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Opinião: “O criador de ‘Squid Game’ é sul coreano, mas podia ser português”

O humorista e cronista da NiT, Miguel Lambertini, analisa a série que está a ser o maior sucesso de sempre da Netflix.
É cruel.

A nova série da Netflix, “Squid Game” é um caso admirável de boa ficção. Repito: A nova série da Netflix, “Squid Game”, é um caso admirável de boa ficção. Como descobrimos no início do primeiro episódio, o nome surge de uma brincadeira de rua coreana chamada “Jogo da Lula”. Para quem brincou na rua, nos anos 80 e 90, o equivalente em Portugal seria a Sirumba, em que “polícias” tentavam apanhar “ladrões” através de corredores desenhados a giz, no chão. Apesar do nome remeter mais para uma prática marota para divertir adultos, do que uma brincadeira de crianças, o jogo era uma boa alternativa para aquelas tardes em que alguém tinha chutado a bola para a varanda do vizinho.

O criador de “Squid Game” é sul coreano, mas podia ser português, porque só alguém que tenha jogado as versões coreanas de “Sirumba”, “Lá vai Alho” ou da “Batata Frita” é que conseguiria traduzir de forma tão fiel a violência de alguns jogos tradicionais infantis. Ainda hoje desconfio que a hérnia discal que tenho surgiu enquanto jogava “Lá vai alho”, na primária. Pensando bem, sempre é melhor do que apanhar brucelose como aconteceu ao Armando, um amigo que vivia em Mirandela e jogava ao “Bate Pé” com ovelhas.

Hwang Dong-hyuk, foi um pouco mais longe na abordagem sadística a este tipo de brincadeiras e pensou “E se em vez de ficarem com sequelas para o resto da vida, como o Armando, os jogadores morressem?” Uma bela premissa que é parte do sucesso desta série, mas que não se esgota aí. A cenografia, por exemplo, é magnífica e os ambientes em que decorrem cada um dos jogos têm tanto de criativo como requintado, ainda que, quase sempre, sejam requintes de malvadez. É o caso da macabra boneca robótica do primeiro jogo cuja cantilena “mugunghwa kkoci pieot seumnida” – que é como quem diz, “tá quietinho, ou levas um tiro nos cornos” – naquele tom de voz doce, é uma sentença de morte anunciada.

Eu nunca tive muito jeito para jogar ao “Macaquinho do Chinês” porque sou um pouco desequilibrado, já o Dr. João Rendeiro, devia ser uma máquina a jogar isto porque conseguiu ir de Lisboa até ao Belize sem ninguém o topar. E aquele outro jogo de tirar as formas do centro da bolacha de mel só com uma agulha? Esse era mesmo para esquecer, morria logo. Eu não consigo, sequer, tirar o papelinho quadrado do seguro pelo picotado sem rasgar a folha, um chapéu de chuva, então, era tiro pela certa.
Depois as personagens, desde o Apresentador até ao Jogador 001 — sacana do belho, parecia mais acabado que o Prof. Cavaco, mas bem que nos enganou — passando pelos vários arquétipos, todos têm uma justificação válida que os coloca naquele espaço e garante uma trama recheada de intriga e ação.

E finalmente o argumento, com diálogos super bem escritos e sem a tentação de querer apressar a narrativa, consegue um equilíbrio perfeito entre o impacto dos momentos mais sangrentos e o puro drama, sem se tornar lamechas. Mais do que uma realidade distópica, a história retrata dois grupos de apostadores desesperados: os pobres endividados e os estupidamente ricos. Os primeiros não sabem o que fazer para ganhar dinheiro, os segundos não sabem o que fazer para gastar dinheiro, mas pelo menos quando se fartarem de ver pessoas a morrer, sempre têm umas máscaras ótimas para ir ao aniversário do Lux.

“Squid Game” é uma daquelas séries para ver em maratona e eu, tal como muitos outros fãs de todo o mundo, aguardo com entusiasmo pela segunda temporada. Por isso e por aquele sistema de gás que adormece os jogadores quando entram no carro. Dava-me um jeito do caraças quando vamos com os miúdos, de fim-de-semana, até ao Algarve.

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