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O sonho que se tornou a maior tragédia da história da NASA

Era para ser um marco nos voos espaciais mas algo correu mal no Challenger. O mundo inteiro assistiu em direto.
Uma tragédia que a NASA não esquece.

Estamos a 28 de janeiro de 1986. “Os sistemas estão funcionais e o Controlo está a postos para a descolagem”. A porta de cabine estava fechada, no centro da NASA estava tudo a postos, com o país inteiro a assistir à partida do vaivém Challenger, a partir do Cabo Canaveral, com sete tripulantes a bordo.

Esta era uma missão especial para a NASA. Pela primeira vez, seguiria a bordo uma civil, Christa McAuliffe, a professora de New Hampshire que ia dar aulas a partir do espaço para 2,5 milhões de alunos.

Cerca de 500 pessoas, incluindo 18 crianças da cidade natal da professora, em Concord, familiares dos astronautas e os pais de Christa McAuliffe, estavam a assistir ao momento da partida junto à pista de descolagem. A contagem começou. “O motor principal está a funcionar, quatro, três, dois, um”… e partiu. Mas 73 segundos depois, ouve-se o aviso de “uma avaria grave”e uma explosão irrompe nos céus, deixando o país e o mundo em choque.

“Challenger: O Voo Final” é a minissérie documental de quatro episódios, com cunho da produtora Bad Robot, de J. J. Abrams, que estreou esta quarta-feira, 16 de setembro. Ao longo de quatro episódios já disponibilizados desvendamos uma tragédia que não foi esquecida e que contou com falhas humanas — e uma falha a este nível é muitas vezes sinónimo de tragédia.

Os EUA não viviam um momento público tão traumático desde o assassinato de John F. Kennedy, em 1963. Curiosamente, Kennedy tinha sido o nome dado ao Centro Espacial em homenagem ao antigo presidente.

Os miúdos iam poder “ligar a televisão e ver que o espaço é para todos”, afirmou Christa numa conferência de imprensa antes da partida. Para a NASA, era a primeira etapa de um sonho antigo, de poder levar civis até ao espaço.

O avanço tecnológico do vaivém permitia sonhar com viagens ao espaço mais baratas, com um veículo que poderia ser reutilizado e facilitava o transporte de cargas maiores e de tripulantes que não precisassem dos anos de formação específica dos astronautas.

“Nunca tal aconteceu na história do programa espacial”, ouve-se um pivot de um telejornal ainda atordoado a afirmar ainda cedo no primeiro episódio da série documental sobre a tragédia do Challenger. “Nunca tal tinha acontecido”, repete.

Os sete tripulantes.

Do orgulho ao choque

A NASA já tinha sido palco de mortes, tal como o programa espacial soviético. A corrida ao espaço das duas super-potências não se fizera sem riscos e falhas. Logo nos anos 60 tinha havido mortes e falhas, tanto em treinos com módulos como em voos experimentais. Mas nunca nada tinha acontecido àquela escala.

A missão Challenger começara três anos antes e completara um total de nove missões bem sucedidas. Esta seria a décima e a mais ambiciosa. Acabou mesmo por ser a última. A investigação na altura contou com uma série de figuras de destaque, incluindo Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua.

A NASA era um orgulho nacional mas naquele dia tudo mudou. A investigação provou que a tragédia poderia ter sido evitada. O calendário apertado, a pressa em alcançar novo sucesso, terá contribuído para o falhanço.

“Challenger: O Voo Final” recorda como entre os astronautas a bordo do Challenger estavam alguns que integraram uma turma especial, de 1978, que ficou para a história por incluir mulheres, negros e asiáticos. Apontada ao futuro no espaço, a NASA não ignorou a importância de abrir-se a minorias ainda em terra.

A série dá-nos o lado de lá, muito humano, com testemunhos de familiares que nos falam de quem perderam a bordo mas também de quem acompanhou de perto aqueles anos da NASA e aquela investigação em particular.

Aquela décima e final missão chegou a ser adiada por seis vezes, devido ao clima e a problemas técnicos. A comissão que investigaria o caso chegou à conclusão de que os anéis O-ring dos foguetes propulsores se expandiam e contraiam consoante a variação da temperatura ambiente.

No dia do acidente, a temperatura no Centro Espacial Kennedy estava abaixo de zero, o que fez com que contraíssem. Houve quem tivesse avisado e quem não tivesse dado ouvidos. Com os anéis contraídos, houve um escape no combustível dos foguetes que terá levado à explosão. Foi uma dura lição para a NASA — e um doloroso lembrete de que fazer história é um risco, especialmente quando a ambição abdica da segurança.

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