Júlio Gonçalves mal podia acreditar quando percebeu que tinha conquistado o primeiro (e único) Botão Dourado da fase de apuramento do “Got Talent Portugal” na noite deste domingo, 8 de março. O pianista foi diretamente selecionado para as semifinais do programa da RTP e não podia ter ficado mais feliz.
“Nem estava a acreditar porque estava mesmo sem pretensão nenhuma”, confessa à NiT o jovem de 25 anos. “Não estava a ver as imagens, mas lembro-me que na altura fiquei a pensar ‘O que está a acontecer? Vou acordar agora?'”, brinca.
Júlio é invisual desde que nasceu devido a um glaucoma congénito, uma doença em que o olho não consegue drenar corretamente o líquido interno. Como resultado, a pressão aumenta e acaba por danificar o nervo ótico.
Para a segunda apresentação no programa, Júlio escolheu o “Prelúdio em Sol Menor, Op. 23, nº 5 ” de Sergei Rachmaninoff, considerada uma das peças mais famosas do artista russo. “Não era fácil de maneira nenhuma e deu algum trabalho”, diz.
Para se preparar, o também professor de música, natural de Viseu, fez o que está habituado a fazer antes de qualquer apresentação: “Muito treino. Tentei controlar ao máximo a ansiedade para que tudo corresse bem.”
Nesta segunda apresentação, porém, não teve muito tempo para ensaiar e acabou por ficar mais ansioso do que na primeira. “No dia da atuação, não tinha encostado os dedos no piano. Portanto, foi uma atuação e um aquecimento ao mesmo tempo. Isso foi ‘engraçado’ porque na altura estava um bocadinho nervoso.”
O interesse pela música surgiu desde muito cedo, graças à família. “Os meus irmãos tocavam em grupos de baile e mesmo os meus pais fizeram sempre de tudo para que os filhos seguissem a música”, partilha. Aos 10 anos, entrou para o Conservatório Regional de Música de Viseu e deu início a formação nesta área.
“A minha formação é em piano, mas o meu primeiro instrumento até foi a bateria”, recorda à NiT. “Também fiz muitas experiências com guitarra elétrica e o meu irmão é guitarrista”.
Desde cedo, Júlio conheceu de perto as dificuldades no ramo da música para pessoas com deficiências físicas, sobretudo na parte clássica. O pianista explica que, embora as escolas contem com departamentos de educação especial para pessoas com deficiência, o mesmo não acontece nos conservatórios e em projetos ligados à música.
“Como os Conservatórios são privados, não existem esses departamentos, então temos que depender da boa vontade das pessoas para nos ensinar e também do nosso próprio empenho”, explica. “Felizmente, tive a sorte de ter professores que fizeram fogo sem isqueiro ou fósforos.”
Além de ser um orgulho para os professores que o acompanharam e para a família, Júlio diz que também tem recebido muito apoio dos alunos. Embora dê aulas para todas as idades, o pianista trabalha, sobretudo, com miúdos e adolescentes. “É muito bom perceber que até os próprios alunos começaram a olhar de uma forma mais séria e a estar mais atentos às aulas, desde que apareci no grande ecrã”, afirma.

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