Televisão

Prepare-se: a sua televisão vai ser invadida por séries e filmes coreanos

"Squid Game" é apenas a mais recente estrela de um mercado que vai receber um investimento recorde da Netflix.
Eles estão imparáveis

Num mês, o impensável aconteceu. Uma produção numa língua que não o inglês foi escalando o ranking das mais vistas e, degrau a degrau, o improvável começou a tornar-se plausível. “Bridgerton” foi destronado e “Squid Game” coroado com o título de conteúdo mais visto de sempre na Netflix.

A fórmula genial que rompeu os padrões de domínio quase total dos conteúdos americanos e europeus, pode parecer obra do acaso. Mas não é. Para os mais atentos, a ascensão de “Squid Game” é apenas mais uma vaga da chamada onda coreana — que começou por conquistar a Ásia e que, sorrateiramente, se introduziu noutros mercados. Até que, finalmente, chegou às televisões ocidentais.

A série da Netflix está longe de ser um fenómeno único. Em 2019, o filme “Parasitas”,  de Bong Joon Ho surpreendeu o mundo ao vencer quatro Óscares — o de Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Realização, Melhor Argumento e Melhor Filme — e tornou-se no primeiro filme de língua estrangeira a conquistar o prémio na principal categoria.

Não é só no cinema e na televisão que o fenómeno coreano floresce. Os BTS, a boy band do momento, tem batido todos os recordes e aos milhões de seguidores juntam-se as proezas nas tabelas de vendas.

Tornaram-se, por exemplo, na terceira banda que nos últimos 50 anos conseguiu ter três temas no topo da tabela da Billboard em apenas um ano. Os outros nomes que o conseguiram? Os Beatles e os Monkees. Em 2012, outro nome coreano corria o mundo: Psy e o seu épico Gangnam Style.

De volta ao cinema e à televisão, a origem da onda coreana remonta aos anos 90. À medida que o país se foi abrindo ao exterior e lançando cada vez mais produções, os primeiros sucessos aconteceram nos territórios vizinhos, onde os ambientes e temas mais familiares conquistaram os mercados chinês e japonês.

Bong Joon Ho fez história nos Óscares.

A explosão dos dramas coreanos ou K-Dramas, como são conhecidos, aconteceu de forma sustentada. E, ao contrário do que o nome indica, não eram apenas dramas. Os títulos percorrem todos os géneros, do romance ao terror, dos dramas históricos à ficção-científica.

À semelhança das produções de Hollywood, havia dinheiro para investir e isso traduzia-se em cenários e técnicas elaboradas que em nada ficavam a dever aos filmes e séries ocidentais.

Muito antes de “Parasitas”, já “Winter Sonata” fazia sucesso entre os japoneses. O romance atraiu 20 por cento dos clientes dos cinemas. Bae Yong-Joon, o protagonista, tornou-se num sex symbol instantâneo. Seguiram-se muitos outros títulos que espalharam a influência coreana por toda a Ásia, com destaque para “Jewel in the Palace”, uma série dramática histórica de 2003 que foi exportada para mais de 90 países e que rendeu, a nível global, mais de 80 milhões de euros.

Da Ásia, a onda coreana navegou até ao Médio Oriente, onde “Jewel in the Palace” também foi um êxito estrondoso, sobretudo no Irão. Seguiram-se países como Egito, Iraque, Qatar ou Arábia Saudita. Até na América Latina as produções coreanas conquistaram espectadores, com as séries dramáticas a rivalizarem com as tão tradicionais telenovelas.

Depois veio a tempestade perfeita. Se as séries coreanas tinham encontrado o seu nicho através da plataformas como a DramaFever — criada pela Warner Bros e descontinuada em 2018 — que exibiam em streaming todas as produções com legendas em inglês, a explosão de plataformas como a Hulu e a Netflix criaram condições para o tsunami.

O sucesso de “Parasitas” renovou o interesse ocidental no cinema e televisão coreanas.  Outro exemplo de sucesso é “Crash Landing on You” — uma série que conta a história da herdeira de uma família rica que, depois de um acidente de parapente acaba por aterrar para lá da fronteira, na Coreia do Norte, onde se apaixona por um militar norte-coreano. Se na China o derradeiro episódio foi visto por mais de 460 milhões de pessoas — afluência que fez com que o site da plataforma de streaming avariasse — e também se revelou um sucesso no ocidente, sobretudo nos Estados Unidos.

A série acabaria por conquistar um improvável lugar em muitas listas dos melhores dramas estrangeiros de 2020 e esteve no topo dos mais vistos na Netflix americana durante uma semana.

As marés corriam de feição e, de acordo com a Netflix, em 2020 etambém à boleia da pandemia, o consumo de séries coreanas quadruplicou na Ásia. No cinema, o surgimento de outro sucesso pós-Parasitas reforçou o interesse pela cultura sul-coreana. Apesar de “Minari” não ser uma produção asiática, foi escrita por um filho de imigrantes coreanos e foca-se na história semi-autobiográfica do autor e retrata a realidade de uma família imigrante numa localidade rural norte-americana.

Falado essencialmente em coreano, somou seis nomeações para os Óscares e arrecadou a estatueta para Melhor Atriz Secundária, entregue a Yuh-Jung Youn.

A Netflix serviu de ponto de viragem. Sempre atenta a fenómenos de popularidade, mesmo que locais, a plataforma anunciou em fevereiro que em 2021 iria investir perto de 430 milhões de euros em produções sul-coreanas — um valor exponencialmente maior face aos 600 milhões investidos nos últimos cinco anos. Contas feitas, a Coreia do Sul receberá metade de todo o investimento feito pela Netflix no continente asiático.

As produções coreanas tiveram também que se adaptar da plataforma de streaming norte-americana que já pôs o seu nome em mais de 80 filmes e séries. Ao contrário do que acontecia até então, as produções começaram a abandonar o formato de minissérie com apenas uma temporada. Adaptaram-se ao modelo de sucesso ocidental da Netflix e começaram a perceber que, em certos casos, é mais rentável produzir novas temporadas ao invés de arrancar com um novo projeto.

Em Portugal, o catálogo de filmes e séries coreanas é cada vez maior. Atualmente são mais de 114 títulos — 23 filmes e 91 séries — que podem ser vistos integralmente traduzidos, à distância de um clique.

O sucesso “Crash Landing on You” e os seus 16 episódios é um deles. E”Kingdom”, a série de terror que retrata um apocalipse zombie no século XVII, é outro dos destaques mais recentes. Mas há mais.

O premiado filme de 2017 “Okja” de Bong Joon Ho — com Tilda Swinton e Paul Dano — é mais um dos tesouros  ocidentalizados e disponível na plataforma. “Lucid Dream” é outro filme a não perder: lançado em 2017, dá ares ao filme “A Origem” de Christopher Nolan. Nele, um jornalista que investiga o rapto do filho, vários anos depois do desaparecimento, aposta numa terapia experimental de sonhos lúcidos para tentar descobrir o paradeiro da criança.

“Tune in for Love” é um drama romântico ao bom estilo de “Crash Landing For You”, mas que arranca na crise financeira dos anos 90 e conta a história do amor de dois adolescente à medida que os anos passam. Difícil é não encontrar um filme ou uma série para todos os gostos. E ao que tudo indica, o catálogo coreano da Netflix não vai parar de aumentar.

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