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O homicídio real que abalou a vida da autora de “Sei o que Fizeste no Verão Passado”

O livro deu origem a um filme nos anos 90 — e agora vai estrear uma adaptação televisiva. O culpado pelo crime confessou tudo agora.
Kaitlyn tinha 18 anos quando morreu.

Lois Duncan tornou-se conhecida pelos livros de suspense e crime — muitos deles envolvendo adolescentes. Foi, aliás, uma dessas histórias que deu origem ao filme de 1997 “Sei o que Fizeste no Verão Passado”, que foi um enorme sucesso de bilheteira. Agora, vem aí uma série homónima inspirada no mesmo livro, que estreia na Amazon Prime Video a 15 de outubro.

Coincidentemente, foi também nos últimos dias que foi aparentemente resolvido o homicídio de Kaitlyn Duncan, a filha mais nova de Lois Duncan, que foi assassinada em circunstâncias misteriosas em 1989, quando tinha apenas 18 anos — o caso abalou profundamente a vida da escritora, que deixou de escrever thrillers e histórias de crime. Mas o melhor é começarmos pelo início.

Foi numa noite de julho que o corpo de Kaitlyn Duncan foi encontrado morto no interior do seu carro, que tinha embatido contra uma cabine telefónica. Inicialmente pensou-se até que tinha sido o resultado de um acidente de viação, mas depois descobriu-se os dois buracos de bala que Kaitlyn tinha no corpo.

A família, que vivia em Albuquerque, Estado do Novo México, ficou completamente chocada. A rua estava deserta e praticamente não havia indícios do que é que tinha acontecido. As autoridades começaram por pensar que se tratava de um ato de violência aleatório e isolado, mas Lois Duncan não acreditava que a vida da sua filha, uma jovem estudante que tinha acabado de sair de casa para ir viver com o namorado, tinha sido destruída sem qualquer tipo de motivo.

Insatisfeita com a investigação policial, cedo Lois Duncan contratou um detetive privado para investigar à parte. Apesar de a família gostar do namorado de Kaitlyn, e até o ter acolhido de alguma forma — Nguyen era um imigrante vietnamita pobre que tinha vindo para os EUA em condições difíceis — rapidamente se tornou num suspeito a investigar.

Durante o homicídio, Nguyen estaria num bar com amigos. Quando foi para casa, esperou pela namorada, mas ela nunca apareceu. Foi feito um teste de resíduos de pólvora nas suas mãos, mas o resultado foi negativo. O casal tinha andado a discutir nos últimos tempos, mas uma nota alegadamente escrita por Kaitlyn provava que as coisas estavam relativamente resolvidas na altura da sua morte.

“Querido, onde estás? Sei que ainda estás zangado. Desculpa, ok? Tenho saudades tuas. Fui a casa da mãe devolver estes livros. Até já”, podia ler-se num papel deixado na casa dos dois, assinado por Kaitlyn. Foi a única prova identificada e recolhida pela polícia no apartamento.

Kaitlyn e Nguyen juntos em casa.

Alguns dias depois da morte de Kaitlyn, Nguyen foi encontrado num dormitório de amigos ensanguentado. Uma faca tinha sido espetada no seu abdómen. Nguyen disse que se tinha tentado matar, que se sentia culpado pela morte da namorada, que se não se tivessem chateado teriam estado juntos naquela noite. Houve também quem suspeitasse da suposta tentativa de suicídio, já que um esfaqueamento na barriga é uma forma difícil de tirar a própria vida.

Entre as autoridades e a investigação particular, da qual Lois Duncan fazia ativamente parte, começou a seguir-se uma linha investigativa que estaria relacionada com gangs vietnamitas locais. Acabou por se descobrir que Nguyen estava envolvido num esquema fraudulento de acidentes de carro falsificados, que serviam para ficar com dinheiro das seguradoras. 

Kaitlyn teria descoberto a sua envolvência e os dois ter-se-iam chateado de alguma forma — mas nunca houve indícios nem provas de que pudesse haver algum envolvimento destas organizações criminosas, apesar de haver incongruências na versão da história de Nguyen e no seu comportamento.

Chegou a suspeitar-se de que aquela nota deixada por Kaitlyn tinha sido escrita por outra pessoa — e houve telefonemas para números não registados feitos do apartamento na noite em que a rapariga de 18 anos foi morta. Ela tinha sido assassinada, Nguyen estaria num bar. Nunca se chegou a uma conclusão sobre esses misteriosos telefonemas.

À medida que iam investigando, Lois Duncan ia descobrindo detalhes que desconhecia sobre a filha. Pelos vistos, desde cedo que Kaitlyn Duncan gostava de dar boleias a viajantes desconhecidos, para que lhe contassem as suas experiências. E recebia cartas de pretendentes, daquilo que pareciam ser respostas a um anúncio publicitário de solteira que a jovem teria publicado nalgum sítio.

Passado algum tempo, dois homens acabaram por ser acusados pelo homicídio de Kaitlyn. Miguel Garcia e Juvenal Escobedo eram dois jovens locais e as autoridades acreditavam que eles tinham cometido um ato aleatório de violência. Foram detidos e processados. Mas os testemunhos que os tinham colocado ali rapidamente se revelaram repletos de erros e falsidades. A arma que supostamente tinham usado tinha problemas há vários meses e não funcionava. A principal testemunha afinal não tinha estado lá. As acusações acabaram por ser retiradas e deixou de haver outras linhas de investigação.

Lois Duncan virou-se para os livros infantis depois da morte da filha.

Entretanto, Lois Duncan começou a escrever sobre o caso. A autora juntou tudo aquilo que se sabia das investigações, contou a sua experiência pessoal, descreveu como tinha até consultado uma médium para tentar chegar desesperadamente à verdade. “Who Killed My Daughter?” foi publicado em 1992. Muitos anos mais tarde, em 2013, publicaria uma sequela — essencialmente uma versão atualizada da história — com o título “One to the Wolves”. A escritora morreu três anos depois, em 2016, com 82 anos, sem saber realmente o que tinha acontecido à filha.

Nos últimos dias, um homem chegou-se à frente para confessar o crime. O seu nome é Paul Apodaca, tem agora 53 anos, e admitiu que tinha assassinado Kaitlyn Duncan como um ato aleatório de violência. O nome de Apodaca já tinha estado na investigação, mas nunca tinha sido abordado de forma correta pelas autoridades.

Quando o primeiro detetive chegou ao carro de Kaitlyn, estava um homem perto do veículo, que supostamente por acaso estava nas redondezas e tinha ouvido o estrondo. O seu nome era Paul Apodaca. Tinha 20 e poucos anos, mas já tinha sido acusado por vários ataques a mulheres e roubos naquela altura. Depois deste homicídio, passou muitos anos na prisão por outros crimes, incluindo violação de uma familiar menor.

O polícia ficou com os dados de Apodaca, mas ele nunca foi investigado. O seu nome nunca foi sequer inserido na base de dados para procurar por possíveis antecedentes criminais. Uma testemunha de um edifício tinha visto um outro carro perto do de Kaitlyn — da mesma marca que o de Apodaca. Uma longa investigação poderia ter sido curta e simples se tratada da melhor forma pelas autoridades, algo de que Lois Duncan já desconfiava.

Agora, Paul Apodaca ainda não foi acusado do homicídio de Kaitlyn Duncan pelas autoridades americanas, mas aguarda julgamento por outro assassinato — o homem confessou recentemente vários crimes, além daqueles pelos quais já era conhecido. A história podia ser de um dos livros de Lois Duncan — depois deste incidente, a autora nunca mais quis escrever narrativas sobre crimes e psicopatas assassinos.

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