Televisão

Passámos o dia n’O Canela e está tudo na mesma — até as baratas

O restaurante de Campolide ignorou todos os conselhos de Ljubomir Stanisic em “Pesadelo na Cozinha”. O peixe continua em cima do balcão e o molho é provado com os dedos do Sr. Manuel, que odiou as obras de remodelação feitas pela produtora.

Manuel Canela recebe os clientes ao balcão

Na zona de churrascos, mesmo ao lado da entrada e com uma janela virada para a rua, estão três grelhas lado a lado. À esquerda está o polvo e as batatas, logo a seguir bifes e depois uma grelha para o bacalhau. Num tacho está o famoso molho (óleo, colorau, louro, alho, laranja, limão, cerveja, vinho do porto, macieira, whisky) que Manuel Canela vai provando com o dedo, com a mesma luva que usa ao longo do dia. Tudo o que não devia acontecer e foi mostrado no último episódio de “Pesadelo da Cozinha” — transmitido pela TVI todos os domingos à noite — continua igual passados quatro meses. No dia seguinte à transmissão do programa, na segunda-feira, 10 de abril, a NiT passou a manhã e o serviço de almoço com a família Canela. 

“É do hábito, são muitos anos”, justifica o dono do restaurante O Canela, em Campolide, em Lisboa, enquanto manuseia carne e tabuleiros com luvas de látex rasgadas nas extremidades, que servem para “evitar as unhas pretas”.

O molho serve para tudo, seja carne ou peixe. Os pratos de barro ou tabuleiros saem para a sala a fumegar e a espirrar óleo. Da passagem de Ljubomir Stanisic e da sua equipa poucas coisas restaram. Até as fardas, com camisas brancas e aventais castanhos, desapareceram.

“Têm de ser lavadas. Eles só deixaram uma muda”, explica Maria Carminda, empregada de mesa e mulher de Manuel Canela. “Vamos encomendar mais, com o nome gravado e tudo”, acrescenta o dono.

São 8h05, hora de ponta, e passaram menos de 12 horas desde da emissão — que teve 1,604 milhões de espectadores. Na Rua de Campolide, com apenas um sentido para cada lado, o trânsito é intenso mas desta vez há um fenómeno novo junto do número 258. Os carros abrandam e alguns quase param enquanto olham para o restaurante de toldos amarelos. O Canela foi o mais recente protagonista de “Pesadelo na Cozinha” e um dos mais impressionantes até agora. Falta de higiene, desorganização e sobretudo baratas, muitas baratas, conviviam neste espaço.

Manuel Canela chega às 8h20 para abrir a porta. Mora apenas dois números abaixo e hoje até se atrasou 20 minutos porque recebeu telefonemas sobre a emissão logo de manhã. A porta nunca fecha — pelo menos até às 22 horas ou, por vezes, até depois das 23 horas. “Há sempre algum cliente que quer um café, alguma coisa”, conta.

Porque é que o peixe está em cima do balcão e não acondicionado? “Assim o cliente, quando entra, pode logo ver o que há”

A primeira coisa que faz é colocar um avental azul por cima da roupa, depois abre a caixa com meia dúzia de bolos acabados de chegar e distribui-os por travessas, que coloca numa vitrine. Uns minutos depois entra um homem para o primeiro café do dia. Cliente há 40 anos, diz que não viu o programa.

“O Canela” começou por ser um negócio de três irmãos. Desavenças e anos depois, um deles, José Maria, dedicou-se a uma carreira na construção civil, e o outro, Bento, morreu em 2005. Foi o filho dele, Nuno, que inscreveu o restaurante em “Pesadelo na Cozinha”, consciente dos problemas e, sobretudo, da teimosia do tio.

“Ele faz as coisas de uma certa maneira há 30 e tal anos e acha que só podem ser assim”, conta à NiT Lina, cozinheira no espaço há quase dois anos.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT