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“Pagaram-me dinheiro para eu atirar lama ao Jude Law”

A NiT entrevistou o ator português Milton Lopes, que participa na minissérie da HBO “The Third Day”.
Jude Law é um dos protagonistas de "The Third Day".

É possível que se lembre de Milton Lopes em “Queridas Feras”, “Floribella” ou “A Única Mulher”, novelas em que o português participou. No entanto, o ator de 43 anos nascido em Cabo Verde tem feito carreira sobretudo no teatro — desde 2007 que trabalha na área a partir de Londres, no Reino Unido, em projetos que o levam a todo o mundo.

No início deste mês, estreou o episódio especial da minissérie da HBO “The Third Day” — um capítulo que faz a ponte entre as duas partes da história, “Summer” e “Winter”. Milton Lopes é um dos atores envolvidos. Foi um episódio gravado num único plano durante quase 12 horas e que tem tudo a ver com a história principal deste projeto. 

Jude Law e Naomie Harris interpretam forasteiros em “The Third Day”. Ambos chegam a uma ilha misteriosa e arrepiante na costa do Reino Unido. Este cenário rural e isolado é onde se desenrola a narrativa.

A produção está dividida em duas partes de três episódios. No primeiro trio de capítulos, “Summer”, Jude Law é um homem que vai conhecer os habitantes da ilha e os seus rituais pagãos secretos, que o vão forçar a lidar com os traumas e perdas do passado, tornando-se até difícil de separar a realidade da fantasia. Em “Winter”, Naomie Harris é uma viajante determinada em busca de respostas quando chega à mesma ilha — mas a sua chegada vai mudar as coisas. 

Milton Lopes conta à NiT que o convite para este projeto chegou no ano passado. “Eu tinha feito uma peça de teatro há uns anos que foi muito à conta de improvisação, de participação em grupo e do público. E essa produtora foi trabalhar com uma companhia chamada Punch Drunk, que faz teatro imersivo. E eu recebi um email da produção de ‘The Third Day’ a perguntar se eu queria participar no projeto. Só que eles não adiantaram muita coisa. Depois outra pessoa da Punch Drunk contactou-me a perguntar se eu queria participar e eu continuava a dizer: ‘eu não sei o que é…’ E eles: ‘mas nós não podemos dizer nada, tens de dizer que sim ou que não’. Disseram-me só que era uma cena fantástica, nunca antes feita, e depois de pensar um bocado decidi aceitar, fui ao primeiro dia de ensaios e eles explicaram o que é que iria acontecer.”

Antes da pandemia, quando este projeto começou a ser desenvolvido, a ideia era que o episódio especial fosse um “festival enorme”, um evento separado e diferente, mas ao mesmo integrado na série. “Ia acontecer uma improvisação com uma procissão, estávamos à espera de receber na ilha por volta de 10 mil pessoas. Íamos fazer várias cenas na ilha, caso o público não quisesse ver a procissão ia poder ver outras coisas,  atores a representar. Só que isso não pôde acontecer por causa da Covid. Era para ser em maio e entretanto recebi outro email a dizer que o projeto tinha sido adiado.”

Em 2019, tinham acontecido várias semanas de ensaios para este espetáculo, ao mesmo tempo que decorriam as gravações da série — onde Lopes entrou como figurante. Entre junho e julho deste ano, o ator recebeu outro email, a explicar que o conceito tinha mudado por causa da pandemia. Não era possível concretizar o festival-episódio, mas iam gravar um plano único durante quase 12 horas, sem público presente, que seria o capítulo de ligação entre as duas partes da série.

“Gosto imenso de experimentar, de fazer coisas que nunca ninguém fez ou que eu nunca fiz, e esta companhia é de renome mundial e obviamente senti-me obrigado a dizer que sim. E não me arrependi, claro.” O ator português descreve a experiência como “um bocado insana”. Os ensaios, que duraram duas semanas, com muitas horas por dia, aconteceram naquela ilha deserta no Reino Unido onde se desenrola a história.

“Fomos todos viver para a ilha, depois de fazermos testes, tivemos que nos isolar e viver mesmo como uma comunidade. E ensaiávamos dez horas por dia, quer faça vento, quer faça chuva, quer faça sol, quer faça frio. Sabia que a minha preparação física tinha de ser de alto nível e foi um bocado cansativo, e aconteceram várias coisas de que não estávamos à espera. Houve um ensaio à chuva torrencial, ficámos ensopados. Fomos um bocado às escuras fazer o espetáculo de 12 horas. Havia cenas que fazíamos durante umas duas horas e isso eu conseguia fazer, porque tenho experiência em improvisação, mas depois quando essa cena acabava eu não sabia para onde ir, ficava assim um bocado perdido, tinha de perguntar aos assistentes de direção para onde é que tinha de ir e que roupa é que tinha de usar e se tinha tempo para me secar… Nós fizemos uma cena que foi uma ceia dentro do mar, chamámo-lhes a ‘última ceia’. E a cena era com o Jude Law, tivemos que nos deitar e enrolarmo-nos nele. Quando a cena acabou tive de ir para um sítio onde os atores descansam e tirar a roupa toda para me secar. E depois vestir-me outra vez e ir para outra cena. Foi intenso [risos], mas foi uma experiência única.”

Milton Lopes interpreta um dos discípulos que participam no festival pagão em que a personagem de Jude Law se vê envolvida. As gravações aconteceram nesta ilha britânica de Osea, com uma história e características naturais muito curiosas e particulares.

“É uma ilha que está ligada à terra por uma estrada com milhares de anos, que foi construída pelos romanos. Quando a maré sobe a estrada é tapada por isso não sais da ilha. Só esvazia umas 12 horas depois. Só tens 1h30 para sair e tu vês isso na série. Consegues sair às sete da manhã e às sete da tarde. Quando as gravações acabavam às três da manhã, tínhamos que ficar à espera que a estrada abrisse. Isso traz-te um ambiente surreal, e é uma ilha com imensa história. O produtor dos The Rolling Stones comprou a ilha para eles gravarem álbuns lá, depois tornou-se um centro de reabilitação para pessoas alcoólicas e acho que a Amy Winehouse esteve lá um bocado. E agora aquilo é uma estância de férias. E quando chegas lá é que percebes: por causa desta ilha é que os realizadores quiseram fazer uma história tão estranha. Quando começas a entrar na personagem habituas-te à estranheza da ilha, e quando estás a improvisar tu usas tudo. Tens que descontrair e ligar-te a coisas que te podem ajudar para a personagem, o tempo é muito nublado e chuvoso, vais incorporando isso na personagem, aquela pessoa está a dar-me aquela frase, como é que vou reagir, estás sempre a fazer essas perguntas. Esses foram alguns dos exercícios que fizemos. A pouco e pouco vais-te habituando, a ilha começa a ser a tua casa, os atores começam a ser a tua família e os teus melhores amigos. E as relações começam a ser super intensas, sentes tudo, especialmente quando trabalhas num projeto na altura de uma pandemia. Ficas meses sem ver pessoas e de repente estás numa ilha com 300 pessoas.”

Milton Lopes no centro, ao lado de Jude Law

Milton Lopes admite que estava reticente em relação a trabalhar com Jude Law. “Quando trabalhas com uma pessoa do tamanho do Jude Law, com a fama e o sucesso dele, ficas um bocado apreensivo antes de ele chegar. Como é que vai ser? Ele vai ser acessível ou vai trazer as manias de estrela?”

No entanto, tudo correu da melhor forma. “Quando ele chegou estava super aberto, super feliz por estar connosco, ele adora a companhia. Aliás, foi ele que contactou o diretor da companhia e lhe disse que queria fazer o espetáculo com ele. Ele estava super entusiasmado e na noite em que ele chegou fizemos o ensaio e fomos todos beber um copo, ele disse que nunca tinha feito nada assim antes e que estava super feliz por estar connosco, especialmente depois de ter estado fechado em casa durante seis meses. É aí que tu percebes: ele também estava a passar aquilo que todos estávamos a passar, se calhar numa casa maior [risos], mas podia estar com a mesma vontade de estar com mais pessoas. A coisa foi super acessível, tudo o que lhe foi proposto ele aceitou. Foi super fácil trabalhar com ele, ele deu-nos cena, nós demos-lhe cena. Às tantas deixei de ver o Jude Law como o Jude Law, como a estrela de cinema, e passei a vê-lo como um colega. Como tu, está a tentar fazer o melhor trabalho possível. Então há aqueles diálogos de podemos tentar isto, podemos tentar aquilo, e às tantas propus cenas. Houve uma cena em que temos de o achincalhar, temos de lhe chamar nomes e não sei quê, e fizemos um pequeno ensaio e ele parou e pediu ao realizador: ‘eu preciso de mais. Se eles me estão a enxovalhar, tem de ser mais’. Eu ouvi isso, e quando fizemos outra vez comecei a atirar-lhe lama e a empurrá-lo, e o realizador veio falar comigo a dizer “Fixe, Milton, isso ajudou-o imenso”. E às tantas dás por ti a pensar: eu estou aqui a ganhar dinheiro a atirar lama ao Jude Law. Às vezes tinha esses pensamentos para mim próprio, realmente a minha vida é fantástica [risos].”

Milton Lopes, assim como outros 100 atores que estavam a trabalhar com a companhia de teatro para o episódio especial, tinham algumas falas mas não eram personagens desenvolvidas. O ator português diz que cada ator tentou descobrir e inventar a sua história naquele universo para fazer uma melhor interpretação — sobretudo usando técnicas de improviso, para as quais tinham liberdade.

“Todos os dias era uma descoberta. OK, sou amigo destes gajos, e com eles tenho esta relação. E houve relações que apareceram no próprio dia de filmagens. Resolvi que eu e uma atriz tínhamos uma relação, éramos namorados ou uma coisa assim, numa improvisação. E fomos descobrindo. Há uma cena da rave em que descobri outra relação com outra atriz, estávamos a dançar e a abraçar-nos. Tu tens a tua própria história que segues e os realizadores deixam-te em paz com isso, são 100 atores, ninguém te vai perguntar qual é a tua história. E eu criei a minha. Não dá para ver qual é [risos], mas é a história de um gajo que chega à ilha e que gosta imenso, quer ficar lá para sempre e adora Deus. Está muito feliz por estar lá. Outros atores inventaram nomes fictícios, isso tornou-se um bocado confuso, 100 atores que resolvem dar nomes às suas personagens. Eu decidi não mudar, eu mal consegui decorar os nomes verdadeiros dos atores, quanto mais das personagens.”

Milton Lopes tem 43 anos e vive em Londres.

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