Televisão

“O Noivo é que Sabe”: fazer um casamento em 10 dias é como um camionista a dançar ballet

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa o mais recente programa da SIC, que é apresentado por Cláudia Vieira.
"O Noivo é que Sabe" estreou este domingo na SIC.

12.500 euros é a quantia que a SIC disponibiliza aos casais que aceitem deixar nas mãos dos homens o planeamento do seu casamento. Em “O Noivo é que sabe”, que estreou este domingo, 30 de agosto, com apresentação de Cláudia Vieira, cada noivo tem apenas dez dias para montar um casamento e tentar que a noiva não fuja no dia da boda.

Dez dias! Preparar um casamento em dez dias é como pedir a um camionista para fazer ballet: é praticamente impossível e tem tudo para acabar em desastre. Por outro lado, “O Noivo é que Sabe” é uma assunção tão arriscada como dizer “eu não estou bem para conduzir, por isso quem leva o carro é o meu cão”. Isto porque, na maior parte das vezes, o noivo não se lembra sequer onde é que foi a despedida de solteiro, quanto mais de uma lista interminável de itens que tem de ultimar.

Só quem já casou é que percebe o stress que antecede a preparação de um evento desta magnitude. São meses e meses de pesquisa, reuniões, telefonemas, listas e mais listas, para depois no dia aquilo passar num abrir e fechar de olhos e ninguém ter tocado na merda da fonte de chocolate que era “imprescindível de ter”! A sério, organizar a Festa do Avante deste ano é peanuts comparativamente com a dor de cabeça de ter de pensar em que mesa vamos colocar a tia viúva, o casal de estrangeiros, a avó com incontinência, a amiga solteira que não come carne, o amigo solteiro que a única coisa que procura é “carne”, os primos de um lado, os primos do outro, a malta do escritório, o padre!

Só este exercício dá logo vontade de desistir e investir o orçamento na compra de uma autocaravana para alugar a influenciadoras, que ao que parece é o que está a dar. Vamos ser honestos: ninguém gosta de ir a casamentos, tirando os noivos e as mães destes. E ainda assim suspeito que na maioria dos casórios o noivo, se pudesse, aparecia só no no final do jantar, quando abrisse a pista de dança. Senhoras em vestidos elaborados que nunca mais vão voltar a usar a tentar equilibrar-se em saltos como se estivessem a andar num ringue de hóquei no gelo. 

Homens de fato e gravata — ou, pior, fraque como no meu caso — a derreter por dentro como um calipo no meio do deserto… é uma tortura maquiavélica. Até acho estranho que nenhum vilão do James Bond se tenha lembrado de tentar obter informações ultrassecretas obrigando-o a ir em julho a um casamento em Évora às 15 horas. “Por favor, não me tragam mais canapés de presunto com tâmaras, eu conto tudo!” Ora, entre gastar um balúrdio, em tempo de pandemia, num casamento que ninguém ia gostar de ir ou participar no novo programa da SIC em que, mesmo que corra mal, pelo menos não gastaram dinheiro, os participantes de “O Noivo é que Sabe” optaram, e bem, pela segunda opção. 

E quem são eles? Neste primeiro episódio ficámos a conhecer três casais, a Maria e o Lourenço, que são betos de Santo Estevão; a Susana e o Otávio, que são bimbos de uma terra de nome peculiar, perto de Paredes; e a Ana e o Fábio, que não sabem dar beijos e são de Setúbal. Esta estreia centrou-se essencialmente na Maria e no Lourenço — “loli” para os amigos — que têm dois filhos com nomes igualmente betos e vivem à beira de um lago no meio da natureza da lezíria, onde gerem uma empresa de desportos aquáticos. Maria só queria um vestido de casamento em condições mas “o Lourenço falhou”, foi a frase dramática que fomos ouvindo ao longo do episódio para gerar suspense e dar ideia de que o evento foi, literalmente, por água abaixo.

O noivo quis inovar um pouco, para espanto da sua encantadora e egrégia avó, que o acompanhou à loja de vestidos, e escolheu um género de um fato de banho, que seria o vestido de sonho da Ana Malhoa, mas que estava nos antípodas do que seria a escolha da sua Maria. Infelizmente para mim, que estava à espera que o programa fosse uma coleção de tragédias e puxar de cabelos em pleno altar, no final tudo se compõe e Maria tem mesmo direito ao casamento que sempre sonhou, com o seu “loli”, o que, confesso, foi uma desilusão. Mas talvez nem tudo esteja perdido, já que nos restantes casais permanece uma réstia de esperança de que as coisas ainda possam descambar.

Isto porque o Fábio está a planear um casamento medieval em que dois homens vestidos de mouros raptam a noiva. Fábio, you had me at “casamento medieval”. Noiva essa que especificou que detestava que houvesse porco no espeto no copo de água. Corta para Fábio que diz: ”uma coisa é certa, tem de haver porco no espeto no copo de água!” Ah, assim está bem, noivos malucos que não têm a mínima consideração pelos desejos da sua noiva, foi para isso que pagámos bilhete. Talvez a melhor forma de antecipar o que aí vem é a expressão que uma das amigas da Susana — outra das concorrentes que vai casar — usou, quando soube o que ia acontecer: “Tás fod***, amiga!” 

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