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O que aprendemos com o documentário “Schumacher”: da família humilde ao estado de saúde

É a nova produção da Netflix, que conta a história da lenda alemã da Fórmula 1. Já o pode ver na plataforma de streaming.
Michael Schumacher tem 52 anos.

Michael Schumacher é um ícone global do desporto. Durante a década de 90 e o início dos anos 2000, foi uma das maiores figuras da Fórmula 1 — hoje, continua a ser o recordista (empatado com Lewis Hamilton) da modalidade, ao ter conquistado sete campeonatos mundiais.

Um novo documentário, “Schumacher”, conta a sua história de vida — chegou à Netflix esta quarta-feira, 15 de setembro, e foi produzido em colaboração com a família do antigo piloto. Desde dezembro de 2013, após um acidente numa estância de esqui nos Alpes franceses, que Schumacher está longe dos olhares públicos.

O seu estado de saúde é incerto, mas o alemão deverá estar paralisado e sem conseguir falar, de acordo com as poucas atualizações sobre as condições em que se encontra que foram divulgadas ao longo dos anos. Contudo, também já foi dito que está “consciente”.

O novo documentário inclui depoimentos dos familiares próximos — da mulher Corinna, do filho Mick (que agora também é piloto da Fórmula 1), da filha Gina, do irmão Ralf e do pai Rolf. A produção, que segue uma ordem cronológica, termina com o tema do acidente e da vida da família Schumacher desde o final de 2013.

“Todos sentem falta do Michael, mas o Michael está aqui. Diferente, mas está, e isso dá-nos força, acho eu. Estamos juntos. Moramos juntos em casa. Fazemos terapia. Fazemos tudo para que o Michael melhore e para garantir que fique confortável”, diz Corinna Schumacher no documentário.

Além disso, a mulher do antigo piloto também explica porque é que têm levado uma vida ultra reservada, sem nunca divulgar imagens de Michael. “Estamos a tentar continuar como uma família da forma como o Michael gostava. E ainda gosta. Estamos a seguir com as nossas vidas, mas ‘privado é privado’, era o que ele dizia sempre. O Michael sempre nos protegeu, e agora estamos nós a protegê-lo.”

O documentário tanto aborda a carreira de Michael Schumacher como a sua vida pessoal. De facto, o piloto sempre manteve uma vida pessoal reservada e bastante comum. Não gostava da atenção mediática. Casou com a mulher quando dava os primeiros passos na Fórmula 1. Teve dois filhos e adorava passar o pouco tempo que lhe sobrava com eles. Era amigo do amigo, gostava de festas em família mas sem os luxos e excessos que muitas vezes caracterizam as celebridades.

Senna repreende Schumacher num momento incluído no documentário.

É descrito por todos como um homem carinhoso, ideal, que nunca falhava em nada — quando saía cedo da cama, certificava-se sempre de que nunca acordava a mulher desnecessariamente, por exemplo.

Na pista, era uma máquina implacável e focada. Rolf Schumacher, o pai, conta logo no início do documentário como Michael sempre foi confiável. Podia tratar do irmão e de coisas em casa que os pais confiavam nele e tudo corria sempre bem. Não errava, não falhava, não se distraía. São características que todos lhe parecem apontar ao longo da carreira.

Os Schumacher eram uma família humilde. Tinham empregos comuns mal pagos, chegaram a ter um restaurante e depois começaram a trabalhar num kartódromo. Michael era apenas uma pequena criança quando começou a habituar-se aos karts, às pistas, aos pneus e ao cheiro a óleo. Cresceu literalmente naquele ambiente e era ele que testava os novos karts, ou que os experimentava cada vez que algum kart tinha de ser alterado ou arranjado de alguma forma.

Michael era extremamente talentoso, provavelmente também fruto de todas as horas que passava a conduzir. Vencia sempre as corridas e ganhou o gosto de usar karts em mau estado, com pneus em más condições, para conseguir vencer aos outros miúdos. Além disso, como não tinha um kart próprio, tinha de usar o que estivesse disponível.

Durante a adolescência competiu cada vez mais, a somar prémios, e começou a dar nas vistas. Uma vaga abriu-se na Fórmula 1, na equipa da 7Up Jordan, que decidiu apostar nele. Quando lá chegou, deu logo nas vistas pela forma como conduzia. Uma nova estrela tinha nascido.

Foi a partir de 1992 que começou a competir pela equipa da Benetton e a conseguir chegar perto do pódio. Uns anos antes, tinha um poster de Ayrton Senna na parede do quarto. Agora, estava a competir ferozmente contra ele, a ameaçar a hegemonia conquistada a pulso pelo brasileiro, numa pequena rivalidade que culminou tragicamente com a morte de Senna em Ímola, em 1994, quando o piloto tentava perseguir o carro de Schumacher na pista.

Outro dos grandes focos do documentário tem a ver com a sua mudança inesperada para a Ferrari. Michael Schumacher tinha conquistado os campeonatos mundiais de 1994 e 1995 pela Benetton. Tudo lhe corria bem, o carro era bom, provavelmente iria conseguir manter-se ao mais alto nível se ali permanecesse. Mas Schumacher queria mais.

O alemão, que tinha uma personalidade ultra competitiva, precisava constantemente de novos desafios, de se superar. Então, tal como fazia nos karts, aceitou a proposta de ir para a Ferrari. Era uma marca glamourosa de carros bonitos, uma lenda e um ícone da modalidade, mas a Ferrari não conquistava um campeonato há cerca de 20 anos. Os carros da marca não conseguiam competir com os das equipas rivais.

Assim, Schumacher arriscou e quis superar o grande desafio de levar a Ferrari de volta à glória, ainda que partisse em desvantagem quanto à qualidade do automóvel. Este período foi particularmente difícil e recheado de frustrações. O carro era muito pior do que Schumacher estava à espera. Foram quatro épocas de derrotas, de enorme pressão para o piloto. O alemão passava os dias inteiros, entre as provas, a trabalhar com os mecânicos no carro. É descrito por todos como sendo alguém que estava ali para motivar, para pedir ajustes. Ficava até de noite a testar o carro, a explorar novas possibilidades com a equipa técnica.

O novo milénio deu-lhe o tão desejado novo título. Quando este peso enorme lhe saiu das costas, Schumacher sentiu que não tinha mais nada a provar nem devia nada a ninguém. Fez apenas aquilo de que mais gostava naqueles anos: foi para a pista conduzir a alta velocidade, tentando superar-se uma e outra vez. O resultado foram cinco campeonatos mundiais consecutivos.

Em 2006, decidiu reformar-se. Queria passar mais tempo com a família e começou a explorar diversos desportos radicais nos tempos livres — saltava 50 vezes seguidas de pára-quedas a partir de um avião, por exemplo. Mas rapidamente sentiu a urgência de regressar à paixão da Fórmula 1, e foi o que fez com a Mercedes entre 2010 e 2012. Nunca mais se aproximou do pódio, mas continuava a ser um bom piloto, que fazia aquilo de que mais gostava. Até ao seu acidente.

O documentário tem entrevistas com antigos pilotos rivais, colegas de equipa, mecânicos e alguns dos principais responsáveis pela modalidade da Fórmula 1. Todos falam do homem intenso com sede de ganhar que acreditava genuinamente que não conseguia cometer erros, Michael Schumacher.

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