Televisão

“O Noivo é que Sabe”: como assim, Ana, só tiveste uma reclamação para o Fábio?

O cronista e humorista Miguel Lambertini analisa o mais recente episódio do programa da SIC apresentado por Cláudia Vieira.
O programa vai na segunda semana.

Depois de, na estreia de “O Noivo é que Sabe”, Lourenço ter conseguido pôr de pé uma festa de casamento que deixou feliz a sua noiva Maria e todas as convidadas com os pés cagados de terra, chegou a altura de perceber se os restantes noivos terão a mesma capacidade de iniciativa. No episódio deste domingo, 6 de setembro, transmitido pela SIC, o casal em destaque foi a Ana e o Fábio, em que o noivo preparou para a noiva o casamento com que ele sempre sonhou.

Fábio tem um perfil ligeiramente egocêntrico e, por isso, nada melhor do que um casamento medieval para satisfazer os seus desejos majestáticos. Pessoalmente, acho que as pessoas têm direito a fazer o que quiserem com o dinheiro e em privado — mas casamentos temáticos deviam ser proibidos. Aliás, tudo o que é evento onde haja um tema que me obrigue a usar indumentária específica, que não aquela que eu tenho no roupeiro do meu quarto, é logo de fugir. “Ai, é festa branca, vamos todos vestidos de branco, vai ser o máximo”. Mas porquê, para quê? Para no final da noite parecerem uma pintura abstrata, tudo cheio de nódoas de sangria e molho de soja dos mini temakis de salmão, que alguém se lembrou que era giríssimo oferecer às pessoas no meio da pista de dança?

Nunca percebi este fascínio pelo imaginário medieval. Será que daqui a uns séculos vai haver feiras millennial, em que todos se mascaram de influencers e simulam lutas no trânsito entre um Citroen dois cavalos e um Tesla? Não, comigo não contam, se é para fingir que vivemos no Portugal arcaico da idade média vou aos jantares-comício do Chega e com um bocadinho de sorte ainda deixo de fumar. 

“Tá tudo muito top, filho”

O Fábio — que trata toda a gente por filha e filho, menos o próprio filho — imaginou uma boda que tivesse cuspidores de fogo, malabaristas, serpentes, dança do ventre, anões e travestis. Portanto, este homem não queria um casamento, queria uma orgia ao estilo de “O Lobo de Wall Street”, mas na abadia de “O Nome da Rosa”. Fábio não conseguiu uma abadia, mas, apesar de ter esbanjado o orçamento todo em collants, mantos e chapéus de veludo coloridos (além de uma banda de gaiteiros e decoração de época), lá desenrascou uma quinta pela módica quantia de 1600€. 

O noivo é que sabe e há que estabelecer prioridades, como, por exemplo, o porco no espeto, que Daniela detestava que houvesse no seu casamento e que, claro, não faltou. Já a despedida de solteira teve de ser organizada pelas amigas da noiva, uma vez que o plafond não dá para tudo. Claro que neste “tudo” não se inclui o marisco e as garrafas de gin da despedida de solteiro de Fábio que, coitado, estava realmente já muito assoberbado pelo stress que envolve ter de escolher dançarinas do ventre e outras tarefas chatas como esta, e que por isso teve direito a uma jantarada com os amigos.

Quem preparou tudo foi o padrinho e “mais que tudo” do Fábio, o seu amigo Marcos, que, ao longo de todo o processo, foi o seu braço direito. E deu-me a sensação que não se importava de ser também outras partes do corpo do Fábio. A verdade é que, para preparar uma despedida de solteira, é preciso ter um curso de organização de eventos e posses para comprar metade da Mascarilha em adereços marotos. Já para uma despedida de solteiro ser um sucesso, basta ter um frigorífico e acaba tudo em tronco nu a apertar os mamilos do noivo. Essa é outra que também nunca percebi, mas se calhar fica para uma futura crónica.  

Entretanto, já no dia do casamento, Ana colocou o vestido escolhido por Fábio, sem imaginar que na realidade se iria casar trajada de D. Urraca e com um fato usado que deve ter mais ácaros do que um colchão de um lar de idosos.  

Depois de ter ficado sozinha em casa e ter levado uma seca de duas horas à espera, Ana lá se pôs a caminho com as primas, numa carrinha pão de forma, em direção à quinta. Mas como um mal nunca vem só, a noiva vê o trajeto interrompido por uma carroça onde um gadelhudo vestido de preto informa que a vai raptar. Se isto não é o casamento de sonho com que qualquer menina sempre sonhou, não sei o que possa ser. O raptor que arranha um portunhol pior que Jorge Jesus pergunta: “quereis vir a bem ou a mal?” Ana, que neste momento deve estar a pensar na melhor forma de envenenar um marido sem deixar vestígios, lá acaba por ceder e entra na carroça do forasteiro que, informa, “vamos para o calabouço”. Não, Ana, se fosse o calabouço era ótimo. É que comparado com a festa freak show que o Fábio preparou, o calabouço era uma verdadeira benção.  

Por falar em benção, Fábio dispensou a presença de uma conservadora e preferiu pedir a um amigo para se trajar de bispo e “celebrar o matrimónio”. Depois de ter entrado de forma triunfal no recinto ao ritmo do rufar dos tambores, Fábio esperou pela sua noiva no altar, até que esta chegou visivelmente emocionada e claramente cheia de vontade de o enfiar numa daquelas máquinas de tortura da Inquisição, bem disfarçada por um sorriso amarelo. 

O Bispo, sabe Deus porquê, lembrou-se de fazer um discurso interminável que fez a maioria dos presentes chorar, provavelmente porque estavam há duas horas a ouvir tambores e gaitas de foles esganiçadas e já só conseguiam era pensar na perna extra do porco no espeto.

Já casados e à saída do altar, Ana exclama: “Tenho uma reclamação! Não te lembraste dos sapatos.” Como assim, só uma reclamação? O Fábio faz um casamento a pensar totalmente nele, não organiza uma despedida de solteira, contrata um bandido para a raptar, obriga-a a vestir uns trapos de pano amarelo e no final a Ana só tem uma reclamação? Fábio, aproveita, é que já nem nas feiras medievais há mulheres assim, filho. 

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