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“O Servo do Povo”: a série de Zelensky é uma viagem surreal — com poucas gargalhadas

A série profética do presidente ucraniano é uma censura aguçada ao regime, mas brilha pouco como comédia. Leia crítica da NiT.
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Vasiliy Goloborodko percorre, com um ar curioso, os corredores da residência oficial da presidência ucraniana. Ao deparar-se com uma ave numa gaiola, detém-se. “Yanukovitch”, diz para a ave o seu assistente, que imediatamente devolve um mal-intencionado “engole”.

Yanukovitch era, claro, o então presidente deposto um ano antes pela revolução de Maidan, acusado de ser um fantoche do Kremlin. Esta é apenas uma de muitas referências políticas que tecem a teia da história criada por Volodymyr Zelensky em “O Servo do Povo”.

A comédia, que estreou em 2015 na televisão ucraniana, provavelmente nunca veria a luz do dia no resto do mundo, não fossem os acontecimentos trágicos dos últimos meses, com a invasão russa da Ucrânia. Mas o caráter de profecia que se acabaria por cumprir é também parte — senão a totalidade — da magia da comédia que agora podemos ver em Portugal, através da Netflix.

É, claro, uma série que pede algumas contrapartidas. Claro que pode ser vista num vácuo, sem o total conhecimento da realidade política ucraniana. Mas, se assim fosse, seria apenas uma comédia sem pouco que a pudesse distinguir de tantas outras comédias familiares feitas por esse mundo fora.

É um mundo diferente do nosso, aquele que “O Servo do Povo” retrata e, no entanto, a realidade dos ucranianos não é assim tão distinta da nossa, pelo menos no que toca à visão que o povo tem da política.

Vasiliy Goloborodko é um professor de história divorciado. Vive com os pais, não tem poupanças, pediu um empréstimo para comprar um microondas e sente que as lições que dá aos alunos são desvalorizadas por todos, em benefício de “outras ciências” como a matemática. É, aliás, o pretexto para uma das suas críticas mais incisivas.

Ao ver a sua aula interrompida, questiona por que não interromperam outra turma. “Porque estão a ter aula de matemática”, justifica o colega. “E então, a minha é de história.” “Estás a comparar uma pila com um dedo”, conclui.

Goloborodko perde a paciência. “Estou farto desta merda. A matemática é valorizada como ciência, mas a história está abaixo de cão? E depois perguntamo-nos porque é que os políticos cometem sempre os mesmos erros. Porque são matemáticos fantásticos que só sabem dividir e subtrair. Mais nada.”

O discurso honesto e exasperado acaba por ser gravado por um aluno e vai parar à Internet, onde se torna viral. De repente, Goloborodko torna-se a voz de protesto de milhões de ucranianos — e que poderiam ser os queixumes de qualquer outro povo em qualquer um dos continentes.

Numa reviravolta que aparentemente só poderia acontecer no guião de um comediante, Goloborodko torna-se tão popular que os milhões necessários para efetivar a candidatura à presidência são rapidamente angariados numa campanha de crowdfunding. O professor pensa “porque não?” e aceita colocar o seu nome no boletim. A surpresa? É efetivamente eleito e, de um dia para o outro, dá por si rodeado de luxos até então impensáveis.

“O Servo do Povo” é, antes de mais, uma comédia familiar com um propósito muito concreto: o de satirizar a desapontante classe política, que vive agarrada aos milhões pagos pelos cidadãos, sem quaisquer preocupações em fazer o país evoluir, presos na sua própria bolha. É uma caracterização populista, mas com um objetivo bem definido.

Zelensky apontou ainda mais alto nesta comédia. Na primeira cena do primeiro episódio, três anónimos discutem, entre copos de brandy e charutos, o futuro da Ucrânia. Fazem-no do alto de uma varanda com vista sobre a praça Maidan, símbolo da revolução e ponto central da capital Kiev.

Discutem as eleições que se avizinham e tudo não passa de um jogo para os três oligarcas, que têm milhões apostados nos seus respetivos candidatos. O vencedor terá a prova de que é “o dono disto tudo”. Quando percebem que os seus cavalos foram derrotados por um professor, apressam-se a fazer uma avaliação dos riscos.

Goloborodko é um tipo honesto e um obstáculo aos que gostam de brincar com o poder. “Não entremos em pânico”, explica um dos oligarcas. “Deixem-no provar a boa vida e aquilo que ser presidente acarreta.” “Acha que ele muda?”, questiona outro. “Não sei, mas até a pessoa mais honesta do mundo gosta de viver às custas do Estado.”

Quando não está a dar alfinetadas na política e a fazer humor certeiro com os intervenientes da esfera política ucraniana e do leste — Lukashenko, o ditador bielorrusso, é outro dos alvos favoritos de Zelenskyy —, “O Servo do Povo” perde as garras e torna-se em mais uma mastigada comédia, assente em personagens caricaturadas.

Porém, para que a série brilhe, é preciso oferecer algum contexto que nem sempre é dado aos espectadores e, por isso mesmo, será difícil tornar-se num fenómeno consensual. Existe, no entanto, a curiosidade latente em assistir à tal profecia que se cumpriu.

Na cabeça da personagem principal, debatem-se os filósofos gregos. A consciência de Goloborodko conversa com Abraham Lincoln ou com Ivan o Terrível, o grande príncipe de Moscovo e primeiro Czar russo. É com este último que debate a segunda parte da profecia da série.

Se a primeira se concretizou ao ver Zelensky candidatar-se à presidência sob o seu partido cujo nome é copiado do nome da série, a segunda dispõe as bases do agora inevitável confronto militar com a Rússia. Ivan insiste que os ucranianos partilham o sangue russo. “Não, nós vamos para a Europa (…) Porque falas em sangue? Vocês vão numa direção, nós vamos noutra. Vamos cada um para seu lado e voltamos a falar daqui a 300 anos.”

Ver “O Servo do Povo” é um exercício surrealista, uma combinação invulgar de realidade e ficção que é mais um ato curioso do que propriamente de prazer. Veremos a série porque temos genuína curiosidade sobre Zelensky, o tipo bem-disposto que transformou o seu guião em realidade — e que viu a realidade bater-lhe à porta com um episódio que nem ele conseguiu imaginar para a sua série.

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