Televisão

O “Amor Acontece” podia chamar-se “O amor é uma treta e eu vou ficar para tia”

O humorista e cronista da NiT, Miguel Lambertini, analisa mais um episódio do novo programa da TVI.
Um dos casais.

A semana passada estávamos todos encantados com o romance de Ide e Jorge e quase chegámos a acreditar que o amor realmente acontece. Claro que passados três dias o Jorge já estava no Goucha a contar que Ide tinha o perfil de uma predadora sexual e que depois do programa nunca mais quis saber dele.

É extraordinário como este tipo de formatos que tentam provar que é possível encontrar o amor num programa de televisão, consegue demonstrar precisamente o contrário, de forma tão evidente. E o problema, a meu ver, é a questão da gestão de expetativas, porque os casais sentem uma pressão enorme para tentar fazer com que aquele arranjo funcione e é claro que isso é meio caminho andado para o desastre.

Como tal, parece-me que este formato só funcionará quando fizerem algo diferente em que os participantes tenham zero expectativas de encontrar o amor. Deixo aqui algumas sugestões de formatos que acho que poderiam ser um sucesso, como por exemplo, “O amor é uma treta e eu vou ficar para tia/o”, “Totalmente incompatíveis à primeira vista” ou “Ninguém quer namorar contigo, seu matarruano com cheiro a bedum”.

É um clássico das histórias de amor, duas pessoas de universos opostos com circunstâncias que os afastam, mas que acabam por ser precisamente o seu ponto de atração: a Princesa Leia e o Han Solo, em “Star Wars”, o Professor e a Raquel de “La Casa de Papel”, ou mais recentemente, o Luís Filipe Vieira e o Pinto da Costa. Uma fórmula simples e garantida, que invariavelmente termina em frases como “odeio-te de morte…agora possui-me contra a porta do frigorífico!” Espero que a TVI pense com carinho nesta ideia mas até lá, aqui fica um resumo do que se passou no episódio de ontem.

Casa de Campo — Sofia e Miguel

Depois de uma noite em que Sofia interrogou Miguel sem ter conseguido obter a confissão desejada, o ambiente ficou um pouco pesado e por isso, na manhã seguinte, o casal foi dar comida a avestruzes. Nada como uma ave que enterra a cabeça na terra para ajudar a resolver qualquer contenda. Já em casa, Miguel recebeu a visita de um amigo que resume desta forma a sua personalidade, “Podemos dizer que o Miguel é um menino”. Com amigos assim… Já Sofia acha que Miguel esteve com alguém pouco tempo antes de vir para a experiência e que ele não está a ser totalmente genuíno.

Miguel quis provar o contrário e na última noite na casa de campo fez marcação cerrada e deu tudo para “tentar fazer a festa”, mas Sofia só queria que ele a deixasse acabar de jantar. No dia seguinte, Sofia explica que tentou relaxar um pouco mas não conseguiu. Claro que não conseguiu, a rapariga faz mais análises sobre o comportamento do Miguel, que um computador da NASA em dia de lançamento. Eu só vi pequenos excertos e já fiquei cansado. “Oh pá, que chata”, diz Marlene, ao ouvir o casal comentar a experiência, na sala de decisão. Pelos vistos, não fui o único.

Moinho — João e Inês

A Inês tem um passado de namorados músicos e o João toca concertina. Vai daí a produção achou que este casal fazia um match perfeito. Só que não. “Se passasse por ti na rua, olhavas para mim?”, pergunta João. Inês responde “Sinceramente acho que não.” É uma interação que resume basicamente a enorme química que houve entre este casal.

“A minha banda favorita é o Pearl Jam”, diz Inês, ao que João responde “desconheço total” como se ela tivesse falado de uma banda neozelandesa dos anos 60. Tudo bem, nem toda a gente é obrigada a saber quem são os Pearl Jam, mas daí a tentar encantar a Inês a tocar uma versão em concertina da “Rosa arredonda a saia”, também é já é um bocado demais.

Casa da Serra – Helena e Alexandre

A Helena estava feliz e até houve momentos em que se esqueceu que estava num programa de televisão. Por ela a experiência ia de vento em poupa, o problema é que o Alexandre não estava no mesmo comprimento de onda e vestiu a sua t-shirt de manga cava, estilo Bruce Willis da Rinchoa, para lhe comunicar isso. Após três dias, Alexandre decidiu que não queria continuar. “Precisava que certos estímulos fluíssem” explica, enquanto Helena tenta perceber que estímulos são esses e por onde é que seria suposto eles fluírem. “Acho que estás a espelhar em mim aquilo que não conseguistes mostrar”, contrapõe Helena e já sozinha admite em tom triste, “Helena, tu assustas os homens”. Eu acho isso um exagero, embora no meu caso admito que seja verdade, porque se há coisa que me dá pavor é ouvir alguém dizer “conseguistes” em vez de “conseguiste”.

Casa da Praia – Marlene e Hugo

O Hugo não era o que Marlene tinha imaginado, mas a convivência, após alguns dias, revelou encantos que estavam escondidos ao primeiro olhar. O casal recebeu a visita de uma amiga da Marlene que fez tantos elogios ao Hugo que a certa altura até eu já estava a achar que ele era um bom partido.

Mas depois lembrei-me que já sou casado. “Olha que o Hugo é material para casar” diz Tânia muito entusiasmada com o romance que poderia surgir entre a sua amiga e este desconhecido. O casal revelou alguma química nos últimos dias e já na cerimónia da decisão, apresentaram-se com grande cumplicidade. A amiga Tânia voltou a aparecer para continuar a elogiar o Hugo num momento que pareceu de televendas, “o Hugo cozinha, o Hugo serve, o Hugo lava…” Só faltou anunciar “Aproveite já esta promoção e leve um Hugo para sua casa, pelo preço que vê no ecrã!” A Marlene pareceu ter ficado convencida, agora é só esperar que não devolva o Hugo no prazo de 30 dias.

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