Televisão

Os melhores momentos da incrível carreira de David Attenborough

Ninguém nos ensinou mais sobre a vida animal do que ele. Aos 94, dá-nos mais uma série documental para ver na Netflix.
É um talento único

David Attenborough. O nome diz quase tudo sobre o homem que nasceu no mesmo dia da Rainha Isabel II e hoje é, provavelmente, o apresentador de programas de vida animal mais famoso do mundo.

É um exemplo de longevidade, talento e resiliência. Na sua biografia, o “The Guardian” recorda uma reunião nos estúdios da “BBC”, no final dos anos 80, onde se procurava a resposta para uma pergunta: na iminência da reforma de Attenborough, ao fim de 40 anos de colaboração. “Temos que pensar em alguém que possa substituir o David assim que a sua série acabar.”

Vários anos depois, ainda não havia resposta e o então apresentador com 65 anos mantinha-se firme. Trinta anos depois, um jovem que estava na primeira reunião revelou ao jornal que ainda ninguém encontrou a resposta à pergunta feita. E aos 94 anos, Attenborough continua a ser insubstituível.

Não só é insubstituível como continua capaz de produzir mais e mais séries. A mais recente estreou esta quinta-feira, 22 de abril, precisamente no Dia da Terra, na Netflix.

“A Vida a Cores” é uma série dividida em três partes, na qual o nonagenário viaja das florestas da Costa Rica até às frias montanhas escocesas, à procura das formas mais originais e inusitadas que os animais usam as cores para sobreviverem.

“Ao longo de várias décadas, os filmes sofreram extraordinários avanços, gravámos a preto e branco, depois a cor, em alta-definição e ultra-alta definição [Attenborough é o único no mundo a vencer um BAFTA por produções gravadas em cada um de todos estes formatos]. Mas sempre soubemos que existe um outro mundo da cor que só os animais veem. Em ‘A Vida a Cores’, criámos nova tecnologia que nos permite espreitar estes mundos invisíveis”, explica o britânico.

O homem que foi rejeitado pela “BBC” na primeira ocasião em que enviou o seu currículo, havia de tornar-se num dos nomes mais reconhecidos da estação, quando em 1954 foi chamado a substituir o habitual apresentador de “Zoo Quest”, impedido de trabalhar por doença. À época, Attenborough nem sequer tinha uma televisão em casa, mas já era uma estrela da televisão.

Além de ser um dos homens mais viajados do planeta — estima-se que apenas para o documentário “The Life of Birds” tenha percorrido mais de 400 mil quilómetros —, é também uma das vozes mais respeitadas no que concerne a vida do planeta.

Talvez por isso o mundo tenha parado para ver “Uma Vida no Nosso Planeta”, outro especial da Netflix lançado em 2020, no qual Attenborough debate o futuro do planeta. Um tema analisado com a habitual frieza e ponderação do britânico, mas que para os críticos já veio tarde.

A verdade é que com ou sem conselhos sobre como preservar a vida no planeta, Attenborough dedicou grande parte dos seus anos a ensinar-nos a apreciar cada uma das espécies que convivem connosco. E sobretudo a encontrar magia até nos animais aparentemente mais aborrecidos e desinteressantes.

Curiosamente, o britânico revelou por várias vezes que é fascinado por animais, mas que não pode ser classificado como um “amante de animais”. “Não o sou, se isso significar que gostas dos animais se lhes puderes fazer festinhas”, revelou.

Apesar do pragmatismo, Attenborough chegou a ter um verdadeiro jardim zoológico em casa, com chimpanzés a partilharem o espaço com cobras, camaleões e lémures. “Só tinha esses animais todos porque à época estava a colecionar animais para o Zoo de Londres. Voltei [das viagens] com mais de 150 animais e o zoológico ficava com alguns deles.”

Com mais de trinta produções ao longo de 70 anos de carreira, os documentários de Attenborough estão repletos de momentos revolucionários. É o caso do momento dramático captado em câmara — numa sequência devastadora — que mostra pequenos gansos bebé a saltarem de um penhasco para se reunirem com os pais.

A narração e os planos de filmagem são do melhor que o género já viu e só poderia sair da mão de David Attenborough. O final é agridoce, mas é a natureza tal como ela é e como o britânico sempre nos mostrou.

Muitos anos antes, em 1979, foi protagonista de uma cena que ficou para a história e que é, talvez, a mais emblemática da sua carreira. Em “Life on Earth”, pôde finalmente contar em 13 horas a vida no planeta e numa dessas filmagens, acompanhou um grupo de raros gorilas das montanhas.

À medida que os ia acompanhando à distância, os animais habituaram-se à sua presença. De repente, deu por si no meio do grupo, que se enroscou no apresentador, como se ele fosse um dos seus. Foi “uma das experiências mais espetaculares” da sua vida.

Esta relação íntima com os animais vem de longe, tinha ainda apenas 29 anos e era um novato nos estúdios da “BBC”. As primeiras imagens do explorador são de 1956 e mostram Attenborough a tentar travar amizade com um pequeno orangotango.

Preso numa jaula, o animal mostrou-se indomável nos primeiros dias, até que a persistência do apresentador deu frutos. As recompensas de comida ajudaram o animal a relaxar, até ao ponto em que se sentiu a vontade para sair e acompanhar Attenborough.

O que lhe deu fama foi também a sua precisão e arte de narração. A voz inconfundível, o minimalismo, a capacidade de saber quando nos dar a informação e quando nos deixar a sós com as impressionantes imagens.

Outro dos momentos impressionantes, se bem que curtos, é um captado em “Planet Earth II”, onde numa sequência que envergonha muitos filmes de Hollywood, acompanhamos a fuga de uma pequena iguana, completamente rodeada de cobras predadoras.

E, claro, há sempre espaço para momentos de humor. Nesse plano, não há melhor sujeito do que o pinguim. Neste caso, a sequência que se tornou famosa e que mostra os rituais de acasalamento da espécie.

Attenborough explica-nos que cada macho procura construir o melhor ninho com as pequenas pedras que vai apanhando. O mais impressionante, ajudará a atrair a melhor fêmea.

Porém, como em tudo na vida, nem todos os pinguins jogam limpo. E há pinguins que quebram as regras e optam por “uma vida de crime”, nota o apresentador.

O fenómeno Attenborough é de tal forma avassalador que em 2006, a “BBC” criou uma votação para que os britânicos pudessem escolher o melhor momento da sua carreira. E o sujeito do vídeo vencedor foi um improvável pássaro lira.

É um daqueles casos em que é preciso ver para crer. O pássaro, explica Attenborough, é um especialista da imitação. Para impressionar as fêmeas, tenta interpretar a mais bizarra e complicada canção, usando não só os seus sons habituais, mas os de todos os que capta na floresta.

É uma espécie de pássaro gravador, no sentido em que é capaz de replicar na perfeição os sons que o rodeiam, na sua maioria os cantos de outras espécies vizinhas. Mas não só.
De repente, o pássaro lira emite um som bizarro. “É o disparar de uma câmara fotográfica”, nota Attenborough. “E isto é o alarme de um carro.” O segmento termina com a imitação perfeita de uma motosserra.

A poucas semanas do 95.º aniversário, é seguro dizer que não teremos muitas mais oportunidades de admirar novos trabalhos de David Attenborough. É ele próprio quem o reconhece.

“Penso na minha mortalidade todos os dias e não de uma forma mórbida, mas creio que de uma forma mais observacional. De repente, percebo que já me esqueço de alguns nomes, quando há três anos seria capaz de prolongar a conversa o tempo suficiente para me recordar do nome e avançar”, revelou ao “The Telegraph”.

“Percebes que estás a desacelerar”, confessa, apesar de notar que comparativamente a alguns amigos com a mesma idade “que não se lembram de nada” ou “nem sequer andam”, se considera “um tipo sortudo”.

Admite ter vivido “a carreira perfeita”, embora não pense em colocar-lhe já um fim. Isso ficará para o dia em que não consiga acatar os pedidos dos realizadores, como um que recorda e que o obrigou a descer umas escadas por seis vezes.

“No dia em que deixar de conseguir subir e descer as escadas, é o dia em que paro.”

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