Televisão

A primeira tentativa de criar “A Guerra dos Tronos” foi um autêntico desastre

A série da HBO que se tornou um fenómeno celebra este sábado o décimo aniversário desde a estreia. Mas esteve para ser cancelada.
Emilia Clarke não era a Daenerys original.

Pode parecer que foi ontem, mas foi precisamente há dez anos — a 17 de abril de 2011 — que “A Guerra dos Tronos” estreou na HBO. A série de fantasia baseada nos livros de George R. R. Martin viria a tornar-se no maior fenómeno da cultura pop da década. Venceu prémios atrás de prémios, conquistou milhões de espectadores e representou até uma mudança no paradigma da indústria: a valorização da televisão face ao cinema.

O que muitos fãs não sabem é que, antes de haver “A Guerra dos Tronos” que todos conhecemos, houve uma tentativa de fazer a mesma série que correu terrivelmente mal. A história que contamos hoje na NiT é o desastre do primeiro episódio piloto, que a HBO descartou quando viu.

As gravações começaram em 2009. Os criadores da série, David Benioff e D. B. Weiss, estavam a trabalhar no projeto há quatro anos. Pelo meio tinha havido dezenas ou centenas de reuniões com a HBO, negociações, reescritas do guião e contratações de equipa e elenco. Benioff e Weiss nunca tinham gerido uma produção deste género — quanto mais desta escala. Grande parte da equipa técnica estava na mesma situação.

“Ninguém sabia o que estava a fazer ou o que raio isto era”, conta o ator Nikolaj Coster-Waldau, que na série interpretou Jaime Lannister, no livro “Fire Cannot Kill a Dragon: Game of Thrones and the Untold Story of the Epic Series”, sobre os bastidores da série de televisão.

“Durante a chegada do rei Robert, eu lembro-me de achar tudo aquilo ridículo. O absurdo de fazer este universo paralelo com estes homens muito nobres. É uma linha muito ténue entre ser sério e acreditarmos nisto ou sermos apenas cosplayers. Certamente não havia qualquer sensação de que isto ia ser um game-changer. Mas divertimo-nos”, acrescenta o ator.

No mesmo livro, Mark Addy, que interpretou o rei Robert, explica que na cena em que chega a Winterfell ninguém se ajoelhou perante o rei. E alega que isso dava alguma falta de credibilidade à sua personagem — quando o episódio foi regravado, todos se ajoelharam.

Havia alguma falta de compreensão sobre a história. Por exemplo, os atores não estavam a reagir da melhor forma na cena em que se deparam com os lobos. “Ninguém os viu em milhões de anos! Isto é como ver dinossauros! Não é como encontrar cachorros!”, teve de gritar o produtor Bryan Cogman.

Algumas das coisas que tiveram de mudar teve a ver com os adereços, que muitos atores achavam ridículos no primeiro episódio piloto. “Eu parecia uma rapariga de espetáculo de Las Vegas, com roupas de pêlo e um cabelo enorme, parecia uma Dolly Parton medieval”, contou Lena Headey, que fez de Cersei Lannister. As feridas na cara de The Hound, por exemplo, também eram visualmente mais agressivas. E Peter Dinklage (o ator que faz de Tyrion Lannister) tinha um cabelo mais loiro.

As cenas de Winterfell foram gravadas na Irlanda do Norte, mas as coisas ficaram ainda piores nas filmagens em Marrocos. Era numa paisagem árida do norte de África que a equipa estava a gravar as cenas de Essos, em que Viserys Targaryen vende a irmã, Daenerys, ao líder dos Dothraki, Khal Drogo, para ser a sua esposa. Curiosamente, o escritor George R. R. Martin esteve presente nesse momento do episódio piloto original, e até fez de figurante.

As cenas em Winterfell foram gravadas na Irlanda do Norte.

“Eu tinha uma peruca diferente”, recorda no mesmo livro o ator Harry Lloyd, que interpretou Viserys. “Era de titânio e prata, e era mais curta. Olhando para trás, foi um erro. Havia várias dúvidas: ‘Não sou como o Draco Malfoy, não sou o Legolas… como é que fazemos isto?’”

“De algumas formas a coisa estava mal feita, e ninguém tinha grande confiança. Como nesta versão o casamento foi gravado durante a noite, muito dinheiro tinha sido gasto para ver absolutamente nada”, conta Iain Glen, que fez de Jorah Mormont em “A Guerra dos Tronos”.

A noite de núpcias também foi muito diferente. Na versão que todos vimos, Daenerys é violada por Khal Drogo, já que ela não quer estar naquele casamento arranjado. Mas no livro não é violação — há uma cena anterior que os mostra a criar uma ligação — e também foi assim que tentaram filmar com a atriz que no episódio piloto original interpretava Daenerys, Tamzin Merchant.

“É sedução”, contou o próprio George R. R. Martin. “Dany está um pouco assustada mas também entusiasmada, e Drogo está a ser mais considerável. Eles amarraram os cavalos às árvores e há uma cena de sedução ao pé de um ribeiro. Jason Momoa e a Tamzin estão nus e a ‘fazer sexo’. E de repente o tipo da câmara começa a rir-se. A égua que ali estava afinal era um cavalo, e estava a ficar visualmente excitado ao olhar para aqueles dois humanos juntos. E enquanto eles estavam lá havia este cavalo com o seu enorme pénis. Isso não correu muito bem.”

“Eu mostrei aos meus cunhados para ver a reação deles. E conseguias perceber, ao olhar para a cara deles, que eles estavam aborrecidos”, explica David Benioff. Um dos problemas mais citados pela HBO é que o episódio piloto tinha falta de profundidade. Era suposto ser uma produção épica de fantasia, e parecia algo pequeno, com um orçamento reduzido, sem aproveitar da melhor forma os cenários exóticos.

“Contratámos o melhor figurinista e o melhor diretor de arte, gravámos na Irlanda do Norte e em Marrocos, e via-se muito pouco. Lembro-me da frase circular: ‘Podíamos ter gravado isto em Burbank [em Los Angeles]’”, diz no livro Michael Lombardo, que na altura era o responsável pela programação da HBO.

“Um cabecilha na HBO disse: Porque raio tivemos de ir para Marrocos? Não se consegue ver nada à frente, podíamos ter gravado num parque de estacionamento”, recorda o ator Iain Glen.

A certa altura, David Benioff e D. B. Weiss também queriam cortar um dos irmãos Stark da narrativa, o segundo mais novo, Rickon, mas George R. R. Martin convenceu-os a manterem a personagem, porque tinha planos para ela.

Quando fizeram testes e mostraram o episódio piloto a alguns espectadores selecionados, as pessoas também não perceberam que Jaime e Cersei Lannister eram irmãos — por isso também não compreendiam porque é que Jaime tinha empurrado Bran Stark da janela da torre em Winterfell. A história, os diálogos, os cenários, o tom da série, tudo estava a ser colocado em causa.

O que salvou a série, explica Lombardo, é que Benioff e Weiss não chegaram às reuniões a explicar como o piloto estava incrível e que a HBO devia apostar nele. Pelo contrário. Os showrunners apontaram tudo aquilo que achavam que estava mal e adotaram uma postura de tentar perceber o que podiam melhorar, o que era preciso mudar, para que a série funcionasse. “Estávamos todos na mesma página de: onde todos queremos estar é alguns níveis acima disto”, diz Weiss no livro. Na altura, a HBO já tinha gasto dez milhões de dólares (o equivalente a mais de oito milhões de euros) numa série que poderia nunca acontecer. 

Quem teve a decisão final de continuar com a série foi o CEO da HBO, ex-co-presidente, Richard Plepler. “Conseguias ver que alguns dos atores e parte da narrativa estavam fora do sítio”, recorda Plepler. “Precisava de ser resolvido, precisava de ser regravado. Mas conseguias perceber o quão envolvente aquilo podia ser, emocionalmente. Podias sentir que havia ali magia.”

A HBO encomendou então dez episódios de “A Guerra dos Tronos”, incluindo a regravação quase total do episódio piloto. Vários elementos da equipa técnica foram substituídos. O realizador Tom McCarthy (que anos mais tarde iria dirigir “O Caso Spotlight”) foi trocado por um veterano da HBO, Tim Van Patten.

Entretanto, a atriz Jennifer Ehle, que ia interpretar Catelyn Stark, decidiu que não se queria mudar para a Irlanda do Norte. Então também foi substituída, neste caso por Michelle Fairley. Tamzin Merchant abandonou o papel de Daenerys Targaryen, que ficou para Emilia Clarke.

“Todos sabíamos que a jornada de Daenerys era essencial. E as cenas dela [Tamzin Merchant] com o Jason Momoa não funcionavam”, recorda Michael Lombardo. 

“[Tamzin Merchant] era ótima”, diz, por sua vez, Jason Momoa. “Não sei porque tudo foi feito assim. Mas quando a Emilia chegou foi quando se deu o clique para mim. Eu não estava mesmo ‘lá’ até ela chegar.” Várias fontes alegavam que não havia química entre a dupla original.

Tamzin Merchant tinha 21 anos quando as filmagens começaram — e só em janeiro deste ano, numa entrevista à revista “Entertainment Weekly”, é que abordou publicamente este tema.

“Gravar aquele piloto foi uma grande lição. Foi um reforço para acreditar nos meus instintos, porque tentei voltar atrás naquele trabalho, durante as negociações de contrato, mas fui convencida por pessoas muito persuasivas a ficar. E depois dei por mim nua e com medo em Marrocos e a cavalgar um cavalo que claramente estava muito mais feliz por ali estar do que eu.”

E acrescenta: “Eu não tinha qualquer formação como atriz, simplesmente confiava nos meus instintos. E o que me entusiasma e me move são histórias cativantes. Para mim, ‘A Guerra dos Tronos’ nunca foi isso. A Emilia Clarke tornou aquele papel icónico — obviamente ela estava entusiasmada por contar aquela história, e foi épica e excelente.”

Embora seja comum haver trocas de elenco após a gravação de episódios piloto, neste caso Tamzin Merchant assistiu de fora à construção de uma das maiores séries de sempre, depois de ter estado diretamente envolvida.

“Era divertido apanhar o autocarro para ir a castings e ter a cara da Emilia Clarke num anúncio no autocarro”, contou a britânica na mesma entrevista, mostrando-se resolvida em relação ao seu passado, e até grata por ter tido oportunidade de explorar uma carreira diferente.

Apesar de tudo isto, George R. R. Martin gostou do episódio piloto original. “Eu gostei do piloto. Mais tarde, apercebi-me de que eu não era a pessoa certa para julgar porque eu era demasiado próximo do material”, diz o autor, acrescentando ainda que tem uma cópia do primeiro episódio piloto, mas que está completamente proibido de o mostrar a quem quer que seja. “Fico sob pena de morte se algum dia mostrar isto a alguém [risos].”

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