Televisão

“Para Sempre”: a história de um guna que quer (mesmo) saber porque foi abandonado

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa a narrativa da nova novela da TVI, que estreou esta segunda-feira.
Diogo Morgado é um dos protagonistas.

Estreou esta segunda-feira, 8 de novembro, “Para Sempre”, a mais recente novela da TVI. E fui à antestreia, que aconteceu pela primeira vez numa sala de cinema. Estrear uma novela numa sala de cinema é como alugar um Boeing 747 para evitar a greve do metro. Parece-me ligeiramente despropositado, mas como ofereceram pipocas achei ótima ideia.

Considerando o local e os cartazes, julgava que a história tinha alguma ligação ao mundo do cinema, mas afinal não. Percebi depois que a referência tem mais a ver com a estética e a fotografia, que acabam por transmitir uma linguagem cinematográfica, com paisagens incríveis da Serra da Peneda-Gerês.

“Para Sempre” é essencialmente uma história de amor, mistérios e abandono infantil, com Diogo Morgado e Inês Castel-Branco como protagonistas. No primeiro episódio ficámos a conhecer Pedro Valente (Diogo Morgado), um homem abastado e com uma vibe meio mafiosa, que foi abandonado em criança pela mãe, à porta de uma igreja. Até aqui tudo bem, podia ser uma história daquelas clássicas que já nos habituámos a ver em ficção, em que uma sopeira engravidada pelo patrão se vê obrigada a dar o bebé para adoção.

Todavia, neste caso, a mãe, Antónia (Marina Mota), era rica. Certo dia, quando foi à missa, em vez de deixar uma nota de mil escudos no saquinho do ofertório, deixou o pequeno Pedro. A criança foi acolhida pelo prior da igreja, o Padre Malaquias (António Capelo), que é um sarrafeiro no que toca ao futebol mas no fundo tem um bom coração. Anos mais tarde, Pedro recebe um telefonema anónimo de uma mulher que lhe diz que, apesar de o ter abandonado, a sua mãe era rica.

A partir daí o homem fica obcecado em descobrir quem é a sua progenitora e o porquê desta atitude. “Obcecado” é um eufemismo: Pedro está disposto a tudo para saber a verdade, inclusive atirar-se com o carro por uma ribanceira abaixo para poder ir parar à clínica onde nasceu, ficar sozinho num gabinete médico e desta forma poder descobrir mais informações sobre o paradeiro da mãe. Seria mais fácil pagar a alguém para aceder aos ficheiros informáticos da clínica? Sem dúvida. Mas o que temos de perceber — e para isso é que serve o primeiro episódio — é que este homem não faz as coisas pela metade e prefere mandar o seu Mercedes para a sucata e ficar a mancar de uma perna do que continuar sem saber porque é que foi abandonado.  

O que Pedro não sabe, mas irá descobrir, é que a clínica onde nasceu pertence à mãe que, além de ser uma megera abandonadora de crianças, é uma péssima gestora, uma vez que acumula dívidas. Para resolver a situação, Antónia tenta aliar-se a Bento Sampaio de Menezes — um nome que só por si emana aquele aroma a brasão e a tapeçaria de Arraiolos.

Bento (Luís Esparteiro) é pai de Clara (Inês Castel-Branco), a namorada do filho de Antónia, que dá pelo nome de Lourenço (Pedro Sousa). Continuam aí? Boa. Ora, Lourenço namora há vários anos com Clara e decide pedi-la em casamento. Mas Clara acaba por não dar uma resposta. Não porque não goste do namorado, mas porque o seu coração ainda pertence, na verdade, a Pedro. Pedro, esse, que é o quê? Irmão do Lourenço! Ah, como adoro uma boa trama de novela.

É aqui que o episódio faz um clássico flashback e ficamos a conhecer um Pedro adolescente — que, já agora, tem zero parecenças com o Diogo Morgado enquanto jovem — e que era basicamente um mitra que andava a assaltar pitas nas ruas de Braga. Numa dessas tardes, Pedro assalta Clara e o amor acontece. Quem nunca, não é? Os jovens começam a namorar às escondidas e Clara consegue pôr Pedro a trabalhar como trolha numa obra do pai.

O problema é que o Super Pai acabou por descobrir tudo e despediu o rapaz, de um dia para o outro. Como bom guna que era, Pedro não achou piada e começou a barafustar e a ameaçar o patrão, pai da sua namorada. No meio da confusão há outro colega que se mete ao barulho — Pedro atira-o do prédio abaixo. Ora, se nesta fase a possibilidade de Pedro ir a casa de Clara ver um filme alugado na Blockbuster já era muito reduzida, com esta atitude o rapaz estragou o ambiente por completo.

Deparando-se com aquela situação, Bento faz um ultimato a Pedro: “ou ficas com a Clara e vais preso, ou vais-te embora e nunca mais voltas!” Pedro pensou por uns segundos e percebeu que, embora não tivesse de todo a fisionomia do Diogo Morgado, ainda assim era bastante provável que ficasse a apanhar sabonetes na prisão. Decidiu ir-se embora. Clara nunca mais o viu e ficou destroçada porque, além de perder o seu amor, perdeu também o pai do filho que tinha no ventre.

É que Pedro roubou-lhe o telemóvel, mas em troca deixou-lhe um bebé mitrinha na barriga. No entanto, quis o destino que ele nunca viesse a nascer. Agora, trinta anos depois, Pedro regressou e está pronto para ajustar contas, até porque, convenientemente, o crime de homicídio já prescreveu. Será que este amor é mesmo para sempre? Não faço ideia, só fui mesmo pelas pipocas. 

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