaram-se tão bem durante estas oito semanas e foi tão divertido vê-los a fazer aquilo que não houve ninguém que se tivesse desiludido. Toda a gente se empenhou incrivelmente nisto, toda a gente teve muita graça. É preciso não esquecer que, na sua origem, o “Taskmaster” é um concurso feito para humoristas. Foi criado pelo Alex Horne no Fringe Festival, em Edimburgo, como uma espécie de mini “Jogos sem Fronteiras” para comediantes. Noutros países abriu-se um bocado o âmbito da coisa, não apenas a comediantes mas a atores, músicos, a pessoas que têm sentido de humor e algum sentido de desenrascanço — para conseguirem dar uma resposta rápida às coisas surreais que lhes aparecerem pela frente. Na primeira semana vamos ter como convidado o Fernando Mendes. Na segunda semana — num registo completamente diferente — temos o António Zambujo. Portanto vai ser muito inesperado e surpreendente o que cada um vai fazer. O Alex Horne fez uma seleção das provas que “funcionam sempre”, e por muito que os fãs já as tenham visto no original, na maioria destas provas nunca sabes como é que cada pessoa vai reagir e solucionar cada um daqueles obstáculos. É isso que faz com que possas ver estas provas 20 vezes, feitas pelas mais variadas pessoas. 

Como explicou, entre descobrir o programa e a RTP aceitar fazê-lo passou algum tempo. Quando o concretizou, o que mais o surpreendeu?
Fiquei surpreendido com a vontade da RTP em fazer este formato. Está com um pé no alternativo e, às vezes, o Nuno Vaz e o José Fragoso faziam essa piada connosco: “pá, nós sabemos que vocês gostam destas cenas alternativas mas atenção que isto tem de chegar às pessoas também, ao público em geral” [risos]. A minha grande surpresa será o que vai acontecer no sábado. Este concurso — que não é bem um concurso, chamar-lhe concurso é muito limitado — é uma coisa tão transversal que é capaz de meter a chorar a rir desde pessoas de idade a miúdos… Fiz o teste com o meu filho e com colegas dele, da escola, e percebi que estavam completamente agarrados e a chorar a rir. A grande surpresa está reservada para quando o programa estrear, porque é muito imaginativo, por um lado, e muito acessível, por outro. Diria que, na sua essência, o Alex Horne descobriu uma maravilha: criar um programa que consegue ser alternativo, arrojado e ao mesmo tempo acessível e popular. É raro conseguir-se esse equilíbrio, mas o “Taskmaster” conseguiu isso em vários países e agora estamos muito curiosos para ver como irá resultar cá.

Também disse, durante as gravações, que este terá sido um dos trabalhos mais duros que já fez em televisão. Porquê?
Tenho sempre a vida muito cheia de coisas e isto obrigou-me a sair da rádio, durante um mês e tal, e ir direitinho para aquela quinta onde nós gravámos as provas. E, por vezes, saía de lá à noite. Obviamente, não fui quem sofreu mais. Às vezes, os concorrentes saíam de lá feitos num oito — ainda por cima temos uma mulher grávida e tudo, a Inês, com uma extrema coragem. Mas devo dizer que também sofri bastante, porque muitas vezes o meu corpo era usado pelos concorrentes para obter certos resultados para as suas provas. Foi muito intenso. Felizmente consegui milagrosamente organizar a minha vida — com a ajuda de várias pessoas e da família — porque, de facto, fui à tropa durante um mês e tal [risos]. Estive a viver naquela casa com aqueles concorrentes. Mas foi mesmo muito divertido. Foi dos melhores empregos que tive. Sobretudo por sentir que estava a servir um formato do qual sou fã. Na reunião que tivemos com o Alex Horne fiz questão de lhe dizer, para o tranquilizar. Senti que ele estava inquieto com isso, ou se calhar não. Se calhar quer é que lhe paguem por cada versão [risos]. Mas eu disse: “nós somos fãs e queremos assegurar que isto fica digno do vosso legado”.

Foi fácil definir quem era o Taskmaster e o assistente, entre o Nuno e o Vasco Palmeirim?
Acabou por ser. Inicialmente, de uma maneira muito instintiva, e se calhar não pensando muito nisso, pensou-se que dada a diferença de idades, e a ligeira diferença de alturas — o Vasco é mais baixo e nós gozamos muito com ele. Às vezes, na rádio, fazemos com que as pessoas achem que ele é muito pequenino mesmo, mas também não somos assim tão diferentes de altura. Então pensou-se que talvez houvesse mais gravitas na minha personagem na cadeira grande. Na verdade, a dinâmica é completamente diferente. O Vasco é mais novo, mas muitas vezes neste duo que temos ele é que tem a cabeça no lugar. É a pessoa que me dá na cabeça porque me esqueci de qualquer coisa óbvia. Percebemos que ele é que tinha de ser o Taskmaster, ele é que tem essa assertividade e eu era o tipo que tinha que estar lá, a acompanhar as provas. Tornou-se muito natural essa ideia. E é muito giro porque a comunidade internacional de fãs do Taskmaster está atenta às várias versões internacionais do programa. Há um site feito por um inglês que está sempre a acompanhar todas as versões, e nós já lá estamos. Também há canais de YouTube sobre isso e às tantas o teaser português foi partilhado num desses canais e estão lá ingleses a dizer “gosto deste tipo como Taskmaster”, “vê-se que tem o carisma e a gravitas” e achei isso muito engraçado. Por isso, temos a bênção do Alex Horne e talvez também de alguns dos fãs internacionais.

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