Televisão

“Princípio, Meio e Fim”: o novo programa de Bruno Nogueira é uma lufada de ar fresco

Mas não surpreende que seja incompreendido por parte do público. O primeiro episódio estreou este domingo, 11 de abril.
Os quatro argumentistas na sala de criação.

Há muito tempo que não havia um programa tão desconfortável em sinal aberto na televisão portuguesa. E isso vai gerar reações: alguns vão adorar a ousadia de “Princípio, Meio e Fim”, o novo formato de Bruno Nogueira para a SIC; outros vão desprezar o lado mais nonsense da coisa e nem sequer tentar compreender o programa, como já se confirma por muitos dos comentários espalhados pelas redes sociais fora.

Estreou este domingo, 11 de abril, pela meia-noite, e durou cerca de 45 minutos. Como o título indica, está dividido em três segmentos. No “princípio”, os quatro argumentistas estão juntos num estúdio vazio, munidos apenas de um quadro transparente para apontar ideias, e de um computador para escrever.

Bruno Nogueira, Nuno Markl, Salvador Martinha e Filipe Melo são os quatro guionistas que têm de criar uma história em apenas duas horas. O ponto de partida é sempre o mesmo: cinco amigos reúnem-se para jantar numa casa envolvida pela natureza.

É raro e engraçado o público ter acesso aos bastidores, conseguir assistir ao processo criativo, ao brainstorming editado com muito corte e costura. Os guionistas vão lançando ideias, umas mais lógicas, outras mais irracionais, até se formar uma narrativa. 

As regras são as seguintes: tudo o que escreverem vai ter de ser dito exatamente da mesma forma pelos atores. Se houver erros gramaticais, gralhas ou simplesmente esquecerem-se de dar uma fala a uma personagem (como aconteceu neste primeiro programa), os atores têm de traduzir precisamente o guião para o ecrã.

Como o processo criativo também faz parte do espetáculo, a equipa de produção programou uma série de distrações para os guionistas — que levam o tom do programa para o humor mais nonsense. 

O “meio” é o segmento mais curto. A realizadora Cristiana Miranda e a produtora Sandra Faria juntam-se aos autores para lerem o guião e perceberem como é que vão conseguir dar vida àquilo que decidiram inventar — desde os décors aos adereços, passando, neste primeiro episódio, pela exigente iluminação de um portal no meio do bosque.

O “fim”, claro, é aquilo pelo qual os espectadores aguardam ansiosamente desde que os argumentistas começam a trocar ideias de forma difusa: a fase da concretização. 

Albano Jerónimo, Nuno Lopes, Rita Cabaço, Jessica Athayde e o próprio Bruno Nogueira interpretam os cinco amigos — todos os episódios vão ser as mesmas personagens, com as mesmas características, embora o guião e a respetiva história mudem.

É divertido perceber o resultado final daquelas duas horas que nos parecem caóticas. Além das gralhas e dessa celebração do erro, nota-se logo o talento dos autores em muitos dos diálogos que criaram — e, acima de tudo, nesta fase nota-se o talento dos atores. Embora possam estar a dizer coisas por vezes estapafúrdias, defendem o texto com unhas e dentes e entregam-no da melhor forma. Por vezes, chega a parecer um filme de Yorgos Lanthimos.

Apesar dos diferentes segmentos, há uma linha contínua de tom, e os vários grafismos que vão aparecendo no ecrã também só ajudam a criar um fio condutor e a desenvolver uma relação mais consistente entre os espectadores e o conteúdo.

É óbvio que se trata de um programa desafiante, que será incompreendido por muitos nas suas diversas camadas — tal como já acontecera no passado com “Último a Sair”, “Odisseia” ou até “Som de Cristal”, outros formatos criados por Bruno Nogueira para a televisão. Mas, tal como o autor explicou numa entrevista detalhada à NiT, se tiver que escolher entre criar um programa que de certeza vai agradar ao público mas com que não se identifique; ou fazer um programa que o realize e que, ainda assim, tenha potencial para cativar algum público, vai sempre escolher esta segunda opção. É uma boa aposta fora da caixa por parte da SIC e um bom programa para o horário de late-night.

Num meio tão formatado como a televisão, “Princípio, Meio e Fim” é uma lufada de ar fresco. Mesmo que não seja genial, nem a melhor coisa que já se fez, ser esta lufada já é uma enorme qualidade nos dias que correm. Numa televisão em que quase tudo é entretenimento, ser arte é um statement valioso. Numa era em que tanto serve apenas para nos distrair e entreter, é fulcral que também haja quem nos estimule e desafie. Quem mostre que a televisão também pode ser isto — ou tantas outras coisas diferentes.

Bruno Nogueira continua a provar a sua imensa criatividade, versatilidade, a sua vontade de arriscar e de fazer coisas novas e a afirmar-se como um dos maiores autores portugueses. Neste caso, tem ainda o “pequeno” bónus de ter reunido uma equipa vasta de outros enormes talentos.

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