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O maior pecado é não haver mais episódios da série “It’s a Sin”

A nova produção da "HBO" é uma viagem hilariante e trágica à comunidade gay dos anos 80 — e à epidemia de HIV.
É um retrado do drama vivido nos anos 80
80

Uma doença desconhecida torna-se numa espécie de ameaça sombria que paira sobre a sociedade. Pouco se sabe sobre ela, apenas que é mortal. Há algo de assustadoramente contemporâneo na história que arranca em 1981 e que ao mesmo parece tão atual: no desconhecimento, na desinformação e no impacto.

“It’s a Sin” viaja até à libertina Londres da década de 80, a terra onde qualquer um podia ser aquilo que sonhasse ser. Bem, talvez nem tanto. É esse o objetivo de Ritchie Tozer (Olly Alexander), que se muda para a capital para tirar o curso de Direito.

Os ares londrinos libertam-no. Decide mudar para um curso de teatro e, livre das amarras da pequena ilha de Wight onde cresceu, consegue finalmente ser feliz com a sua homossexualidade. Por feliz, queremos dizer envolver-se com o maior número de homens possível no mais curto intervalo de tempo: algo que nunca é tratado como um pecado ou uma vergonha.

Na visão de Russell T. Davies — está mais do que à vontade no tema, ele que criou “Queer as Folk” —, era este o habitat natural, divertido e despreocupado da comunidade gay que, reprimida à luz do dia, se libertava longe dos olhares recriminadores. E todo este contexto é crucial para perceber a armadilha cruel que o destino preparou com o surgimento de uma das maiores epidemias dos nossos tempos.

É portanto fácil de perceber o porquê da nova minissérie da “HBO” saltitar tão facilmente entre a gargalhada e nó na garganta, esse que é um equilíbrio tão ténue e complicado de atingir com sucesso. Mas é mesmo isso que acontece, muito graças ao lote de personagens simpáticas, acessíveis e carismáticas.

Ritchie rapidamente encontra um grupo: a amiga Jill (Lydia West), o excêntrico Roscoe (Omari Douglas), o bem parecido Ash (Nathaniel Curtis) e o tímido Colin (Callum Scott Howells). Juntos, ocupam um apartamento que passa a ser conhecido pelo Palácio Cor de Rosa.

A alegria e a diversão sem limites não se mantêm sem a companhia da culpa por muito tempo. Dos Estados Unidos chegam notícias assustadoras: uma espécie de cancro que mata gays. A infeção é cruel e só tem um fim: a morte. Cura? Não há.

Ritchie é a personagem principal

Enquanto uns recebem as notícias com uma dose de medo e incredulidade, Ritchie assume o papel do negacionista. “Dizem que se espalha nos poppers. Que chegou num cometa vindo do espaço. Que foi criada por Deus para nos matar. Ou que foi criada em laboratório. Foram os russos. Trouxemo-la da selva. É causada pela fricção. Está no sémen (…) Sabem o que é que isso tudo tem em comum? São mentira. E sei isto porque não sou estúpido.”

A GRID (Imunodeficiência Gay) rapidamente passa a ser SIDA (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) e o demónio que vivia do lado de lá do Atlântico, chega rapidamente à comunidade londrina. O choque obriga a comunidade a sair da clandestinidade, mas também a sociedade em geral a encarar o problema com uma honestidade que até aqui não estava habituada.

Entre todo o vanguardismo londrino, a verdade é que o conservador Reino Unido de Margaret Thatcher não estava preparado para enfrentar uma discussão desta dimensão. O centro da questão mora no título: “It’s a Sin”. Era o pecado que justificava o castigo que se abatia sobre os gays.

Mais do que debater a epidemia da SIDA e as ramificações na sociedade — a curta duração permite ainda assim abordar os aproveitamentos das farmacêuticas e a ignorância das autoridades de segurança e da saúde —, esta é uma história sobre sentimentos e segredos.

Sobre filhos que se escondem dos pais e que, para fugir à crueldade do conservadorismo, pagam o derradeiro preço. É também sobre reconciliação, perdões e arrependimentos — a vida.

Mesmo neste cenário melodramático, Davies encontra maneira de encaixar pequenos escapes de humor sem cair na vulgaridade. O único pecado de “It’s a Sin”, ou do seu criador, é não ter deixado espaço para mais.

Embora o circuito fique completo, o fim traz uma sensação de que cinco episódios são escassos para tanto que poderia ser contado. É o próprio quem o confirma: “Há tantas histórias, que poderia ter escrito 100 episódios sobre isto”. Ainda vai a tempo. Nós só precisamos de um momento para limpar as lágrimas e ir agarrar um novo pacote de lenços.

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