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“Pesadelo na Cozinha”: almoçámos no 2002 e o Rafael só chegou a meio do serviço — ah e faltou a luz

Mesmo depois dos sermões de Stanisic, o dono do 2002 só apareceu depois da cozinheira lhe ligar.

O staff está menos feliz do que parece.

A bandeira à porta anuncia com pompa o que os clientes podem esperar do renovado 2002: “Agora com muitas novidades”. Não fossem estes aparatos publicitários, talvez tivesse sido bem mais complicado dar com o espaço. Apesar de estar numa localização privilegiada na pequena cidade de Mangualde, precisamente do lado oposto da rua à Câmara Municipal, consegue passar completamente despercebido.

Entrámos à procura das tais novidades, passavam poucos minutos do meio-dia. A primeira surpresa estava logo à entrada, onde seis menus impecavelmente desenhados e pregados em tábuas de madeira estavam expostos. Seriam, certamente, obra de Ljubomir Stanisic, que por ali passou no último episódio de “Pesadelo na Cozinha”, transmitido pela TVI no domingo à noite, 21 de outubro. Antes que conseguíssemos sequer desenhar uma refeição na nossa cabeça, ouviu-se uma voz: “Não ligue a essas ementas. Não são essas”. Esfumavam-se as hipótese de provarmos os apetecíveis rancho à moda de Viseu e polvo à Galega.

Curiosos com a ordem que nos forçava a ignorar as ementas em grande destaque, seguimos a porta na direção contrária à da sala de refeições aparentemente renovada e com as mesas já postas para o almoço. Fátima, a funcionária mais antiga do 2002, havia regressado ao balcão onde ia preparando tudo para o serviço, depois de ter servido o único cliente que ocupava um dos pouco mais de 20 lugares do balcão de madeira que rodeia a sala saída de um cenário dos anos 80. Os pólos com o nome do 2002 ao peito que Stanisic deixou aos funcionários desapareceram e voltaram as velhas fardas.

Neste lado do restaurante não parecem existir vestígios de uma intervenção da produção de “Pesadelo Na Cozinha”. Mantêm-se os traços de uma típica petisqueira à portuguesa: um relógio modesto; uma fotografia de uma equipa de futebol; uma espécie de papel com um padrão Art Deco choca com o desfile de objetos, até a um quadro com James Dean e Marilyn Monroe em cima de uma Harley. E sim, o microondas continua à vista.

Da cozinha ouviam-se os sons e sentiam-se os aromas da comida, já com tudo pronto para começar a servir os pratos do almoço. De repente, a televisão cala-se e as máquinas param. Maria de Fátima, a cozinheira, dá o aviso para a sala e Fátima dirige-se ao quadro elétrico. A luz foi abaixo, tal como aconteceu durante o episódio. Afinal, a potência mantém-se a mesma e nada foi alterado. O serviço continua a ser interrompido pelas quebras – e ninguém parece estar muito preocupado com isso. Numa visita rápida à casa de banho, constatamos que também ali também pouco mudou. Do lado dos homens, o urinol está tapado com um individual de papel onde se lê “avariado”. 

Não foi necessário perguntar pela ementa. Fátima estava ainda a escrevinhá-la atrás do balcão, mantendo a velha tradição que parecia ter sido interrompida pela intervenção do programa. De Rafael, nem sinal. Quatro pratos, três sobremesas e uma sopa compunham o menu de almoço. Num ápice, começaram a chegar os clientes que praticamente encheram o balcão, muitos deles velhos conhecidos. Nenhum preferiu a sala de refeições renovada. A NiT foi a exceção.

Um almoço sem pesadelos

Regressamos à casa partida, o hall de entrada onde brilham os rolos da massa erguidos sobre um banco de paletes que, viemos a descobrir, saiu das mãos do proprietário Rafael Ribeiro.

Já sentados e depois de estrategicamente removermos a cinza de cigarro que ocupava a cadeira, pudemos finalmente escolher os pratos. Uma sopa de espinafres para começar. O aspeto era exatamente o mesmo daquela que foi servida na primeira visita do chef, com um bónus: desta vez havia mais folhas de espinafre a boiar.

A letra de Fátima descrevia o resto das escolhas: o bacalhau à Brás já tinha esgotado, sobrava arroz de polvo, dobrada com feijão e arroz, frango no churrasco, leite creme, salada de fruta e molotov. Todos os pratos a 5€, sobremesas e sopas a 1€.

Qualquer semelhança com a ementa da entrada seria pura coincidência, não fosse o arroz de polvo ser apresentado por Fátima como um prato “à moda do chef”. De Stanisic, supusemos. Mandámos vir.

Arroz de polvo, um dos resistentes da carta do chef.

Os pratos chegaram em poucos minutos. O problema? A sopa tinha ficado esquecida. Atrapalhação resolvida em poucos minutos por Fátima que, por esta altura, já contava com a ajuda do patrão, que chegou pouco antes da uma da tarde.

“Quer o frango com picante?”, importunou simpaticamente Rafael. “Este é especial, é de Angola”, assegurou. O que seria de um bom churrasco sem picante? Um ponto de bónus para a sugestão do cocktail caseiro de jindungo que era, efetivamente, poderoso. Umas tossidelas depois e anotado o rácio certo de picante para uma garfada, conseguimos avançar sem medos. Os menos aventureiros devem ir com cautela: é mesmo picante.

Fora o lapso da sopa, quase tudo correu de forma suave e rápida. O frango cumpriu os requisitos mínimos: a carne razoavelmente húmida e a pele crocante quanto baste e sem vestígios do carvão que o chef obrigou Rafael a retirar da máquina de churrasco. Do outro lado da mesa, o arroz também cumpriu, sem deslumbrar – a culpa foi do polvo que estava um pouco rijo.

Entretanto, já a sala se compunha com mais duas mesas, quando chegou a altura de escolher os doces. Apontamos para o molotov. A cara de Fátima contorceu-se. “Não tem?”, questionamos. “Ter, temos, mas só um bocadinho”. Insistimos para provar. A cara contorce-se novamente, num gesto de hesitação: “Já é de ontem”. Arriscamos e, aqui, a mea culpa: nós quisemos mesmo provar o exemplar que, previsivelmente, estava borrachudo, seco e sem sabor. Fomos avisados.

2002 no nome, 1976 no espírito

O 2002 não foi sempre apenas um snack-bar. Na nova sala funcionou um supermercado, com direito a mercearia e até um talho. Não é difícil chegar a essa conclusão: na decoração ainda resiste um tapete rolante que servia de caixa.

“Quando peguei nisto tive que mudar quase tudo”, explica Rafael. Acabou com o mercado e passou dias seguidos a retocar paredes, chão e tudo a que pudesse deitar a mão. “Antes do programa tinha tudo arranjadinho. Tínhamos só um problema de humidade, mas tentámos resolver quase tudo”.

Mais do que um desafio, o dono do 2002 viu a chegada de Stanisic como uma oportunidade. “Já tinha os reclames encomendados, mas assim que soube que vinham cá cancelei tudo. Deixei que fossem eles a fazê-lo para poupar alguma coisa. Para que é que ia estar a gastar dinheiro?”.

Afinal, tudo não passou de uma ilusão. Confrontado com o resultado final da obra, Rafael não gostou. Nos dias seguintes à passagem da produtora, ainda tentou emendar alguns dos erros que foi apontando. Felizmente, os pneus não voltaram à esplanada, que Stanisic descreveu como uma espécie de “spot de descanso de uma oficina”.

“Nem fizeram acabamentos, foram obras de trazer por casa”, reclama. Nas paredes notam-se os vestígios: pregos por retirar, placas tortas e atabalhoadas. Aponta para uma das paredes visivelmente mais cuidadas, decorada com dezenas de objetos envelhecidos: frigideiras e varinhas mágicas, estatuetas, jarras e panelas.

“Foi isto que fizeram, trazer tralhas e pendurá-las na parede. Isto estava tudo na cave. Dizem eles que eram coisas da minha avó. São só coisas que sobraram do mercado”, justifica de forma mais ou menos resignada. Gostando ou não, a verdade é que a decoração manteve-se.

Vira-se e aponta para os bancos feitos de paletes de madeira e que viajaram da esplanada para a entrada do 2002. “Isto fui eu que fiz tudo com as minhas mãos”.

A entrada da sala – e os bancos feitos por Rafael.

A verdade é que o 2002 é um espaço confuso e os toques modernos – das luzes à pintura da parede, passando pelos (poucos) detalhes decorativos – não chegam para lhe arrancar o ar rústico e envelhecido de um snack-bar que parou algures no tempo. Mesmo a organização da nova sala continua dependente dos pequenos papéis amarrotados, escritos à mão e colados com fita cola, com os respetivos números das mesas. 

Mesmo com todas as contingências, o 2002 encheu pelo menos uma das salas. À saída, um velho cliente da casa já desde a fundação não tinha dúvidas: “Venho cá sempre comer um pratinho. Isto agora até está mais barato do que antigamente. Um prato e um copo de vinho, safei-me com cinco euros”. E esse parece ser mesmo o objetivo de Rafael.

“Estamos num sítio central, tenho que ter preços competitivos. Não podemos servir pratos mais caros que as pessoas não podem pagar”. Mas não foi só o preço que convenceu o dono do 2002 a ignorar as sugestões do chef.

Uma ementa para o lixo

O frango no churrasco, explica Rafael, era uma das grandes especialidades da casa e continua a ser feito na máquina exposta à entrada. A tal que Rafael foi obrigado a limpar durante horas a fio. De perto, dá a sensação de que, afinal, esta pode ter sido uma das lições aprendidas pelo dono do 2002: não se notam vestígios de gordura além da acumulação normal do uso. Já muitos pratos que herdou do avô ficaram colocados de parte e tiveram o mesmo destino que as sugestões de Stanisic. Ou quase todas.

“As moelas ficaram, a receita era bem boa. As pataniscas já tínhamos, só lhes acrescentámos o molho tártaro”, justifica, enquanto nota que o menu de Stanisic “não dava”. “Os meus clientes não são para isso. Ele dizia que a ementa tinha que ter a tradição da terra. O 2002 tem 40 anos e a sua tradição e a sua cozinha, não há como mudar.”

Mesmo que quisesse adotar os novos pratos do chef, Rafael explica que não o poderia fazer, até por não ter meios para os confecionar. Na cozinha tinham um fogão com um bico avariado e que foi trocado pela produção: “Aquilo é uma brincadeira, nem sequer é um fogão industrial. Depois meteu só mais uma fritadeira.”

A tática mudou e é bem simples: não há carta. Os pratos são decididos no dia e se for preciso “mudamos tudo”. “Queremos produtos frescos e só os escolhemos no dia”, avisa. Especialidades como a vitela à Lafões, cabrito e borrego podem sair da cozinha, mas só por marcação. São “pratos caros” e “não compensa fazê-los todos os dias”.

Feitas as contas, uma sopa, dois pratos, duas sobremesas, duas bebidas e dois cafés ficaram-se por uma conta de 8€ por pessoa. Longe de ser uma verdadeira opção económica para uma pequena cidade das beiras, mas pelo menos a comida não é nenhum pesadelo. Quem também não tem pesadelos é Rafael que, pelos vistos, continua a dormir muito e bem. “Ele gosta mais da noite do que do dia”, explicava às tantas Rosa a Ljubomir. Felizmente, o 2002 fecha assim que o sol se põe.

Leia também a reportagem da NiT sobre o 2002 e a entrevista feita a Rafael poucos minutos depois de ter terminado o episódio. 

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