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Pornografia, “Euphoria” e moda: o fenómeno inesperado de Chloe Cherry

A atriz de 24 anos foi resgatada pelo criador Sam Levinson. Estreou-se na série da HBO e já desfilou na Semana da Moda de Nova Iorque.
Ela não deu só nas vistas em "Euphoria"

A cena replica um dos mais célebres enquadramentos criados por Sam Levinson em “Euphoria”. A câmara paira sobre a cama. Na série, deitadas na cama estão Rue e Jules, as duas protagonistas que acabam por se beijar. Na versão alternativa, publicada no maior site de pornografia do mundo, está essa nova versão que parodia o teen drama recheado de sexo, mas nunca tão explícito.

As duas atrizes, com algumas parecenças físicas às protagonistas da série, envolvem-se sexualmente. No papel de Jules está Chloe Cherry. O nome poderá dizer muito pouco aos fãs de pornografia, mas talvez faça sentido para quem assiste religiosamente a “Euphoria”. Cherry é o nome artístico de Faye, precisamente a atriz que conquistou um lugar na segunda temporada da produção da HBO, no papel de uma prostituta toxicodependente chamada Faye.

Faye surge um pouco por acaso, num encontro aleatório dentro de um carro, ao lado da protagonista, interpretada por Zendaya. Foi um súbito encontro com a fama que a transformou num dos símbolos da nova temporada, apesar das poucas cenas ou falas. Porém, sempre que falava, deixava uma marca. Um tom algo cómico num mundo recheado de depressões e outras histórias tristes.

Aos 24 anos, a jovem passou de atriz em filmes para adultos diretamente para um dos maiores êxitos da televisão. Um mundo de diferenças que a levaram a trocar definitivamente de carreira — e até a encontrar umas quantas novas saídas.

Cherry cresceu numa família conservadora da Pensilvânia e fez um pouco de tudo: dançou, fez teatro e chegou a ser agente de uma pequena banda. Hoje, é uma das mais recentes modelos da agência britânica Anti-Agency e fez o seu primeiro desfile em fevereiro durante a Semana da Moda de Nova Iorque.

“[O sítio onde cresci] era muito conservador e aborrecido. Havia muitos Amish, muitas quintas e muitas igrejas”, recorda à “Interview”. “Tinha muita daquela cultura conservadora tipicamente americana de que não gosto nada. Mas também havia lá muitos músicos, uma cena hipster.” 

Tinha apenas 18 anos quando decidiu tornar-se atriz pornográfica. “Sempre me senti muito confortável com a minha sexualidade, adorava sentir o meu poder sexual e excitar as pessoas”, explica. “Estou muito confortável com o meu corpo, tenho orgulho nele, sei quem sou. E adoro fazer merdas que põem as pessoas nervosas.”

Justifica a decisão de seguir a carreira alternativa com a curiosidade pelo sexo, provocada, explica, talvez pela cultura conservadora da abstinência. “Teve muito a ver com o facto de vir de onde venho, de uma zona com muitos amish. Era tudo muito religioso, normalizava-se o facto de ninguém ter sexo antes do casamento. Odiavam o sexo.”

“Ninguém fazia nada e isso lixava-me o cérebro, porque tinha esta ideia de que o sexo era incrível e todos o devíamos fazer”, justifica. “Comecei a ver muita pornografia quando era nova. Queria ver um mundo onde as pessoas efetivamente fizessem sexo, admitissem que é bom.”

A pequena obsessão tem uma justificação mais profunda. “Acho que nunca me teria sentido tão atraída pelo sexo se as pessoas não fossem tão anti-sexo. Era o que me ensinavam na escola, a abstinência e todas estas ideias estranhas.”

Percebeu que era em Miami onde muitos dos sites mais conhecidos produziam os seus filmes. Fez as malas e mudou-se para o sul do país. Acabaria por encontrar um representante conhecido, Riley Reynolds. A sua empresa acabara de aparecer no documentário da Netflix “Hot Girls Wanted”. A relação não foi a melhor.

“Estava sempre a perguntar-lhe se lhe devia alguma coisa e ele não me dizia nada”, recorda do momento em que decidiu trocar Miami por Los Angeles para participar em produções maiores. “Ele esperou que eu viajasse para me dizer que lhe devia uma quantia enorme de dinheiro. Foi muito estranho.”

Foi em Los Angeles que Chloe Cherry se tornou num nome de referência na indústria de cinema para adultos. Rapidamente angariou meio milhão de fãs e os seus vídeos continuam a fazer sucesso nas plataformas porno. Mas nem tudo foi fácil nesse percurso.

Faz de Faye na série da HBO

Apesar dos mais de 200 filmes e 125 milhões de visualizações que angariou, a fama no meio não se refletia no resto do mundo.

“A única coisa que não é lá muito boa nisto é a forma como as pessoas te tratam fora da indústria”, conta. “Perdi imensas amigas porque achavam que eu não devia estar com elas. Os namorados delas diziam que não podiam sair comigo. E elas faziam o que eles diziam, que é a parte mais marada disto tudo.”

O mais difícil, contudo, foi encarar a família. “Eles demoraram a compreender. Não o aceitaram até perceberem que eu estava realmente a ser bem-sucedida. Depois de me verem a trabalhar, apoiaram-me e ficaram felizes por mim. Mas ainda demorou algum tempo.”

Não foi o único desafio de trabalhar em pornografia. Obcecada com o corpo, acabou por se tornar vegan e limitar a dieta, ao ponto de ingerir apenas 200 calorias por dias. “Sentia-me miserável”, recorda. Foi forçada a procurar ajuda profissional e acabaria por deixar as dietas.

Afastada da maioria dos amigos, deixou-se absorver pelo estilo de vida da indústria e começou a acumular “sugar daddies”, homens mais velhos e endinheirados que usavam o seu dinheiro a troco de companhia e, em alguns casos, de favores sexuais. “Tinha uma data deles”, recorda Cherry. “Ter um sugar daddy é quase como namorar, mas estás a fazê-lo por outros motivos, porque eles estão a dar-te algo. Tudo acontece em prol disso.”

O realizador Sam Levinson não é, certamente, um deles, embora Cherry fale dele com um carinho especial. Foi ele que a escolheu para integrar o elenco da série, quando a atriz sofria de “uma estranha crise existencial”. “Não sabia o que fazer com a minha vida.”

Os insistentes rumores indicavam que Levinson teria escolhido Cherry depois de ver a sua paródia pornográfica de “Euphoria”, Cherry explica que não foi nada disso que aconteceu. De acordo com a própria, teria sido uma story que publicou no Instagram que captou a atenção do criador e realizador.

A paródia, aliás, só seria gravada um ano depois de ter sido contratada para fazer parte da segunda temporada da série. Infelizmente, as gravações ficaram em suspenso por causa da pandemia.

Nada sobre a paródia ou a sua carreira na indústria do sexo a chocam ou envergonham. “A minha amiga [com quem contracena na cena] também era uma enorme fã da série. Achámos essa cena entre a Rue e a Jules tão bonita”, conta.

Foi aliás forçada pela pandemia a manter-se ativa na indústria. Com as gravações em pausa, recorreu ao site de conteúdo OnlyFans, onde milhares de fãs pagavam para poder aceder aos seus vídeos.

Um ano antes, em janeiro de 2020, os produtores de “Euphoria” davam início a um casting livre para novas personagens da segunda temporada. Uma das personagens era uma “toxicodependente, stripper que odeia o namorado, está sempre a dizer merda, não tem qualquer tipo de noção e, normalmente, faz com que tudo se torne pior”.

Levinson recolheu todas as audições e currículos, mas o papel estava já orientado para a tal miúda que tinha visto no Instagram. Estava numa visita a casa da família quando recebeu um email a pedir que fizesse uma audição. Bastaram duas audições por videoconferência para que o realizador a convidasse a ir até Los Angeles.

“Eu estava chocada porque ele estava genuinamente excitado por trabalhar comigo”, conta. “A empresa de casting disse: ‘O criador quer mesmo fazer uma audição contigo.’ Fui e ele disse-me que eu era ‘ muito engraçada no Instagram’ e que esperava que eu me saísse bem.”

Acabaria por ser escolhida e, apesar de Faye estar num plano secundário da narrativa, tornou-se num bem-vindo alívio cómico — sem fugir às exigências das cenas mais dramáticas.

“Sempre tive um bom timing cómico [nos filmes porno]”, explica. “Muito do meu trabalho era engraçado e acabei por ganhar alguma experiência. Nesses filmes, só me diziam as personagens e as falas no próprio dia. Imaginam chegar ao set e dizerem-te: ‘Este é o teu meio-irmão e estás zangadíssima com ele. Ok, ação.'”

Sabe-se que “Euphoria” vai voltar para uma terceira temporada. Não se sabe qual o futuro de Faye, mas é bastante provável que regresse. Entretanto, assegura que os seus dias na carreira pornográfica estão definitivamente encerrados. O que a espera? As passerelles, onde desfilou recentemente, em Nova Iorque, para deleite da “Vogue” que se “apaixonou” por Cherry.

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