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O fruto apetecido, o jacuzzi de sempre e os melhores momentos da entrevista de Ronaldo

A conversa com Piers Morgan fica concluída esta sexta-feira na RTP. Leia a crónica do humorista Miguel Lambertini.
A entrevista foi conduzida por Piers Morgan.

Desde o exclusivo que Meghan Markle e o príncipe Harry deram a Oprah Winfrey que não havia uma expetativa tão grande à volta de uma entrevista. No seu programa na Talk TV, um canal de streaming britânico que nunca ninguém tinha ouvido falar, Piers Morgan conversou com Cristiano Ronaldo durante 90 minutos — que foram emitidos em duas partes, embora antes já tivessem sido divulgados alguns excertos com declarações polémicas de Ronaldo.

Foi um verdadeiro roast ao Manchester United, a tal ponto que o clube, inclusive, já removeu o vinil com a imagem do jogador que decorava a fachada do estádio. “Nunca voltes para a tua ex-namorada”, dizia um adepto do United ao ser entrevistado. E não podia ter mais razão. Por um lado, porque seria difícil imaginar Ronaldo de novo na capa da “Nova Gente” abraçado à Merche Romero. E, por outro, porque regressar ao clube dos ‘Red Devils’, onde foi muito feliz no início da carreira, constata-se que foi uma péssima decisão.  

“Porque é que quiseste dar esta entrevista”? Foi esta a primeira questão colocada ao jogador, que respondeu prontamente: “Achei que era o tempo certo… e também porque gosto de ti.” Bom, em 8 mil milhões de pessoas no planeta, alguém tinha de gostar de Piers Morgan e pelos vistos essa pessoa é Ronaldo. O capitão da seleção portuguesa abriu o livro, como diria Gabriel Alves, e falou sobre todos os temas da sua vida e carreira, sem reservas. 

Queixou-se das instalações de um clube que, segundo o próprio, “parou no tempo”, e continua com “a mesma cozinha, os mesmos chefs, os mesmos balneários, o mesmo jacuzzi”. De facto, deve ser muito chato comer o mesmo lombo de porco com batatinhas assadas que já existia em 2004 e principalmente ter de usar um jacuzzi modelo ‘Charming’, com apenas seis aspersores, quando atualmente já há versões que não só fazem muito mais bolhinhas como inclusivamente têm colunas embutidas para ouvir as canções da Kátia Aveiro — ou música, mesmo. 

O alvo seguinte foi Ralf Rangnick, o treinador com nome de medicamento para a tensão arterial, que CR7 considera que se acha “a última Coca-Cola do deserto”. “Quando despedes Solskjaer tens de contratar um treinador de topo, não um diretor desportivo!”, atira o jogador, algo indignado. Eu não percebo nada de bola, mas se no meu grupo de amigos alguém dissesse esta frase, eu ia acenar em concordância e acrescentava: “Exatamente, é vergonhoso!” Funciona sempre. Mas onde Ronaldo exterioriza mais a sua frustração é quando aborda o tema dos jovens jogadores. Foi a fase “velho do Restelo” da entrevista, quando Cristiano faz o típico discurso de pai de filhos. Eu sei porque também sou pai e consigo identificar a linguagem de quem é de outra geração e cai, sem querer, no alçapão do “no meu tempo era diferente”. 

Morgan pergunta: “Recebeste o mesmo respeito por parte dos mais jovens que tu tinhas pelos jogadores mais experientes, quando eras novo?” Ronaldo diz que não e explica: “A mentalidade deles é diferente daquela que tinha a minha geração, é tudo muito fácil, mas falta-lhes a fome de vencer (…) Eles não sofreram. Não querem saber, têm tudo de forma mais facilitada e ouvem as coisas por uma orelha e sai pela outra.” 

Só faltou mesmo acrescentar aquelas frases clássicas que eu próprio já me surpreendi a dizer aos meus filhos, como, por exemplo: “Não andes descalço na cozinha, Dalot, que ainda te constipas!” ou “Ó Elanga, tu sabes lá o que é combinar às oito da manhã à porta do Estádio de Alvalade e ter mesmo de estar lá a horas, porque não havia cá telemóveis, meu menino”.

Cristiano aproveita também a conversa para atirar algumas farpas à imprensa, principalmente à portuguesa, que segundo diz: “Critica-me muito, não percebo porquê, sei que a inveja tem algo a ver com isso, mas 90 por cento é mentira ou lixo. E uma coisa boa que tenho é não gostar de ler.” 

Incrível como até a iliteracia o Cristiano consegue tornar num fantástico atributo, isto sim é uma mentalidade de vencedor. E não se fica por aqui: “Não sei porque é que tenho tantos fãs, acho que é porque sou carismático… e ter bom aspeto também ajuda. I’m an appetite fruit that people want to bite”, que é como quem diz ‘sou uma maçã de Adão das redes sociais’. 

Faz sentido. Realmente, nos anúncios de roupa interior que o Ronaldo faz, já tinha reparado que anda para lá uma cobra, mas nunca tinha associado. Sobre o seu rival de sempre, Lionel Messi, Ronaldo diz que se trata de um “jogador incrível, mágico, de topo”. “Partilhámos o topo durante 16 anos, tenho uma grande relação com ele. Não somos amigos, mas é como um colega de equipa.” Desde que essa equipa não seja o Manchester United, claro. 

Sobre a sua amizade recente com o polémico guru da Internet Jordan Peterson, Ronaldo confessa: “Sou um grande fã dele. Li o seu livro, ‘12 Regras para a Vida’, e senti que ele é um tipo realmente interessante. Adoro conhecer pessoas inteligentes e aprendi muito, ele deu-me alguns conselhos estratégicos”. Atendendo a que a principal mensagem que Jordan Peterson apregoa no seu livro é de que os homens têm de parar de reclamar e ter sempre um pénis limpo e asseadinho, espero que, pelo menos a parte da higiene peniana, o Ronaldo esteja a cumprir. Sobre se ele poderia escrever o seu próprio livro ‘Cristiano Ronaldo, 12 Regras para a vida’, o jogador responde: “Por que não? Para o futuro, provavelmente. Quero educar não apenas a minha família, mas os meus fãs”.

O nosso capitão acrescenta que caso Portugal ganhe o Campeonato Mundial do Catar, promete que nesse dia termina sua carreira. Deus te oiça, Cristiano, porque já era altura de Portugal festejar um título mundial e depois porque quero muito comprar o livro das 12 Regras do Cristiano Ronaldo. Acho que já consigo imaginar qual será a lição número 1: “Acima de tudo está a humildade. Se há uma coisa em que sou muito melhor do que todas as outras pessoas é em ser humilde”.

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