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O final de “Stranger Things” confirma a teoria: Will é gay

As pistas começaram a ser deixadas logo na primeira temporada. Seis anos depois, a teoria dos fãs é finalmente confirmada.
Teoria confirmada

Quando a série original da Netflix foi lançada em 2016, Will Byers tornou-se numa figura central da aventura dos miúdos de Hawkins. O rapaz preso no Upside Down, apesar de separado das restantes personagens, era aquele de quem todos falavam. E de forma subtil, os irmãos Duffer foram deixando algumas pistas subtis sobre Will.

À medida que “Stranger Things” foi crescendo e ganhando mais episódios, a relevância de Will como personagem foi diminuindo — mas, paralelamente, os fãs foram fazendo crescer a teoria de que a personagem seria gay. Seis anos depois, Will é cada vez mais uma personagem de segunda linha, apesar de as suas aparições na mais recente temporada, que terminou a 1 de julho, irem quase todas no sentido de, finalmente, colocarem um fim à especulação.

Após o Volume 2 da quarta temporada, ninguém parece ter dúvidas sobre a orientação sexual de Will Byers. O que era, para o ator e para os criadores, um assunto secundário, passou a ser uma espécie de afirmação na quarta temporada. As pequenas peças do puzzle que foram sendo deixadas, quando conjugadas, parecem dar a resposta.

Em contraste com quase todos os miúdos do grupo, Will nunca se envolveu numa relação. Vimos Mike apaixonar-se por Eleven, Max e Lucas aproximarem-se e até Dustin iniciar uma relação à distância com Suzie, a perita informática. Will, por seu lado, parece nunca se ter interessado por ninguém — ou melhor, por ninguém do sexo feminino. O mistério em torno da sexualidade de Will tornou-se ainda mais estranho com a chegada de Robin, a personagem assumidamente homossexual.

As primeiras pistas vieram da própria mãe, Joyce Byers. “É um miúdo sensível”, explica a certa altura na primeira temporada sobre o filho. “O Lonnie costumava dizer que ele era queer.”

Ainda na primeira temporada, quando Mike confronta os bullies por se estarem a rir do desaparecimento de Will, os colegas parecem deixar subentendido o insulto. “O Will está na terra das fadas, a voar com todas as outras fadas, todo feliz e gay.”

Já na segunda temporada, o guião deixa algumas pistas ainda mais esclarecedoras do que as cenas que nos foram mostradas. No episódio final, durante o baile, descreve o momento da dança: “Will está com a miúda gira, a dançar de forma envergonhada. Mas os seus olhos não estão na miúda, estão focados em Mike.” Mike, por sua vez, dançava com Eleven.

Saltando para a terceira temporada, tudo parece ficar mais claro. Os miúdos, já mais crescidos, começaram a focar-se mais nas suas relações e menos nos serões a jogar Dungeons & Dragons. Will fica ressentido e explode quando percebe que é o único interessado.

“Estás a destruir tudo e por quê? Só para poderes andar a trocar saliva com uma rapariga estúpida?”, atira Will. “A Eleven não é estúpida. E não tenho culpa que não gostes de raparigas.”

Durante as primeiras temporadas, o ator que faz de Will, Noah Schnapp, desconsiderou a teoria dos fãs. “Para mim, pouco importa se o Will é ou não gay. “‘Stranger Things’ é uma série sobre um grupo de miúdos excluídos que se encontram a si próprios porque foram alvo de bullying de uma ou outra forma. Ser sensível, solitário ou um adolescente que gosta de fotografia, ou uma rapariga que usa cabelo vermelho e óculos enormes, isso é ser gay? Tenho apenas 12 anos mas sei que todos nos relacionamos de forma diferente. É por isso que acho que os Duffer escreveram tudo da forma que escreveram. Podem colocar todas essas questões, mas espero que a verdadeira resposta nunca seja conhecida.”

Schnapp daria uma nova versão da sua opinião por altura da terceira temporada. “Depende da interpretação de cada um”, referiu sobre a mudança de atitude da personagem. “Esteve no Upside Down, sozinho, sem interagir com o mundo. Quando voltou, esperava que tudo estivesse como antes, como quando era miúdo e passavam o tempo na cave a jogar Dungeons & Dragons.”

A quarta temporada viria a abater a teoria da interpretação. Reencontramos Will a morar com a família longe de Hawkins, na Califórnia. Apesar da mudança de ambiente, mantém-se reservado, calado, introspetivo. “O Will tem pintado imenso, mas recusa-se a mostrar-me o que tem feito. Talvez seja para uma rapariga. Acho que gosta de alguém, tem andado a agir de forma estranha”, narra Eleven, no arranque da temporada.

Um dos momentos do primeiro episódio é o reencontro entre Will e Eleven com Mike, que viaja de Hawkins para os visitar. Will guarda consigo a pintura misteriosa e leva-a até ao aeroporto para a dar a Mike, o que nunca acontece. A pintura parece ser importante para a personagem, que faz questão de a levar consigo, mesmo quando abandonam a casa durante o raide militar.

A nova temporada mostra também Will na sala de aulas, num momento em que a colega do lado passa o pé na sua perna. Will rapidamente se afasta, com um ar incomodado.

Num dos momentos do oitavo episódio, a teoria parece ter ganho força. Durante a viagem em busca de Eleven, Mike mostra-se preocupado com a sua relação. Will, como melhor amigo, intervém. É nesse momento que puxa da pintura — que supostamente era para Mike — que retrata um grupo de cavaleiros a combater um dragão.

Segundo Will, o líder do grupo é Mike, “o coração do grupo”. E num discurso sobre as dificuldades de adaptação de Eleven à Califórnia e à distância de Mike, percebe-se que Will está a falar de si próprio. Jonathan, o irmão, ouve a conversa e parece perceber o que se passa — a câmara, aliás, foca-se precisamente no seu olhar desconfiado. Tudo pistas que apontam para um discurso na primeira pessoa, disfarçado de discurso sobre Eleven.

“Durante os últimos meses, ela tem estado perdida sem ti. Ela é tão diferente das outras pessoas e quanto és diferente, sentes que és um erro. Mas ao teu lado, ela sente que não é um erro, sente que é melhor por ser diferente”, explica. “Se ela foi má para ti ou se parecia que te estava a afastar, é provavelmente porque tem medo de te perder, tal como tu tens medo de a perder a ela. E se ela te perdesse, preferiria que a coisa fosse rápida, como quem tira um penso. Por isso, sim, a Eleven precisa de ti e sempre vai precisar.”

Mike parece contente e aliviado por perceber que, afinal, a sua relação não está condenada. Enquanto sorri, Will desvia o olhar para fora da carrinha, enquanto chora, sem que ninguém dê por isso. Ao mesmo tempo, a câmara regressa a Jonathan, o irmão, que ao volante espreita para trás, parecendo aperceber-se que a confissão foi também pessoal.

Jonathan acaba por confrontar Will no final do episódio, onde procura tentar saber porque é que Will já não lhe confessa os seus problemas. “Tenho saudades de falar contigo. E acho que agora temos que falar mais do que nunca, porque as coisas estão a ficar complicadas (…) Não quero que te esqueças que estou sempre aqui e sempre estarei, aconteça o que acontecer. És meu irmão, adoro-te e não há nada neste mundo, absolutamente nada, que alguma vez possa mudar isso.” Will não se confessa, mas chora e abraça-o.

Seria difícil ser mais evidente sem o dizer ou o mostrar explicitamente: a teoria de que Will é gay parece estar finalmente confirmada, ainda que os atores continuem a fugir do tema.

“Sinto que nunca abordaram o assunto. Acho que a beleza está aí, é tudo deixado à interpretação do público, se é apenas o Will a recusar crescer, a crescer de forma mais lenta do que os amigos ou se simplesmente é gay”, explicou Schnapp à “Variety”.

Millie Bobby Brown optou igualmente por não dar muita importância ao assunto. “Estamos em 2022 e não temos que rotular as coisas. Acho que o mais giro no Will é que ele é um ser humano que está a enfrentar problemas, os seus demónios interiores. Há tantos miúdos por aí que não sabem e não há problema. Não há problema nenhum em não se saber e acho que é bom que não se ande a rotular as coisas.”

Schnapp concordou. “Querem tanto colar-lhe um rótulo, querem poder dizer ‘Sim, ele é isto”. Ele é apenas um miúdo confuso a crescer. Faz parte do crescimento.”

Ainda antes da estreia do Volume 2, o produtor-executivo Shawn Levy foi mais incisivo. “Gostava apenas de dizer que não há coincidências em ‘Stranger Things'”, explicou. “Cada personagem é pensada com intenções claras, com uma estratégia. Se vieram do Volume 1 a sentir que há um fio nessa ordem de ideias relativamente a uma narrativa e a uma personagem, provavelmente não é coincidência.”

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