Televisão

Portugal contra França não foi um jogo, foi uma suruba de nações

O humorista Miguel Lambertini analisa a última partida da fase de grupos do Euro 2020. Portugal joga nos oitavos de final contra a Bélgica.
Cristiano Ronaldo marcou os dois golos.

Depois do último jogo de Portugal contra a Alemanha, pensei que não haveria melhor reality show para ver na televisão do que a prestação da nossa Seleção Nacional no Euro 2020. E não me enganei. O desafio desta quarta-feira teve comoção, contusão, drama, violência física, surpresas e muitos nervos à flor da pele. Foi um jogo impróprio para cardíacos e próprio para merceeiros, já que passámos os 90 minutos agarrados à calculadora.

Durante a partida houve espaço para tudo e a certa altura já ninguém sabia em que posição estávamos. Não foi um jogo, foi uma suruba de nações. Estivemos em primeiro no grupo, depois em quarto, ainda passámos para segundo e acabámos em terceiro, a fumar um cigarro e a perguntar à França “então, foi bom para ti, cherry?”

O jogo começou equilibrado, com Portugal a conseguir gerir alguma posse de bola pelos flancos e a impedir a ofensiva da equipa gaulesa que, como sabemos, joga em 4-3-3 e conta com um triângulo fortíssimo no meio campo. Pronto, agora que já expulsei o Luís Freitas Lobo do meu corpo, vou continuar a comentar o que vi, como o indivíduo que percebe pouco de bola que sou. 

O primeiro grande momento do jogo foi quando o guarda-redes da França, Hugo Lloris, confundiu o Danilo com um daqueles bonecos para treinar artes marciais e aplicou-lhe um golpe de MMA que deixou o jogador prostrado no relvado. Por alguns momentos ficámos todos receosos pelo desfecho daquele embate, mas ao mesmo tempo felizes porque o lance tinha resultado em penalty. O Danilo acabou por sair pelo próprio pé, embora com cara de quem estava ainda a tentar perceber porque é que tinha sido atropelado por um autocarro, e o suspeito do costume posicionou-se para marcar o penálti.

Cristiano Ronaldo inspira, nós sustemos a respiração, o árbitro apita e… bola para um lado, guarda-redes para o outro, é golo de Portugal! Na televisão a realização foca-se na claque portuguesa, onde está, nada mais nada menos do que “Macaco”. O líder dos Super Dragões foi a Budapeste e, como sempre, despiu-se a rigor para exibir a sua imagem de marca: six-pack, panamá na cabeça e óculos escuros. Depois da estátua do Ronaldo e do Rui Patrício, acho que o “Macaco” merecia também um reconhecimento público. É que passar 90 minutos de costas para o jogo a dirigir “ooooooohs” e “lá, lá, lás” não é para qualquer um.

Mas a euforia inicial não foi por muito tempo porque, quase a acabar a primeira parte, Nelson Semedo dá um ligeiro “chega pra lá” a Mbappé na pequena área e o árbitro assinala penálti a favor de França. Benzema não falha e o jogo fica empatado. O árbitro manda toda a gente para os balneários e Ronaldo e Benzema aproveitam para pôr a conversa em dia sobre construção civil, um tema que sempre interessou a portugueses e franceses, “dis-moi, mon ami, comment as-tu construit le marquise, sans permis?”

No segundo tempo, França entrou com tudo e logo ao minuto 46, Benzema volta a marcar, o que faz com que matematicamente Portugal ficasse fora do campeonato europeu. Aqui instalou-se aquele clássico sentimento português de desilusão que habitualmente se traduz na expressão, “fds… já fomos”.

A seleção das quinas tem de marcar e, como dizem os chineses às três da tarde no casino, ainda há muito para jogar. Ronaldo sabe disso e está com aquela cara de quem já resolveu muitas vezes e sabe que ainda é menino para dar a volta à situação. Depois de um cabeceamento forte que sai ao lado da baliza de Lloris, CR7 volta a atacar e num lance seguinte, ao centrar a bola para a área francesa, o defesa toca com a mão na bola e é novamente penálti para Portugal.

Ronaldo ajeita rápido a bola na marca de grande penalidade, inspira fundo mais uma vez, eu bebo o resto da minha cerveja de penálti para dar sorte, e pumba, bola lá para dentro, o maior não falha e Portugal volta a dizer: “sssiiiiiii!”

Entretanto a Alemanha marca à Hungria e Portugal até já pode perder, que se qualifica na mesma. Mas, passado um minuto, ouvem-se gritos de euforia no estádio porque a Hungria marca à Alemanha e volta a mudar tudo outra vez. Ou seja, quem comprou bilhete encomendou no Uber Eats porque teve direito à promo 2 por 1 — compre um jogo e ganhe a emoção de dois em simultâneo.

Entretanto, no meio desta bipolaridade de resultados, ao minuto 67, como quem não quer a coisa, Pogba atira um míssil teleguiado ao ângulo da baliza de Portugal. Rui Patrício sacou do brevet, abriu as asas e com a mão direita evitou o golo de França. Quando acabar a carreira espero que o Benfica contrate o Patrício para substituir a águia Vitória. Foi uma defesa miraculosa de São Patrício que logo depois voltou a defender um remate de Griezmann.

Já no final da partida, Renato Sanches é substituído por Sérgio Oliveira e demora mais ou menos quatro anos para sair do campo, enquanto recebe os aplausos merecidos pela exibição que fez. No tempo em que Renato demorou a sair eu aproveitei para fazer duas máquinas de roupa e entretanto os comentadores da RTP anunciam que o jogo entre a Hungria e a Alemanha acabou, o que significa que Portugal pode relaxar porque já está apurado para os quartos de final. 

Quem aparentemente não recebeu esta informação no auricular foi o selecionador nacional que, com 30 graus de temperatura, continuava de fato e gravata aos pulos e aos berros para dentro do campo, e de repente deve ter achado que estávamos novamente na final do campeonato europeu de 2016. Felizmente essa já passou e já ninguém nos tira. Desta vez não houve traças, empatámos e a luva mágica do Éder foi substituída pela do Rui Patrício. O que importa é que Portugal segue em frente para a fase do “mata-mata” e agora é só manter a atitude de campeão do costume: dizer mal das exibições, sofrer até ao fim e trocar a calculadora por um terço. 

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