Televisão

“Pecado”: “Não quero imaginar o estado do padre quando fizerem um ano de namoro”

O humorista e cronista da NiT, Miguel Lambertini analisa o primeiro episódio da nova série da "TVI".
A série tem seis episódios.

Não é para me gabar, mas se há alguém que tem propriedade para analisar uma série chamada “Pecado”, sou eu. Não que seja um grande pecador — sou só mediano — mas apenas porque andei num colégio de padres até ao 9.º ano, e pecado era um conceito que estava tão presente como o cheiro a álcool do Padre Nunes, a seguir ao almoço.

Por essa razão, não pude de deixar de ver a estreia desta minissérie da TVI, que conta a história de Santiago (Pedro Lamares), um padre progressista que se apaixona por Maria Manuel (Daniela Melchior) e põe em causa a sua carreira e vocação. Santiago é a antítese dos sacerdotes comuns: é modernaço, gosta de fazer running e tem aquele aspeto de quem podia ser capa da Men ‘s Health, o que o torna um peça fora do lugar. Com as devidas diferenças, é um bocado como o João Ferreira ser do PCP, não bate a bota com a perdigota, mas deixa as devotas embevecidas.

Já Maria Manuel é uma jovem educadora de infância que gosta de andar de carro a abrir e que logo nos primeiros minutos do episódio não só teve um acidente, como ia atropelando o padre Santiago. Eu percebo o road-rage da rapariga, se eu fosse educador de infância provavelmente também andava ao final do dia pela cidade, em modo “Mad Max”, a tentar atropelar pessoas para libertar o stress de ter passado o dia a ouvir criancinhas aos berros.

Quando Maria Manuel chega finalmente a casa, depois de ter causado um caos na principais vias da cidade de Lisboa, em especial à saída para o Aeroporto, desde a zona da Rotunda do Relógio até ao Campo Grande e no sentido Pina Manique-Sacavém, a jovem depara-se com a notícia da derrocada numa pedreira em Estremoz, da qual resultou a morte do bispo de Évora. Maria fica preocupada, não porque seja amiga de D. Carlos, mas porque o seu pai, Horácio (Diogo Infante) é dono de uma pedreira naquela zona e Maria teme que possa ser essa.

Bem dito, bem feito, o progenitor pelos vistos estava mais preocupado em fazer negócios obscuros com italianos do que cumprir as normas de segurança. O problema é que os italianos mafiosos com quem faz negócios obscuros — pensava que eles tinham ficado todos nas séries dos anos 80 do Tozé Martinho, mas afinal não — estão irredutíveis e deram-lhe “48 horas para entregar o material ou entregar o valor equivalente em dinheiro, senão quem paga é a família”. Uma ameaça muito bem articulada num italiano impecável pronunciado por Marcantonio del Carlo, que com um nome maravilhoso destes, já era altura de dar uso à sua ascendência.

Entretanto na diocese, os bastidores agitam-se com o cheiro a sucessão, sendo o nome mais falado para substituir D. Carlos, precisamente o do padre Santiago. Depois de ter sido informado pelo seu superior, interpretado pelo ator (e meu estimado ex-professor) Guilherme Filipe, Santiago decide ir dar uma corrida para desanuviar as ideias. Nesse percurso tem a infelicidade de voltar a cruzar-se com Maria Manuel que, não tendo ficado satisfeita por não o ter passado a ferro de carro da primeira vez, vinga-se e atropela mesmo o prior, com a sua bicicleta. Bem não quero imaginar o balúrdio que deve ser o prémio do seguro desta menina… Não se admira que o pai esteja atolado em dívidas, pois claro.

Com o embate da queda a jovem fica inconsciente e o padre Santiago não vai de modas, rasga-lhe a camisa e começa a massajar o peito da moça, já que como bom padre moderno que é não só domina as técnicas do fitness como as técnicas de primeiros socorros. No entanto, a massagem dura poucos segundos e termina com o padre a levar uma valente bofetada na cara. Pobre coitado, não só ia morrendo atropelado duas vezes como ainda leva por cima. Se este é o nível da relação no primeiro dia em que se conheceram não quero imaginar o estado do padre quando fizerem um ano de namoro. Santiago explica que pensava que Maria Manuel estava em paragem cardiorrespiratória e que não é o violador de Telheiras, mas a rapariga não quer saber e abandona uma vez mais o local do acidente sem prestar contas às autoridades.

Para além de ser um perigo na estrada, Maria Manuel também tem outras ocupações, como por exemplo estar noiva de um rapaz (Lourenço Ortigão). Afoita nos preparativos do casamento, a mãe de Maria Manuel (Dalila Carmo) pediu ao padre Santiago que os casasse e que fosse almoçar à sua quinta a fim de conhecer a noiva. Quando os dois se encontram no salão, o padre Santiago percebe que a jovem que esteve o dia inteiro a tentar matá-lo é Maria Manuel e esta percebe que o indivíduo que pensava ser um campónio taradão é afinal o padre Santiago. Nesse momento os seus olhares cruzam-se e sentimos no ar a expectativa de uma paixão assolapada que termina em fade.

Podia afirmar que fiquei em pulgas para ver o segundo episódio, mas como diria o Padre Nunes, “mentir é pecado”.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

Novos talentos

AGENDA NiT