Televisão

O casting do novo “Big Brother” foi feito no Fitness Hut da Portela

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa a estreia da nova versão do reality show da TVI.
A nova dupla de apresentadores.

Falou-se em Cláudio Ramos, Goucha, Maria Cerqueira Gomes, Teresa Guilherme, Ana Garcia Martins, Maria Botelho Moniz, enfim, as hipóteses eram tantas que só faltou mesmo sugerir a Maya como possível apresentadora da nova edição de “Big Brother”, na TVI.  Felizmente, Maya estava com a bola de cristal sem bateria quando Cristina a tentou contactar, por isso a escolha final recaiu mesmo sobre a dupla Manuel Luís Goucha e Cláudio Ramos.

Cheio de bateria estava o Tesla que transportou os apresentadores até à casa do “BB”. Goucha apresentou-se com um dos seus fatos “discretos”, como o próprio referiu, e Cláudio com um modelito ainda mais discreto, mas a dar tudo na camisa de folhos, estilo “Entrevista com o Vampiro”.

A primeira concorrente a entrar na casa foi Ana Barbosa. Ana tem tanta energia que eu desconfio que, antes de entrar, devem tê-la carregado na mesma tomada onde carregaram os Tesla. A concorrente fez-me lembrar um misto de Gloria Pritchett, de “Uma Família Muito Moderna”, e a Gisela do “Master Plan”, em modo banco de trás do carro. A capitã Barbosa, como é conhecida, além de faladora e enérgica, é também intransigente: “Não vou tolerar pijamas”, avisou. As pessoas estão, infelizmente, cada vez menos tolerantes, mas ter preconceito contra pijamas acho que já é um pouco demais.

João Ligeiro foi o segundo concorrente. O serralheiro quer ser apresentador de televisão ou ator, por isso entrou para o “BB”, claro. E já que ali estava, fazendo uso do tempo de antena, aproveitou para enxovalhar a ex-namorada na sua apresentação. Feitas as apresentações, o Big Brother autorizou-os a entrar para conhecerem a nova casa e abriu a porta automática, estilo nave espacial. Não sei se a inspiração se baseou em filmes de ficção científica, mas a decoração remete muito para um estilo “Star Trek”, se o decorador for um Klingon zarolho e daltónico, porque a combinação de cores e materiais causou-me dor nas têmporas. Já percebemos agora porque é que foram gastas mais de mil horas na construção deste novo cenário: mandaram vir os móveis do Leroy Merlin de outra galáxia. 

Enquanto Ana e João visitam a casa, chega mais um par de concorrentes, António e Rita, que antes de entrarem têm de ir a um novo espaço que se chama a Sala do Dilema. António descobriu que a avó era descendente do rei D. Pedro IV, o que faz dele também um descendente da família real. E vendo a gravura lado a lado, por acaso até achei bastantes parecenças, embora António tenha uns dentes um pouco mais brancos do que os do seu antepassado. O concorrente contou que um dia deu o grito do ipiranga e contou à família que era gay, ao que a avó respondeu: “A mim nunca me enganaste”. Uma postura maravilhosa que comprova que a avó só podia mesmo ser descendente de um liberal. 

Já na Sala do Dilema, o Big Brother explica: “Para poderem entrar na casa têm de aceitar um dilema: aceitam passar uma semana de privações?” Claro que ambos os concorrentes aceitaram, que remédio… Mal sabiam eles que o que lhes esperava era passar a próxima semana a viver numa roulotte no exterior, logo hoje que começou a chover. Entretanto chega um novo concorrente, que é — pelo menos para já — a maior revelação entre o leque de participantes desta edição. Lourenço nasceu com um corpo que nunca sentiu como seu e por isso, aos 16 anos, teve coragem de pedir ajuda e iniciar o processo de transformação. “Sou transsexual e estou aqui para abrir mentalidades e ser uma inspiração para toda a comunidade LGBT”, sublinhou o concorrente. Um objetivo louvável, que Lourenço partilha com mais alguns concorrentes, o que é sempre positivo, porque a televisão, em todos os seus formatos, tem de servir também para a contribuir para o diálogo saudável sobre temas sensíveis e promover a inclusão. Só tenho pena que nenhum deles tenha apresentado como objetivo entrar no “BB” para gozar com os chalupas dos negacionistas. Era uma causa como outra qualquer e talvez alguns deles acordassem do transe e parassem de cuspir ódio — e Covid — ao megafone. 

De resto, é de notar que no restante grupo de concorrentes grande parte são comissários de bordo ou personal trainers, o que me leva a crer que os castings foram feitos no Fitness Hut da Portela. Além destes, gostei da Maria da Conceição, cuja ocupação é confecionar chamuças e que em menos de três horas já conseguiu dois ótimos sound bytes: “Cordon bleu na minha terra é um panado” e a minha favorita — “Calma, Maria, que tu não podes estragar o teu registo criminal”. A concorrente é também conhecida por “São Treme Terras”, que era um ótimo nome para lutadora de MMA: “No canto direito, com 1,60m e a pesar 50 quilos, o terror de Valongo, mais picante que uma chamuça, mais esquiva que um Cordon Bleu: São…Treme…Terraaaaaaaas!”  

Também gostei bastante da Yeniffer, com Y e dois f’s. Instrutora de Zumba e, acima de tudo, uma pessoa estupidamente feliz! Yeniffer fala como se estivesse a apresentar um anúncio da Tampax e tem uma gargalhada ótima, como aquelas bonecas de corda. Talvez por isso o BB se tenha lembrado de lhe dar o desafio de entrar na casa e nas apresentações repetir a cada um dos concorrentes a frase: “tu és tão…”, completando com um adjectivo. Yeniffer não percebeu muito bem e limitou-se a fazer comentários ao vestuário de cada um. Prova não superada, talvez seja boa ideia mudar-lhe as pilhas. Já Rafael Teixeira declara sem hesitar: “No ‘BB’ vou ser inesquecível… as mulheres dizem isso”. Boa, Rafael, convém só ter em atenção que pode não ser necessariamente por boas razões que as mulheres dizem isso. 

Rui Pinheiro tirou o curso de Direito, trabalhou como comissário, e depois seguiu o seu percurso profissional como personal trainer. Apesar do seu aspeto entroncado quer mostrar que não gosta apenas de exercitar os músculos, mas também o cérebro. É fã de literatura e os seus autores favoritos são Dostoievsky, Tolstoi, Oscar Wilde e Vergílio Ferreira. Deu-me grandes vibes do Macaco Líder dos Super Dragões, versão bibliotecário.

Já o Fábio Faísca fala na terceira pessoa, é personal trainer e disse na sua apresentação que duvida que haja alguém melhor do que ele e que nunca teve uma derrota na sua vida. Não considerando o facto de se chamar Fábio Faísca, claro. Infelizmente para o Fábio, os seus dias de vencedor estavam a acabar, porque no primeiro desafio que os nomeados tiveram de realizar, o Fábio perdeu. Depois de uma última edição com jogos que sobraram da Feira de Grândola, tipo touro mecânico, desta vez a produção caprichou e montou uma arena de desafios. Para tentarem deixar de estar nomeados, seis participantes vestiram umas lycras encarnadas, estilo gang de “La Casa de Papel” se fosse participar no “Salve-se quem Puder”, e tentaram subir uma escadaria escorregadia, coberta de slime que gerou belos momentos de televisão, numa edição que promete. Caso para dizer, bem-vindo Big Brother, “tu estás tão…”

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