Televisão

Os melhores e piores momentos do segundo episódio de “Princípio, Meio e Fim”

O programa de Bruno Nogueira e companhia na SIC regressou este domingo, 18 de abril.
Ainda faltam quatro episódios.

Uma semana após a estreia, é certo que “Princípio, Meio e Fim” é um daqueles programas que divide opiniões. Há quem adore a ousadia criativa e a pouca convencionalidade de Bruno Nogueira e companhia, quem tenha odiado o lado mais nonsense do formato (inclusive profissionais da cultura) e também quem tenha expressado sentimentos mistos. Ao longo dos seis episódios, só o público mais fiel promete ficar. Este domingo, 18 de abril, foi transmitido o segundo capítulo na SIC.

A lógica é sempre igual. Bruno Nogueira, Salvador Martinha, Filipe Melo e Nuno Markl reúnem-se durante duas horas num estúdio, onde terão de criar um guião. O ponto de partida é o mesmo: um jantar de amigos com as mesmas personagens, que têm determinadas características.

Depois, os atores — um quinteto interpretado por Albano Jerónimo, Jessica Athayde, Nuno Lopes, Rita Cabaço e o próprio Bruno Nogueira — têm de interpretar o guião exatamente tal como foi escrito. Se houver gralhas ou erros de qualquer tipo, têm de dizer o texto daquela forma.

Os melhores momentos

Os diálogos e a lógica narrativa

Uma das melhores coisas deste programa é que, apesar de haver uma linha consistente, todos os episódios podem ser bastante diversos: porque o guião é sempre diferente. Isso faz com que possa haver altos e baixos ao longo dos seis episódios, mas, sobretudo, gera uma certa imprevisibilidade, o que é ótimo num programa de televisão.

Este segundo episódio de “Princípio, Meio e Fim” foi um passo à frente em termos de guião. Isso notou-se logo no “princípio” do programa, quando os guionistas conseguiram desenvolver mais rapidamente o texto, e materializou-se com os atores. Pareceu haver uma maior lógica narrativa, sem portais luminosos a aparecer no meio do bosque, e isso beneficiou o enredo. Como sempre, há diálogos coloquiais equilibrados com grandes tiradas de humor.

A aparição surpresa de José Carlos Pereira

Na cena em que Paulo regressa da cozinha e os amigos fingem ter organizado uma festa surpresa de aniversário, eis que entre eles está José Carlos Pereira, vestido com a sua bata de médico, a cantar os parabéns e a bater palmas animado. É completamente surpreendente e desarmante — e o melhor de tudo é que os guionistas não cederam à tentação de lhe dar falas ou de tentar encontrar qualquer tipo de explicação. As personagens nem sequer se referiram a esta aparição do além, e isso criou um dos momentos mais nonsense e mais divertidos do episódio, sobretudo tendo em conta o histórico de José Carlos Pereira enquanto figura pública. 

A sequência de embriaguez

A certo ponto, as personagens decidem beber margaritas até quase caírem para o lado — nesse momento, estarão preparadas para serem verdadeiramente genuínas e dizerem tudo aquilo que pensam dos amigos, que se calhar nem conhecem assim tão bem. Mais uma vez, os argumentistas brincam com dinâmicas sociais com as quais todos nos conseguimos identificar. E depois há a cena festiva em que estão bêbedos, munidos de adereços e a cometerem atos loucos (que muitas vezes incluem devastação de plantas) sob uma banda sonora apropriada dos The Prodigy. É um dos melhores momentos deste segundo episódio, em que foi possível explorar o talento dos atores. E a conclusão inesperada também encaixa bem.

O final de tudo — Paulo sem o cão

A última cena do segundo episódio, como explicaram os argumentistas no “princípio”, era para ter o cão de Paulo a deitar-se aos seus pés — o que por si só já seria engraçado, tendo em conta que o cão é uma espécie de mascote interpretada por alguém. Por lapso, os guionistas não escreveram a palavra cão, pelo que Paulo teve de se deitar aos próprios pés, numa cena hilariante (e ao mesmo quase trágica, depois daquilo a que assistimos) interpretada pelo muito talentoso Albano Jerónimo. É um dos melhores exemplos de como o erro pode ser tão valioso e dar origem a maravilhas.

Os momentos menos bons (ou as questões mais duvidosas)

A coerência das personagens

Os cinco amigos que são as personagens de “Princípio, Meio e Fim” têm, claro, determinadas características. Obviamente, é isso que faz sentido, que os guionistas explorem estas personagens tendo em conta os seus traços de personalidade, para que haja uma coerência generalizada. Só que, como todas as semanas há um guião diferente, é muito difícil que tudo bata certo e que aquelas cinco personagens sejam sempre as mesmas de episódio para episódio. Neste segundo capítulo houve uma maior aproximação de certas personagens à sua essência (sobretudo no caso de Luís Henrique), mas houve algum desfasamento em relação ao primeiro episódio. É um dos maiores desafios deste programa.

As distrações no estúdio também desconcentram os espectadores

Quando os quatro argumentistas estão reunidos no estúdio a escrever e a inventar uma história, a produção vai incluindo distrações. Neste segundo episódio houve um homem a jogar minigolfe de forma aparentemente perigosa, e um “senhor a comer sapateira” de forma alta e espalhafatosa, além de mais tarde ter entrado a fazer outro tipo de coisas difíceis de descrever. Percebe-se a ideia, claro, de tornar os momentos de criação mais divertidos — sobretudo pelas reações dos argumentistas. Mas, além de os distrair, não desconcentra também os espectadores em casa? É algo que nos puxa para fora da nossa zona de conforto, mas fica a dúvida se é uma aposta ganha ou não.

Salvador Martinha está deslocado?

Salvador Martinha é um dos melhores humoristas portugueses, uma pessoa altamente criativa, talentosa e divertida. Mas quando assistimos ao “princípio” do programa, ficamos na dúvida se o comediante não estará algo deslocado. Não tem o mesmo background de escrita de ficção de Bruno Nogueira, Nuno Markl ou Filipe Melo — eles que já formavam um trio como amigos e no projeto “Uma Nêspera no Cu”, pelo que têm uma relação extra de cumplicidade. Salvador Martinha vai sugerindo algumas das falas ou dos detalhes mais divertidos dos diálogos, mas parece algo deslocado da big picture do guião. Parece que não tem espaço para brilhar, que o seu enorme potencial não está a ser aproveitado ao máximo.

O lado físico

Foi uma componente com bastante destaque neste segundo episódio de “Princípio, Meio e Fim”. Filipe Melo pediu “linguadões” entre as personagens, Salvador Martinha sugeriu: “porque é que não lhe chupa um dedo?” Stone, já sabemos, é a personagem mais física. Depois de cheirar intensamente a pele de Francisca, e de ela o afastar por se estar a tornar inconveniente, foi a própria Jessica Athayde que, no segmento de improviso, beijou Nuno Lopes depois de um gesto simpático de Stone. O lado físico pareceu um pouco forçado neste segundo episódio.

Leia também a entrevista com Bruno Nogueira sobre “Princípio, Meio e Fim” e leia a crítica da NiT ao primeiro episódio.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT