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“O Noivo é que Sabe”: quem é que nunca sonhou ter um casamento celta? Ninguém?

O cronista e humorista Miguel Lambertini analisa o mais recente episódio do programa da SIC.
Desta vez houve um casamento celta.

Quem sempre sonhou ter um casamento celta que ponha o braço no ar. Ninguém? Calma, ninguém não é bem assim, porque o Diogo não só sonhou como fez. Este domingo, 18 de outubro, em “O Noivo é que Sabe”, na SIC, Diogo montou um casamento celta em dez dias, o que é realmente impressionante. É assim, o deus Taranis quer, o bardo sonha, a obra nasce.

A ideia inicial deste noivo até nem era descabida de todo. Diogo queria mesmo era casar-se num “campo da bola, com arraial, comes e bebes” e a coisa estava feita. O problema é que a noiva Cláudia avisou logo: “tenho pesadelos com chapéus de palha”. Eu sei, parece estranho mas é um pesadelo muito comum. Principalmente para os lesados do BES, que volta não volta têm o Ricardo Salgado e o resto da família a aparecerem-lhes nos sonhos, tudo com chapéus de palha, calça cáqui e “mai não sei quê”, enquanto bebem as suas flutes e brincam aos pobrezinhos.

O Freddy Krueger comparado com este pesadelo é uma história da Disney. Curiosamente era exatamente esse o tema que Claudia gostaria de ver retratado no seu casamento. A noiva sonhava em ir com um vestido estilo “A Bela Adormecida”, embora a sua tonalidade de cabelo remeta mais para “A Pequena Sereia”.

Talvez tenha sido por isso que Diogo escolheu um vestido estilo sereia para a sua namorada usar no grande dia. Na altura de decidir qual o melhor vestido, foi o noivo quem experimentou algumas opções, sendo que os amigos ainda juntaram uma peruca ruiva para ficar mais parecido com a sua noiva. Felizmente para ela, não ficou. Como todos os homens de barba que põem um vestido, Diogo ficou igual a Conchita Wurst ou, no meu caso, à D. Alzira, uma vizinha da minha avó que picava quando dava beijinhos.

Escolhido o vestido, Cláudia foi à loja experimentá-lo e apesar de não ser o design princesa de que ela gostaria, ficou rendida à escolha do noivo. A única coisa que não achou tanta piada foi que, em vez de um véu, Diogo escolheu-lhe um capuz para pôr na cabeça. A noiva ficou desconfiada, mas desde que não fosse um chapéu de palha tudo bem. A Cláudia confia tanto no seu Diogo que dá-me a sensação que ele podia ter escolhido um castor morto para pôr na cabeça que ela usava na boa. 

Se há coisa que não pode faltar num casamento celta — para além de uns totós com pinturas na cara e fatos a cheirar a naftalina — são aves de rapina. Se essas aves tiverem a capacidade de entrar em voo rasante pelo meio dos convidados — e potencialmente vazarem uma vista à tia Lucrécia — para levarem as alianças no bico até ao altar, então isso ainda é melhor. “Uau. Já fiz mais de mil casamentos e nunca vi isso acontecer”, diz o responsável pela quinta. “Ótimo, já estou a ganhar pontos, então”, responde Diogo, que não percebeu que, se o senhor da quinta, que já fez mais de mil casamentos, nunca viu uma ave de rapina a entrar a meio da cerimónia, se calhar é por alguma razão…

“Um indivíduo vestido de António Variações faz um som com a boca para chamar a ave de rapina”

Entretanto Diogo quis ser ele a fazer o bolo dos noivos. Diogo é pasteleiro? Não. Mas também não é um guerreiro celta e não é por isso que não vai entrar a cavalo no seu casamento. O rapaz levou um bocado longe de mais o conceito de “o noivo é que sabe” e atirou-se para um bolo de três andares, que ficou todo torto e quando saiu do frigorífico parecia uma experiência genética que correu mal. Ainda assim foi um gesto querido para com a sua noiva, já que acabou por conseguir trazer um pouco do universo da Disney para o casamento, numa clara referência ao “Corcunda de Notre Dame”, que nem toda a gente apanhou. 

O pai da Cláudia é militar — ou então escolheu o melhor fato de sempre para levar a um casamento — e foi buscá-la a casa num carro mais robusto do que uma chaimite do exército, ou seja, um Volkswagen Carocha dos anos 60. Diogo ainda quis enganar a noiva e pediu ao motorista para parar num campo de futebol perto da quinta onde seria o casamento, o que foi um boa estratégia já que, depois daquilo, qualquer tema ia ser espetacular, até o celta.

No local da festa o noivo chegou montado num cavalo e venceu os totós mascarados de temíveis inimigos imaginários numa luta de espadas encenada. Correu tudo bem, ninguém ficou decapitado nem maneta e por isso só faltava mesmo chegar a noiva. 

Só que esta ficou retida num género de operação STOP levada a cabo por outros três totós mascarados que mandaram parar o Carocha. Os agentes do mal aproveitaram para verificar se os ocupantes tinham instalada a app StayAway Covid e de seguida transportaram a noiva num andor, como se fosse para um sacrifício. Mas o sacrifício foi só mesmo para os convidados que tiveram de levar com outro totó vestido de Frei Tuck celta, que se alongou em versos na segunda pessoa do plural enquanto ensinava a fazer nós que aprendeu nos escoteiros.

“Os seres da natureza estão radiantes e vêm dar a sua bênção”, diz o Frei coiso. Depois desta deixa, um indivíduo vestido de António Variações faz um som com a boca para chamar a ave de rapina que arranca em voo rápido por cima dos convidados. Neste momento o pai da noiva, que não sabia daquele número, achou que estavam sob ataque aéreo, sacou da sua pistola e tentou dar dois balázios na ave. Felizmente a arma estava com a mira descalibrada e o pássaro acabou por conseguir escapar e entregar as alianças, para felicidade de todos os presentes, dos seres da natureza e de dois ou três chapéus de palha. “Isto é um tema medieval… dos vikings?” Pergunta a noiva no final, sem perceber muito bem o filme em que estava metida. É celta, Cláudia, é celta…

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