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“Pesadelo na Cozinha”: Paulo acusa Ana de mentir para lhe estragar a vida

O dono do Solmar Canas, nas Caldas da Rainha, revela à NiT vários pormenores que ficaram de fora do episódio da TVI.

Durante as gravações do último episódio de “Pesadelo na Cozinha”, Ljubomir Stanisic perguntou a Paulo Carlos porque é que o tinha chamado ao restaurante, o proprietário respondeu que nunca o convidou, a “TVI” é que tinha falado com ele.  Porém, segundo o dono do restaurante Solmar Canas, a produtora Shine Iberia não gostou da resposta e mandou cortar o plano do programa que foi para o ar este domingo, 8 de dezembro.

“Conhecia o ‘Pesadelo na Cozinha’, mas não me inscrevi. Foram eles que falaram comigo e disseram que tinham feito uma prospeção de mercado e que eu tinha sido um dos selecionados. Vinham aqui para me ajudar e eu aceitei”, conta à NiT.

O Solmar Canas é um dos restaurantes mais antigos e conhecidos das Caldas da Rainha. Nasceu há mais de 35 anos, mas só pertence a Paulo há 12. Contudo, ele recusa-se a falar sobre a primeira gerência. “Já tinha trabalhado aqui. Entretanto, fui para a conhecida discoteca Green Hill. Recebi uma proposta em 1998 para voltar e vim para a cozinha onde aprendi tudo com o dono. Um dia ele fez-me uma proposta e aceitei ficar com o espaço, em conjunto com outra pessoa [que prefere não revelar o nome]”.

Ao início, o restaurante funcionava muito bem. “Mexia aos almoços e jantares, sem problemas. Tínhamos 72 pratos e servíamos muitas açordas de marisco, arroz de tamboril, caril de gambas e fechávamos uma vez por semana, à quarta-feira.” O cenário parecia perfeito, até que o homem de 46 anos percebeu que estava afundado em dívidas.

“Não interessa o historial delas. Há dois anos que as assumo como minhas. Isto foi um trespasse e tenho fornecedores em atraso, entre outras coisas. No total, neste momento, devo 90 mil euros e vou ter de pagá-los”. 

Desesperado, Paulo ficou agradavelmente surpreendido quando a produção da “TVI” entrou em contacto com ele para que o Solmar Canas fosse um dos destaques da terceira temporada de “O Pesadelo na Cozinha”. 

“Eu vivo às custas do meu pai. Não pago água, luz nem renda. Neste momento, o meu interesse é erguer novamente o restaurante. Aqui tenho comida e lá em casa tenho roupa lavada, tudo.”

As filmagens com Ljubo

O proprietário não se recorda com exatidão qual foi a semana das gravações. Aponta para final de setembro, início de outubro, e diz que a Shine Iberia Portugal instalou-se naquele local entre segunda e sexta-feira. “Disse-lhes que precisava de ajuda porque não tinha empregados de mesa e devia 90 mil euros às Finanças. Depois o chef andou aí a fazer umas perguntas no bairro e veio perguntar-me se tinha vícios. Bebi uns copos há uns tempos, mas não passou disso.” 

Quando a equipa chegou às Caldas da Rainha encontrou um restaurante com várias coisas em mau estado. “A cozinha tinha grelhas e bicos dos fogões partidos e o pladur com cabos à mostra. Não acho que estivesse porca. Havia uma parte que não era limpa desde janeiro e tinha muita gordura, confesso. Mas a casa em si estava limpa. O Ljubomir passou a mão no exaustor e estava limpo.”

Em relação à comida estragada, Paulo recusa-se a aceitar que a tinha. Falta de higiene também garante que nunca existiu. “Há uma situação em que dou um espirro na cozinha, mas isso acontece a qualquer um. Há imagens de um balde com feijão preto, mas ele não está estragado.”

Numa das cenas, o chef diz que uns peitos de frango não estão em condições. “Pus logo no lixo, nem os fiz nem nada.”

Paulo assume-se também como o cozinheiro do espaço.

A relação atribulada com a cozinheira Ana

Ao contrário do que aconteceu no restaurante Apple House, de Júlio Gomes de Sousa, Paulo diz que as filmagens foram pacíficas e que Ljubomir “não arranjou problemas” com ele — “Foi cinco estrelas e até fiquei com o número pessoal dele”. A relação atribulada, essa, o proprietário tem há muito tempo com a cozinheira Ana Gomes.

“Ela foi a mais filmada. Chorou e foi a personagem principal. Disse o que queria e lhe apetecia e foi o bobo da corte”, ri-se.

Paulo queixa-se ainda do facto de a produção ter passado mais tempo a falar com a empregada do que com ele. “Enquanto que eu demorava 15 a 20 minutos, a Laryssa [ajudante de cozinha], 10; ela estava com eles uma hora. Falou muito e pensa que fez bem, mas se calhar fez mal.”

Funcionária do restaurante há 14 anos, Ana fala pouquíssimas vezes com Paulo. E quando isso acontece, até chegam a haver berros. O triste cenário é contado em alguns comentários do TripAdvisor:  “Muitos berros de dentro da cozinha, que tem abertura para a sala e torna-se desagradável (…) A falta de respeito tem um peso muito grande. Não voltarei lá nem recomendarei com toda a certeza”, diz uma das críticas.

Em janeiro deste ano, tal como se pode ver durante uma troca de palavras entre os dois no programa, a situação tomou proporções mais graves. “Ela chamou aqui a ACT [Autoridade para as Condições do Trabalho]. Disse que tinha ordenados em atraso e mais algumas coisas. Eles não puderam pegar pelos ordenados porque eu posso dever até três e só devia dois. Contudo, ela come aqui, mas tive de começar a pagar-lhe subsídio de alimentação”, conta à NiT.

Na altura, Paulo confrontou a cozinheira com o sucedido. “Disse-lhe ‘Ana, se eu fosse mau você andava aí a esfregar que nem uma maluca’.” Mas não passou disso. “Não consigo despedi-la. Estou falido. Sabe quanto é que eu teria de pagar em 14 anos de indemnização? Se estivesse no lugar dela já me tinha ido embora. Sou patrão, ela é empregada e não faz o que lhe mando.”

O proprietário acusa ainda a empregada de mentir sobre as horas de trabalho. “Ela tem uma folha de horas e por vezes escreve lá que sai mais tarde. Hoje, por exemplo, saiu antes das três e o horário dela só termina a essa hora. É assim e não se vai embora porque lhe sabe bem receber os 849€ ao final do mês. Se isto se regesse pela lei nova e só contassem três anos já lhe tinha dado 2400€ de indemnização só para não a aturar. Ela já tentou lixar-me a vida muitas vezes”.

Embora ache que Ana é uma pessoa difícil, o proprietário admite que por vezes grita de mais — e isso também não ajuda a manter a casa cheia.

“Esta vida não é fácil. Eu tento gritar cada vez menos, mas amanhã pode voltar a acontecer. Antes berrava para ter um bom serviço de sala. Às vezes a comida estava em cima do balcão mais do que cinco minutos e depois tinha de deitá-la no lixo, não ia para o cliente.”

Ainda assim, diz que é um bom patrão. “Sempre fui bom para os empregados. Eles é que não se apercebem. Fazem sete horas e meia de trabalho por dia, do meio dia às três, três e meia e depois das sete às onze e têm um dia e meio de folga. E ainda se queixam”.

A NiT tentou por duas vezes falar com Ana no restaurante Solmar Canas, mas a cozinheira não quis comentar as acusações de Paulo.

A estranha história das baratas

Logo nos primeiros minutos do programa, quando a “TVI” mostra várias imagens soltas, é possível ver duas baratas dentro do restaurante. Contudo, ao longo do episódio nunca mais existe nenhuma referência a elas.

“Não sei se foi a Câmara das Caldas que mandou ou se foi o elenco do ‘Pesadelo na Cozinha’ que mandou fazer. No primeiro dia de gravações, uns funcionários [da autarquia] vieram pulverizar a tampa de esgotos que está à porta do restaurante. Saíram milhares de baratas dali de dentro.”

Paulo jura que não viu nenhuma dentro do Solmar Canas. Aliás, Ljubomir nem estava lá nesse dia. “Ele só veio na terça-feira e isso foi logo na segunda.” 

Serafim Carlos, pai de Paulo, 76 anos, estava presente naquela situação. “Estava lá ao pé e até tive medo. Aquilo foi uma loucura. Mas eu não vi nenhuma entrar. Aquilo tinha muito veneno”, conta à NiT.

Para mostrar o local exato de onde saíram, Paulo fez questão de abrir a referida tampa — mas não saiu de lá nenhum bicho. O proprietário não acusa ninguém da situação, contudo, diz que a história é demasiado estranha.

“Esta zona nunca foi desbaratizada nem desratizada. Fazerem isso naquele dia é para desconfiar. Uma rua toda limpa e vão lembrar-se de fazer isto?”.

Depois de “Pesadelo na Cozinha”, as coisas ainda não melhoraram

“O chef deu-me muito na cabeça sobre as quantidade que tinha dentro das arcas. Tinha 45 mil euros em coisas. Disse-me para começar a comprar em menos quantidade. Eles compram para o dia, mas eu não consigo. Tenho de ter para mais dias porque não consigo dizer a um cliente que não. Assim tenho sempre margem”, explica.

A carta também não ficou igual. “Ela tinha 72 pratos e o chef deixou-me uma carta muito reduzida. Com a que ele deixou com dois pratos de peixe e outros dois de carne e sem menu diário era para fechar. Voltei a ter a diária económica e dez pratos.”

Os clientes continuam sem aparecer.

Quanto aos empregados, mantém-se Ana e Larysa na cozinha e Paulo, embora também sirva, faz questão de quase sempre preparar os pratos pessoalmente. “Vou contratar agora uma pessoa para servir às mesas. No programa aparece um amigo meu e a mãe, mas só estavam aqui a ajudar”.

Contudo, este novo modelo de gestão não tem sido bem sucedido o suficiente para angariar mais clientes. “Estou a trabalhar muito menos do que antes das gravações. Enquanto eles estiveram cá, as pessoas chegavam à porta, viam as câmaras e ficavam com medo de entrar. Uma casa vai-se abaixo com essas coisas. E depois foi o passa palavra.” Além disso, o aumento dos preços sugerido por Ljubomir também prejudicou o negócio, acusa o gerente. “Há pratos que mudaram de 8,50€ para 10€. As pessoas notam.”

Paulo espera que a opinião dos clientes sobre o espaço seja melhor depois do programa — até porque o problema, diz, nunca foi a qualidade da comida. Além disso, jura que está a fazer de tudo para liquidar as dívidas. 

“Tenho acordos com as finanças e estou a pagar tudo certinho. Tento ao máximo. Vamos ver”.

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