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O caso do ataque informático que expôs milhares de casais infiéis chega à Netflix

O caso Ashley Madison aconteceu há quase uma década. Agora, as histórias das vítimas do ataque são reveladas em documentário.

Demissões, divórcios e suicídios. Numa época em que as apps de encontros e sexo casual se tornaram banais, é difícil imaginar o impacto global que teve o caso Ashley Madison. O escândalo rebentou há uma década e continua a provocar estragos.

Noël Biderman fundou o site destinado a homens e mulheres casados em busca de relacionamentos casuais em 2001. Nasceu em Toronto, no Canadá, de uma combinação de dois dos nomes femininos mais populares da altura no país, Ashley e Madison.

A ideia surgiu a Biderman, presidente-executivo da Avid Life Media (ALM, empresa de entretenimento proprietária de outros sites de encontros) quando percebeu que cerca de 10 a 30 por cento dos utilizadores das suas plataformas destinadas a solteiros já mantinham relacionamentos sérios. Potenciais interessados não faltavam, bastava criar o lugar certo para se encontrarem.

“A vida é curta. Tenha um caso”, anunciava o slogan original, entretanto substituído por “descubra o seu momento”. O convite explícito, feito entre garantias de segurança e discrição totais, atraiu milhares de utilizadores.

Muitos descobriram que as promessas de “anonimato total” da empresa não passavam de mentiras e no pior local possível — na praça pública. Alguns acederam a contar as suas histórias em “Ashley Madison: Sexo, Mentiras e Escândalo”, que chega esta quarta-feira, 15 de maio, à Netflix.

A série documental com três partes conta com depoimentos de algumas das vítimas do ataque informático aos servidores da plataforma em 2015, reivindicado pelo grupo autodenominado The Impact Team. Os hackers exigiam o encerramento do site em 30 dias. Se a ALM não o retirasse do ar, ameaçavam divulgar informação confidencial dos 37 milhões de contas registadas no Ashley Madison.

O grupo também acusava a empresa de “práticas fraudulentas”. Cobrava uma taxa especial de 18,5€ para apagar definitivamente os dados pessoais fornecidos pelos utilizadores que abandonassem o site, embora nunca o tenha feito. O registo de perfis femininos era gratuito, mas os masculinos implicavam o pagamento de uma mensalidade. O incentivo pretendia fomentar o equilíbrio entre os rácios de utilizadores de ambos os sexos. Contudo, o manifesto do ataque informático alegava a maioria dos perfis femininos era falsa.

A tormenta dos utilizadores espalhados por 40 países começou a 12 de julho, data do anúncio do ataque. A 18 de agosto, o pesadelo tornou-se realidade: os seus contactos, moradas, dados bancários ou mesmo preferências sexuais foram expostas na Internet.

O primeiro visado foi o próprio presidente-executivo da ALM, Noël Biderman. Contactado por um jornalista que encontrou o seu número de telemóvel na base de dados, confirmou a veracidade da ameaça: “Não negamos que fomos atacados. Quer gostem de nós ou não, trata-se de um ato criminoso”.

Após várias análises à informação divulgada, o “Gizmodo” confirmou parte das alegações feitas pelos hackers relativas à fraude em larga escala perpetrada pela Ashley Madison”. Cerca de 90 a 95 por cento dos 5,5 milhões de contas femininas eram administradas por funcionários da empresa, por bots, ou estavam simplesmente inativas. A conclusão do site de tecnologia expôs uma camada obscura do universo que muitos conservadores norte-americanos acusavam de promover abertamente o adultério.

“Ashley Madison é um lugar muito mais distópico do que se imaginava”, descreveu a editora-chefe do “Gizmodo”, Annalee Newitz. “Não é um país das maravilhas repleto de maridos que traem as mulheres a torto e a direito. É um sítio onde dezenas de milhões de homens escrevem cartas, conversam e gastam dinheiro com amantes que, na verdade, não existem.”

Embora muitas das contas ativas tenham sido criadas com dados falsos (uma estratégia frequentemente adotada pelos utilizadores reais deste tipo de plataformas), entre os milhares de perfis anónimos tornados públicos também surgiram nomes de figuras (mais ou menos) conhecidas. Havia políticos, padres, estrelas da televisão norte-americana, mas também funcionários de organismos governamentais dos EUA e do departamento de defesa.

A base de dados incluía pelo menos 15 mil endereços de e-mail .gov ou .mil, revelou a “Wired”, numa das muitas análises feitas na altura aos quase 9,7 gigabytes de dados divulgados. A “cruzada moral” iniciada pelo grupo de hackers ganhou outra dimensão quando a informação se tornou facilmente pesquisável e acessível a qualquer utilizador comum da Internet.

Os desejos mais profundos de quem procurava um relacionamento íntimo secreto estavam agora à mercê da curiosidade e voyeurismo de todos. Mulheres, filhos, patrões, colegas ou amigos mais desconfiados podiam confirmar (ou dissipar) as suas suspeitas com meia dúzia de cliques.

Um jornal do Alabama, nos EUA, publicou uma lista com todos os residentes do estado que apareciam no banco de dados do Ashley Madison. Um referendo do Louisiana suicidou-se após ter confirmado que o seu nome na base de dados e o mesmo aconteceu a um polícia de San Antonio, no Texas. Um procurador de Miami também pôs fim à vida pelo mesmo motivo.

A empresa espanhola Tecnilógica criou um mapa com os registos de mais de 50 mil municípios de 48 países, Portugal incluído. O maior número de utilizadores em território nacional está registado na região Norte, sobretudo no Porto e em Braga. As restantes cidades acima dos mil registos são Aveiro, Amadora, Sintra, Cascais, Lisboa e Faro.

As celebridades cristãs infiéis

Josh Duggar, que se tornou conhecido por participar em reality shows sobre famílias cristãs, foi a primeira celebridade envolvida no escândalo Ashley Madison. A revelação surgiu após ter sido acusado de comportamentos impróprios com menores. O caso de Duggar, preso em 2021 por pornografia infantil e atualmente a cumprir uma pena de 12 anos de prisão, foi um dos retratados em “The Ashley Madison Affair”. O documentário da Hulu e da ABC News, também com três partes, estreou em julho do ano passado.

Já a produção da Netflix, realizada por Zoe Hutton e Gagan Rehill, dá enfâse à história do casal Sam e Nia Rader. Os youtubers cristãos oriundos do Texas têm quatro filhos e partilham a sua vida aparentemente perfeita no canal “Sam and Nia” onde somam 2,5 milhões de seguidores.

Sam admitiu ter criado uma conta no Ashley Madison em 2005. “É uma questão que ficou no nosso passado. Aconteceu antes de entrarmos no YouTube”, clarificou num vídeo publicado em 2015, entretanto retirado, adianta a “People”.

“Quando tomou conhecimento, a Nia perdoou-me pelo erro que cometi ao abrir a conta. Procurei também o perdão de Deus e Ele perdoou-me. Estou completamente purificado deste pecado”, acrescentou na altura.

Volvida uma década, continuam a formar um casal e aceitaram revisitar o impacto da infidelidade na relação na série da Netflix.

“Amo ser pai, amo a minha mulher. Tenho um casamento lindo, mas também monótono”, afirma Sam candidamente, logo na abertura do trailer divulgado a semana passada. Pouco depois, adota um tom confessional frente às câmaras para justificar a inscrição no site de encontros entre adúlteros com a sua falta de auto-estima. Desejava voltar a sentir a excitação de um primeiro amor e não sexo, assegura.

Como muito do que é dito nesta série documental, a penitência de Sam “deve ser encarada com cautela”, sublinha o “The Daily Beast”. “Especialmente porque insinua que a adesão ao Ashley Madison não foi uma exceção e que já se tinha desviado do caminho conjugal outras vezes sobre as quais mentiu continuamente.

A dada altura, mostra-se mais arrependido com o método escolhido para atingir o objetivo do que com as motivações propriamente ditas. “Inscrevi-me com as minhas informações reais. Obviamente, foi uma decisão estúpida”, admite.

Um ciclo interminável

Os utilizadores cujas contas foram violadas entraram com uma ação coletiva contra a Avid Dating Life e a Avid Life Media, proprietárias da Ashley Madison, logo em 2015. Exigiam cerca de 525 milhões de euros em indemnizações. A disputa ficou decidida em julho de 2017, com a Ruby Corp. (o novo nome da Avid Life Media) a pagar, no total, 10, 2 milhões de euros aos queixosos.

Contudo, volvida uma década sobre a divulgação dos registos, muitos utilizadores anónimos continuam a ser alvo de esquemas de sextorção. Os dados — que, por esta altura, já terão sido vendidos e revendidos inúmeras vezes — têm sido usados num esquema simples, mas bastante eficaz. Geralmente, tudo começa com o envio de um email ameaçador, com alguns detalhes reveladores, como as preferências sexuais ou físicas que o utilizador mencionava no seu perfil.

Confrontados com a possibilidade destes pormenores serem novamente divulgados, alguns visados acabam por ceder ao desespero e transferir as quantias em bitcoin solicitadas. A extorsão tem uma taxa de sucesso relativamente elevada e tende a prolongar-se no tempo, uma vez que o seu teor sexual torna as denúncias pouco prováveis.

Carregue na galeria e conheça outras séries e temporadas que chegam em maio às plataformas de streaming e canais de televisão.

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