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“Príncipe William ou Príncipe Harry”? Para quem não queria escolher, Meghan até acertou

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa a nova série documental da Netflix sobre Meghan Markle e o Príncipe Harry.
Harry e Meghan estão por trás do documentário.

“Príncipe William ou Príncipe Harry?” É aquele tipo de perguntas difíceis que ninguém quer responder, tipo “brócolos ou couve-flor”? Hum, venham de lá essas batatas fritas de pacote. A própria Meghan Markle teve dificuldade em optar quando uma jornalista lhe fez esta mesma pergunta, num vídeo que aparece nos primeiros minutos do novo documentário da Netflix, “Harry e Meghan”, cujos primeiros três episódios foram lançados esta quinta-feira, 8 de dezembro.

Muito a custo, a atriz lá acabou por se inclinar para a proposta da jornalista: “Ok, Harry…” Mal sabia ela que o destino os iria juntar um ano mais tarde. Parece a sinopse de uma novela da TVI mas, nesta história, o destino chama-se Instagram, já que foi através da rede social que Harry conta que conheceu a sua mulher. Daí até aos primeiros beijinhos de língua real foi um instante e aquilo que podia ser uma clássica história de stalking digital tornou-se num conto de fadas. 

Só que, como em todos os contos de fadas há ogres e bruxas más, também este não foge à regra — mas isso é algo que só descobriremos mais adiante. Comecemos pelo princípio. O inglês e a americana falaram de tudo e mais alguma coisa no chat e um dia marcaram um jantar num pequeno restaurante em Londres. Harry chegou meia hora atrasado e Meghan já estava a achar que ele era um convencidão, mas depois percebeu que o seu date estava muito envergonhado e achou adoráveis as bochechas encarnadas de H. 

Sim, um detalhe importante, Harry e Meghan tratam-se um ao outro por H e M, como se fossem personagens de um filme do James Bond, o que é giro porque dá um certo dramatismo à história e porque na verdade Harry, tal como Bond, também é oficial das forças armadas britânicas. Sendo que, neste caso, se o príncipe quisesse replicar a icónica frase de 007, talvez não funcionasse tão bem: “The name’s Sussex… Henry Charles Albert David, Duke of Sussex”. Não tem tanto charme, certo?

Depois de dois jantares que correram muito bem, os duques quiseram fazer uma primeira escapadinha em conjunto. Um casal normal tinha ido a Paris, a Nova Iorque, quiçá Armação de Pêra, mas este não é de todo um casal normal. Por isso, Harry propôs à sua nova namorada que passassem uns dias a viver numa tenda no meio da savana do Botswana, “onde não havia casa de banho, nem espelhos”. 

Pensando nisso, ainda bem — porque não há nada que fortaleça mais uma relação do que ver um parceiro sem tomar banho há três dias, com aquele cabelo à Abel Xavier se tivesse apanhado um choque a desligar as luzes da árvore de Natal. Meghan conta que teve medo porque numa das noites apercebeu-se de que estava um elefante a alimentar-se por cima da tenda deles, mas Harry protegeu a sua amada e tudo correu bem. Uma escolha arriscada para fugir aos holofotes da opinião pública, é certo, mas entre ter de enfrentar uma manada de elefantes ou uma manada de paparazzi, Harry tomou a decisão certa. Pelo menos os elefantes tomam banho. 

Depois disto, o casal manteve a sua relação à distância: Harry em Londres e Meghan em Toronto. A atriz instituiu a regra de que teriam de estar juntos pelo menos a cada duas semanas, o que foi ótimo para o relacionamento mas péssimo para o planeta ao nível da pegada carbónica. Só que, em outubro de 2016, tudo mudou. Alguém descobriu que eram um casal e a notícia iria ser divulgada pelos tablóides. Um dos pontos chave deste documentário é precisamente a abordagem que os media fizeram ao facto de Meghan ser filha de mãe negra e pai caucasiano, com contornos que, segundo os próprios, ultrapassaram todos os limites. 

A questão racial tornou-se o centro da discussão ao ponto de Harry ter emitido um comunicado oficial a responsabilizar os tabloides por ataques racistas à sua namorada. Enquanto isto acontecia, “a firma”, como sempre, dizia que a regra é “no comment”. Esta é uma postura que Harry claramente desaprova e neste documentário ficamos com uma clara noção de que a questão da discriminação racial e do preconceito inconsciente são bandeiras do filho da princesa Diana, que afirma: “Os meus filhos são birraciais e eu tenho orgulho nisso”.

Harry vai mais longe ao considerar que o preconceito inconsciente existe com intensidade na sociedade inglesa e também nele próprio, o que faz com que seja um “work in progress” com que tem de lidar e melhorar. Este é, para mim, o ponto mais interessante da série, ver que um membro da família real britânica — com todo o seu histórico de império colonial no qual a escravatura teve um papel preponderante durante séculos — assume que há ainda muito trabalho a fazer para mudar as mentalidades e que ele está disposto a trilhar esse caminho.

A xenofobia, o racismo e quaisquer outras formas de discriminação só podem ser combatidas eficazmente quando aqueles que não são discriminados usarem esse privilégio para apoiar e dar voz às vítimas. Harry parece convictamente empenhado nesse combate e isso torna o tal conto de fadas menos ensombrado. “Príncipe William ou Príncipe Harry”? Para quem não queria escolher, Meghan até fez uma bela escolha. 

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