Televisão

Presidente da Junta considera “inaceitáveis” filmagens noturnas da Netflix na Baixa

A NiT entrevistou Miguel Coelho, que não é contra as gravações — mas alerta que não podem ocorrer desta forma.
Vai haver uma sequência de ação no Terreiro do Paço.

Esta segunda-feira, 21 de fevereiro, a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, em Lisboa, alertou a população para uma situação que acontecerá no mês de julho no centro histórico da capital portuguesa. A Netflix vai gravar um grande filme de ação na Baixa — e isso poderá condicionar a vida dos moradores.

Ao que a NiT apurou, o projeto será uma longa-metragem de grande orçamento, que deverá ser produzido (e talvez protagonizado) por uma atriz israelita de renome. Está prevista uma grande sequência de ação no Terreiro do Paço.

“O executivo da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior manifesta a sua apreensão e oposição face à possibilidade de ocupação abusiva do espaço público prevista num plano de filmagens noturnas apresentado pela produtora Ready to Shoot, numa produção para a Netflix, pelo impacto negativo que estas filmagens — oito noites seguidas e dois dias – causarão na qualidade de vida, no direito ao descanso e tranquilidade e no direito à mobilidade dos moradores das zonas contempladas”, pode ler-se no comunicado divulgado esta segunda-feira.

E acrescenta: “Estas filmagens, previstas para o mês de julho próximo, no horário compreendido entre as 18h e as 8h do dia seguinte, durante as já referidas oito noites seguidas, recorrendo a efeitos de fogo, armas de fogo, colisões entre automóveis, perseguições com automóveis e motociclos, perseguições de motociclos pelas escadas e escadinhas dos bairros e outros diversos efeitos especiais na Baixa, Chiado e Mouraria, não deixarão de provocar um grande incómodo para a população residente, sobretudo para as famílias com crianças e para os idosos”.

A Junta de freguesia diz ainda que “está em causa o direito ao descanso dos moradores, assim como os direitos de circulação, acesso e estacionamento, em consequência da ocupação massiva que as filmagens acarretam”.

A NiT entrevistou o presidente da Junta de Freguesia, Miguel Coelho, sobre este assunto.

Quando é que a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior soube destas filmagens?
Em outubro, a produtora pediu para ser recebida por mim numa visita de cortesia para me informar que iam fazer estas filmagens — e também para dar detalhes sobre as mesmas. Agradeci, mas disse que achava muito difícil poder simpatizar com o plano previsto. Não poderia aceitar que aquilo decorresse como eles estavam a pensar. A coisa ficou por aí. Já este ano, houve uma reunião na câmara, para a qual foi convocado o senhor vereador da cultura, que não apareceu. Portanto, esta reunião, da minha parte, ficou por concretizar porque ia disponível para falar com o senhor vereador. E não aconteceu mais nada. Por isso entendi, enquanto presidente da Junta, que deveria alertar a população da freguesia, sobretudo da Baixa e do centro histórico, que, não tendo eu competências para proibir as filmagens, elas iriam decorrer se não houvesse uma reconsideração. E iriam ser certamente negativas.

Tem ideia de quando é que a câmara aprovou estas filmagens e este plano?
Não tenho. Presumo que as coisas funcionem assim: primeiro concordam com o projeto, depois faz-se a aprovação ao pormenor. Isso é como normalmente as coisas deverão decorrer. Aquilo que me preocupa é que, o plano como está, implica oito noites seguidas de filmagens, mais dois dias, em para Santa Maria Maior — e isso para mim é inaceitável. Como sabe, uma filmagem é um processo logístico muito complexo, muito grande, muito invasivo, são uma data de pessoas — técnicos, assistentes, câmaras, luzes, som — à noite, irá fazer muito barulho. Trata-se de um filme de ação, ao que me parece, com cenas de perseguições de motas, escadas acima e abaixo. Tem simulações de fogo, de tiros, colisões entre viaturas. Isto de noite, para mim, não é aceitável que possa acontecer durante oito dias seguidos. Tem de se encontrar aqui uma forma… Não sou contra as filmagens, percebo a importância de uma super produção desta envergadura, mas tem de se encontrar uma forma que não sacrifique Santa Maria Maior e não transforme a freguesia num estúdio cinematográfico ao vivo. Isso não posso aceitar. Isto vai transtornar o dia a dia das pessoas — ou a noite —, vai fechar ruas, vai ser caótico em termos de barulho, som. Tem de se encontrar uma solução que seja aceitável para todos.

Que soluções lhe parecem viáveis?
Como deve calcular, a câmara já marcou uma reunião, como reação à minha posição. E, portanto, não me parece bem estar agora aqui a dizer quais são as soluções, até porque não me compete a mim apresentá-las. Compete-me defender os interesses das pessoas que aqui residem. É com essa perspetiva que irei à reunião, sendo certo que se é um processo de negociação terá que haver cedências de parte a parte e tenho, de facto, uma baliza à partida — oito noites de filmagens é impensável. 

Especialmente consecutivas?
Sim, especialmente consecutivas, mas também não estou a ver como é que uma produção possa fazer uma noite por mês. Isso também é impensável. Tem de se encontrar aqui uma solução e estou disponível para ouvir e, na altura própria, porventura fazer sugestões em relação à minha freguesia.

Desde a publicação do comunicado esta segunda-feira, tem tido reações por parte dos habitantes da freguesia?
As pessoas que aqui residem manifestaram solidariedade. Muitas até me agradeceram pessoalmente esta atitude. As pessoas que não residem aqui naturalmente encaram isto de outra perspetiva, que também compreendo: uma perspetiva crítica. Pensam que devia ser possível, que seria muito importante. Aceito esta argumentação, mas tenho muita pena, elas não moram cá. E quem sofre com estas coisas são as pessoas que aqui moram. O argumento de que moram poucas pessoas não é válido. Nem que morasse só uma pessoa, o meu dever era tentar protegê-la. Na zona onde vão decorrer as filmagens tenho cerca de 3500 habitantes. São pessoas que quero preservar, não são pessoas que quero que saiam daqui, porque a qualidade de vida baixou muito. E, nessa perspetiva, percebo que quem não mora, ache estranho que haja um presidente de Junta que queira impedir uma produção da Netflix — que ainda por cima está muito na moda —, mas quem mora aqui compreende, porque tem passado as passas do Algarve com muitas coisas relativas à perda de qualidade de vida e do ruído noturno.

Por outro lado, já disse que apesar de todos os problemas que poderá causar, a existência de uma produção destas também pode trazer vantagens. Que vantagens é que vê neste projeto, à partida, para a cidade de Lisboa?
Não sei quais são as vantagens em concreto, a não ser a visibilidade. Embora Lisboa seja uma das cidades mais visíveis do mundo. Não é por acaso que nós ganhámos não sei quantos prémios internacionais de melhor destino turístico. Visibilidade não é o que nos faltará. Mas certamente que poderá trazer vantagens. Agora, na perspetiva de Santa Maria Maior, e sou o presidente da Junta, este plano de filmagens… As dificuldades e os incómodos que vão trazer às pessoas que aqui residem, na minha perspetiva, são inaceitáveis. É com essa base que parto para as conversas que vou ter que ter e que já estão marcadas com a câmara municipal de Lisboa.

Independentemente de quaisquer vantagens, considera o plano inaceitável.
Este plano é inaceitável. Não estou com uma postura de o inviabilizar completamente, mas, enfim, oito noites seguidas de filmagens noturnas — ou seis noites e depois um intervalo com mais duas a seguir — não são aceitáveis. Portanto, não poderão ter a minha concordância. Em matéria formal, não é a Junta que decide se as filmagens podem ou não decorrer — é a câmara. Agora, cada um tem de ser responsabilizado perante aquilo que autoriza ou não, e também pela consideração que tem ou não pelas pessoas que moram no respetivo território.

As juntas de freguesia costumam ser consultadas, antes da aprovação por parte da câmara, para este tipo de projetos?
Em princípio, deverão ser consultadas. Esta Junta tem sido consultada, embora também já tenhamos detetado uma ou outra situação em que não nos consultaram. O nosso parecer não é vinculativo — se calhar deveria ser —, é uma consulta apenas formal, mas neste caso concreto ainda não teve lugar.

A câmara foi demasiado permissiva ao aprovar logo o projeto com este plano?
Não sei se a câmara já aprovou o projeto ou não. Aprovou a ideia. Considero que um projeto desta envergadura deveria ser trabalhado previamente com os responsáveis políticos no terreno. Não pode ser uma decisão de uma só entidade. Tem de envolver, naturalmente, todas as partes. E Santa Maria Maior não foi envolvida, sendo que, do que sei, vai será o palco principal de todas estas filmagens.

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